LUDY KISSASSUNDA, A VERDADE QUE VIRÁ SEMPRE AO DE CIMA…

Por Martinho Júnior

01- …pode demorar muitos e muitos anos, todavia a busca da verdade, sendo uma prática incessante, a ser levada a cabo de geração em geração, vai-se apurando e, como o azeite em água ela virá, no todo ou em gotículas resistentes, à superfície, como um precioso bem comum!…

A palavra “ludy” tem que ver com essa amplo e significativo apuramento, que resistirá desde as entranhas dos acontecimentos e se ainda não despontou, emergirá um dia, quando se fizer melhor luz e as águas forem menos agitadas!

Ludy” é uma palavra por outro lado carregada de intrínseca energia, fidelidade, vontade e vocação, que tanto se entrelaça com a substância do ser, um ser que desde então indiciava o compromisso dialético com a luta armada de libertação, com o pensamento e prática do Presidente António Agostinho Neto, numa revolução não-alinhada com forte personalidade e com a autodeterminação em busca de independência e de soberania de que tanto carecem ainda hoje os povos africanos!

Na verdade há uma inquestionável força que fez prova de vida, ao longo de todo o sopro humano que foi Ludy Kissassunda e por isso o eleva ao patamar dum perfil imprescindível entre os imprescindíveis: foi tanto quanto o possível fiel à revolução e sobretudo ao Amplo Movimento que desde a guerrilha deu corpo ao MPLA!…

Foi com combatentes lutadores dessa fibra que foi viável para Angola e para a África Austral acabar com o colonialismo, responder ao neocolonialismo vigente em muitos estados africanos, acabar com o institucionalizado poder do “apartheid” e dar ainda combate a muitas das suas sequelas, entre elas as que prefiguravam os “bantustões”, regimes étnicos que tanto tiveram a ver com os etno-nacionalismos engenhosamente montados pela via dos que “in extremis” se viram forçados à “africanização da guerra”, no estertor dos seus critérios retrógrados e refractários à civilização, a civilização de que se deve nutrir saudavelmente toda a humanidade!…

O Comandante de Coluna Kudy Kissassunda foi o segundo assinante da Proclamação das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, FAPLA, a 1 de Agosto de 1974, numa altura em que os spinolistas por dentro do Movimento das Forças Armadas, MFA, de Portugal, faziam tudo para reconhecerem exclusivamente as organizações etno-nacionalistas angolanas de feição e impediam o reconhecimento do MPLA!…

02- Ser Chefe nos serviços de informação e segurança no arranque da República Popular de Angola, era algo duma responsabilidade enorme, tendo em conta as agressões de que Angola era na altura vítima, com a utilização dos rótulos etno-nacionalistas que correspondiam aos mais terríveis apetites neocoloniais, inclusive os que pretendiam o anátema da “bantustanização” de Angola!…

Foi o 2º homem da Proclamação das FAPLA, o Comandante de Coluna Ludy Kissassunda, que assumiu esse cargo, enquanto fiel garante do poder do Presidente António Agostinho Neto e fê-lo a tal ponto, que mesmo trucidado pelos oportunismos internos e externos, (muitos dos quais ainda “no activo”), oportunismos dos que se aproveitaram desde logo dos reflexos da tentativa do golpe de estado de 27 de Maio de 1977, se manteve inabalável no seu patriotismo e em relação às mais legítimas aspirações de futuro do povo angolano!…

O Comandante Ludy Kissassunda jamais aceitou desrespeitar a figura do 1º Presidente duma Angola que acabava de alcançar a autodeterminação e iniciava uma longa luta para garantir sua independência, soberania e um lugar digno e justo nos relacionamentos internacionais!…

Quando após a sangrenta tentativa de golpe de estado, começaram as campanhas contra os que defenderam António Agostinho Neto, quando não havia outra alternativa senão a prova da verdade e da fidelidade, ao fazerem-no cumprindo com a legalidade de então, foram os justos, entre os quais se encontrava o Comandante de Coluna Ludy Kissassunda, que passaram a ser os alvos a abater!…

Tecnicamente, os que estavam à frente dos instrumentos do poder de estado poderiam usar suas prerrogativas de algum modo impedindo o Presidente de tomar medidas contra eles, mas sua conduta de “ludy”-fidelidade a toda a prova foi irrepreensível e o que tinham a dizer em sua defesa, foi apenas dito, sem alardes comunicacionais públicos, dentro das instituições do estado angolano que tinham a obrigação de respeitar e preservar, sobretudo no Conselho da Revolução, o órgão decisivo!

Na altura só a voz do Presidente António Agostinho Neto era decisiva e pública, por que a República Popular de Angola, com todas as fragilidades que advinham do seu parto, estava epicamente empenhada nas responsabilidades de contribuir com um peso maior para libertar a África Central e Austral do colonialismo, neocolonialismo e “apartheid”, projecto que se sobrepunha a tudo o mais!

Tal como procedeu em relação ao camarada Presidente António Agostinho Neto, procedeu em relação ao senhor Presidente José Eduardo dos Santos, enquanto Comandante-em-Chefe das FAPLA e mais tarde das FAA, dando o exemplo no sentido de todo o efectivo militar e de segurança ser motivado a honrar a pátria angolana que nascia e tanto carecia do cuidado dos patriotas, particularmente dos que foram os heroicos parteiros dessa fulgurante emergência revolucionária!

Como oficial que serviu na equipa chefiada pelo camarada capitão António Carlos que morreria em combate no seu posto de Delegado Provincial do MINSE no Huambo, oficial portanto num dos seus gabinetes mais próximos, o da Informação e Análise, testemunho a sua têmpera de fiel e incorrupto servidor da RPA sob a orientação e mando do Presidente António Agostinho Neto, quaisquer que fossem as conjunturas, os desafios, os riscos e as consequências!…

Na guerrilha não houve tempo para o Comandante de Coluna Ludy Kissassunda andar em escolas, por que as actividades da libertação num percurso de luta armada não davam margem para tal, mas no seu cargo, ele reservava além do mais sempre tempo e espaço para uma contínua superação, em grande parte feita de vocação e experiência autodidata!

Foi “ludy”-fiel ao estado angolano, durante toda a sua escola de vida, demonstrando que os servidores do estado angolano têm o dever de serem íntegros, cultores de mérito, rigorosos e exigentes para consigo próprios antes de o serem para com outros, à prova de qualquer tentativa de corrupção e jamais aceitarem práticas oportunistas, que tanto têm vindo, nas últimas décadas de tanto desvario, a prejudicar Angola!…

03- Durante a existência da República Popular de Angola, não se havia conhecido a extensão do Exercício Alcora, apesar dos indícios esparsos de sua vigência, decorrentes das leituras dialéticas levadas a cabo pelo Presidente António Agostinho Neto e pelo Presidente Samora Machel, ao longo de todo o processo de luta armada de libertação nacional em Angola e Moçambique, da África Austral e Central!

Também, além dos indícios, se desconhecia do seu amplo reaproveitamento, adaptado aos interesses que se conjugaram sobretudo entre os governos portugueses do “arco de governação” decorrentes do golpe do 25 de Novembro de 1975 em Portugal, o “apartheid” com seus mentores e interesses e os etno-nacionalismos forjados com o concurso da “africanização da guerra” em Angola e em Moçambique!

Mesmo assim, os Comandantes de Coluna das FAPLA e eméritos Oficiais Superiores delas nos primeiros anos da autodeterminação do estado angolano, ao se aplicarem na via do Não Alinhamento activo tiveram a percepção de muitos dos desafios, de muitos dos riscos e da necessidade de generalizar a luta tornando-a popular, a fim de se dar um passo decisivo na libertação dos povos da África Austral e Central quer do colonialismo-“apartheid”, quer dos círculos viciosos afectados por eles e seus aliados extracontinentais, a coberto do império da hegemonia unipolar!

Ainda no quadro do Grupo de Operações Especiais da Segurança do Estado-Maior Geral das FAPLA, houve uma iniciativa que comprova essa lúcida percepção: uma equipa de instrutores internacionalistas, da qual fiz também parte, integrou o primeiro Centro de Instrução Revolucionária que aproximava o Unkhonto we Sizwe, do ANC da África do Sul e o Peoples Liberation Army of Namibia, da SWAPO, na área da Funda, a norte de Luanda… graças às iniciativas dos Comandantes de Coluna das FAPLA, sob orientação directa do Comandante de Coluna Iko Carreira e estratégica do Comandante-em-Chefe das FAPLA, António Agostinho Neto!

Os combatentes do MPLA, do PAIGC, da FRELIMO aprenderam a constante necessidade de unidade e coesão no decorrer da luta armada de libertação, até por que desde o seu simbólico berço, a 4 de Janeiro de 1961 e a 4 de Fevereiro de 1961, na Baixa do Cassanje como em Luanda, tiveram de avaliar quanto em socorro do colonial-fascismo e do “apartheid” estava a NATO, providenciando o indispensável arsenal de equipamento e armamento contra o então ainda incipiente e embrionário movimento de libertação em África a sul do Sahara!

O Comandante de Coluna Ludy Kissassunda, à frente dos transitórios organismos de inteligência e segurança (tão transitórios que ao invés de Ministério eles tinham a designação de Direcção de Informação e Segurança de Angola, DISA), esteve por dentro de todas as iniciativas nesse quadro embrionário!…

04- Por defender António Agostinho Neto, as campanhas internas e internacionais foram sendo sucessivamente desencadeadas, onda após onda, até nossos dias… contra ele e contra muitos dos seus oficiais, também oficiais das gloriosas FAPLA, por que ao poder externo dominante interessou sempre colocar todas as sensibilidades angolanas ao nível dos etno-nacionalismos de feição, utilizando para o efeito e em tempos oportunos, os mais aliciantes rótulos e manipulações de que seus laboratórios são pródigos!…

A corrente dessas campanhas foi engrossando com mais vigor desde o primeiro dia em que pararam as batalhas em solo angolano, pois as conjunturas se tornaram férteis para que assim acontecesse, dentro e fora das fronteiras angolanas, no exterior sobretudo a partir dos alfobres que germinam “afortunadamente” desde Portugal do “arco de governação”, inspirado em contenciosos antigos e parcerias contra natura acabadinhas de estrear nos seus projectos neoliberais!…

Nada acontece por acaso, nos rios de fervente tinta entornada, na ênfase das declarações com suas cargas emocionais, algumas delas as mais inverosímeis, outras as mais retrógradas, nos números das hecatombes que se foram contabilizando e reinventando…

Até dia 8 de Janeiro de 2021, passados 21 dias da criação da Comissão de Averiguação e Certificação de Óbito para Vítimas de Conflitos Políticos (CAVICOP) do Ministério da Justiça de Angola, apenas 14 solicitações tinham dado entrada naquele organismo, muito longe dos alarmantes números que foram sendo de antemão prognosticados pelos deuses da propaganda ao longo dos anos, de décadas…

Os organismos centrais dos instrumentos do poder de estado da República Popular de Angola, que responderam à tentativa do golpe de estado do 27 de Maio de 1977 subordinaram-se a um tribunal ad hoc que julgou sumariamente e emitiu os vereditos em relação aos participantes que foram para ele conduzidos… e os seus componentes jamais foram sujeitos a contraditório, tal como os que por dever ético, moral e de “ludy”-fidelidade defenderam “in extremis” o Presidente António Agostinho Neto e o estado angolano…

O empolamento da corrente que engrossou essas campanhas teve sempre o camarada Comandante de Coluna Ludy Kissassunda como um dos seus mais referenciados alvos, por que os instrumentos de poder do então estado angolano nascente, seguraram inequivocamente e a quente o essencial da projecto patriótico da autodeterminação que levaria à continuidade da luta contra componentes do Exercício Alcora que não haviam desistido de controlar da forma mais bárbara a África Austral e Central!…

Esses instrumentos do poder de estado da República Popular de Angola abriam caminho a uma independência e soberania que se queriam plenas e isso era insuportável para muitas das mais poderosas entidades internacionais sob a égide do império da hegemonia unipolar e seu cortejo de avassalados!…

Os oficiais sobreviventes, muitos deles juramentados, mantêm ainda hoje um dever patriótico, anti-imperialista e uma obrigação moral: mesmo que tantos tenham “atirado a toalha ao tapete”, defender o estado angolano hoje como ontem, agora no âmbito duma comunidade de inteligência e segurança que foi finalmente reconhecida como tal…

Por causa da sua fidelidade uns poucos foram até duplamente penalizados: pelos sacrifícios que nas horas decisivas tiveram que consentir com risco de suas próprias vidas e de suas famílias e pela marginalização a que foram sendo votados ao longo de décadas, enquanto muitos dos que foram um dia conotados ao fenómeno fraccionista, tal como muitos dos que haviam preenchido as fileiras dos agrupamentos etno-nacionalistas, eram projectados até para cargos governamentais de topo, em nome da democracia, da reconciliação, da reconstrução nacional e da paz… e cada vez menos em nome do socialismo!…

A orientação socialista serviu para a luta contra o colonialismo, contra o “apartheid” e contra muitas das suas sequelas, algumas delas aproveitadas pelos mentores e instrumentos do poder hegemónico que ainda em nossos dias se quer fazer de dominante, ainda que à custa de suas próprias ementas democráticas… mas não serviu para a paz, quando a paz é tão carente de justiça social, de participação e de protagonismo solidário, de socialismo na hora em que o próprio planeta foi estafado pela irracionalidade humana!…

Os resultados dessa opção estão visíveis!…

A serenidade do Comandante de Coluna Ludy Kissassunda enquanto vector dum Amplo Movimento prevaleceu durante essas décadas e a maneira como ele se conduziu por vezes em situações difíceis ainda que de outro cariz, inspirou sempre no sentido da “ludy”-fidelidade imprescindível à lógica com sentido de vida, essência do movimento de libertação em África e esse é um inestimável património comum imaterial, pronto para ser repartido como pão para todos os patriotas dignos e solidários às mais legítimas causas do povo angolano!

05- Numa das intervenções relativas ao camarada Comandante de Coluna Ludy Kissassunda, que um dia foi também meu chefe, tive a possibilidade de por fim sublinhar respondendo à atenção que desde Cuba foi dada em jeito de curto comentário à comunicação sobre seu falecimento, por uma companheira que nutre por Angola um especial carinho e respeito:

… “O camarada Comandante Ludy sempre fez sentir entre seus efectivos, a trincheira comum Tricontinental e essa escola animou-nos e anima-nos como uma força de vocação geoestratégica, que também sustenta a vocação da liberdade enquanto lógica com sentido de vida, de que Cuba é um santuário e um farol para toda a humanidade!…

Todos nós alimentámos e alimentamos nossas vocações nessa continental trincheira, de Argel ao Cabo da Boa Esperança, uma trincheira afinal multicontinental, que abarca todo o Sul Global, que não vai deixar de existir num momento em que por decrepitude capitalista sobretudo da hegemonia unipolar, se esgotam em meio ano os recursos que a Mãe Terra pode apenas fazer revitalizar num ano!…

Assim, por razões imprescindíveis, A LUTA CONTINUA e ficam, os patriotas angolanos da luta armada de libertação em África, imensamente reconhecidos para com a Revolução Cubana e seus tão heroicos quão esclarecidos Comandantes que um dia assumiram pagar a dívida que a humanidade tem para com África, algo que não se esgotou, particularmente nos termos solidários do amor de que África está ainda tão carenciada!”…

Luanda, 9 de Janeiro de 2021.

Imagem recolhida por MJ – 15 JAN 21.

Algumas das referências consultadas:

https://www.tpa.ao/…/nacionalista-ludy-kissassunda…/

https://www.tpa.ao/…/comissao-recebeu-14-pedidos-de…/

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    MBEMBA NGANGU: O HERÓI DO BEMBE QUE SALVOU UÍGE

    Por Filho do Kivuzi (Vamba)

    “Mbemba Ngangu” foi um soba e herói local que mobilizou o seu povo e as aldeias vizinhas para a resistência contra a ocupação colonial portuguesa. A sua luta teve grande apoio das populações ribeirinhas do rio Lucunga, uma zona estratégica do antigo território.

    Mbemba Ngangu é um nome em Kikongo, um cognome dado pelo próprio povo em reconhecimento à sua liderança. Etimologicamente, significa: Mbemba (“Águia”) e Ngangu (“Visionário” ou “Astuto”). A águia representa a visão ampla do campo de batalha e a rapidez no ataque, enquanto Ngangu reflete a sua inteligência tática e capacidade de antever os movimentos do inimigo.

    Natural da região de Mbamba — território que hoje corresponde ao município do Bembe —, Mbemba Ngangu terá vivido entre os séculos XVI e XVII, período em que o Reino do Kongo enfrentava as primeiras incursões portuguesas no interior. A província de Mbamba era a mais militarizada do Reino do Kongo, responsável pela defesa sul.

    Para perpetuar a sua memória, o herói foi homenageado na cidade do Uíge com um busto e com o topónimo de um bairro: o Bairro Mbemba Ngangu. Morreu em combate, defendendo as terras do seu povo, tornando-se um símbolo eterno da resistência Kongo.

    5 de MARçO de 1965

    Por Sousa Jamba

    Há datas que não entram apenas na história: entram na carne moral de um povo. O 15 de Março de 1961 é uma dessas datas severas, dessas datas que deixam de pertencer ao calendário para passarem a pertencer à consciência. Foi nesse dia, no Norte de Angola, que a contestação ao colonialismo português deixou de ser murmúrio clandestino, conspiração fragmentária ou esperança sem armas, para se converter em guerra. A UPA, operando a partir de bases no Congo-Léopoldville, desencadeou a insurreição que transformou o nacionalismo angolano numa rebelião rural de massas. Milhares de homens atravessaram a fronteira; a autoridade colonial foi atingida com violência; e o império português descobriu, de súbito, que Angola já não cabia na ficção burocrática das «províncias ultramarinas». A partir desse momento, a questão angolana impôs-se, com urgência própria, como problema africano e internacional.

    É precisamente por isso que o silêncio em torno da FNLA, herdeira directa da UPA, tem qualquer coisa de excessivamente útil para ser inocente. Não se trata de simples esquecimento, nem de uma modesta economia pedagógica. Trata-se, antes, de uma operação mais funda e politicamente mais rentável, pela qual uma parte decisiva da história de Angola foi sendo empurrada para a margem, depois para a penumbra, e por fim quase para a inexistência. Ora, a FNLA não foi um acidente periférico da libertação angolana, nem um episódio menor que a marcha ulterior dos vencedores pudesse legitimamente reduzir a nota de rodapé. Em meados da década de 1960, FNLA, MPLA e UNITA eram reconhecidos como os três movimentos principais na disputa da liderança nacional; e foram precisamente esses três que surgiram inscritos no processo de transição consagrado em Alvor. O rebaixamento retrospectivo da FNLA não nasceu dos factos. Nasceu, isso sim, da vitória posterior de uma narrativa de Estado, mediante a qual um poder triunfante converte a contingência da sua ascensão em necessidade histórica e a vantagem militar em superioridade moral.

    A caricatura mais repetida sustenta que a FNLA não passou de uma expressão bakongo, étnica e circunscrita. É evidente que a espinha dorsal do movimento se encontrava no Norte e nas comunidades exiladas do Congo. Mas reconhecer esse dado não equivale a desqualificar o movimento; identificar uma origem não é o mesmo que decretar um cativeiro. A UPA nasceu nesse espaço porque ali existia uma base social efectiva, uma memória política anterior ao traçado colonial e uma experiência concreta de mutilação territorial. O antigo Reino do Kongo precedera as fronteiras coloniais. Numerosas famílias bakongo viviam a linha Angola-Congo não como verdade histórica, mas como corte administrativo imposto de fora. E a repressão portuguesa tornava quase impossível qualquer forma de organização legal dentro de Angola, empurrando activistas para o exílio, onde podiam recrutar, treinar, imprimir propaganda e estabelecer contactos. Nada disto diminui a legitimidade da UPA. Pelo contrário: inscreve-a num padrão mais vasto da história africana do século XX, no qual diversos movimentos de libertação se organizaram fora do território colonialmente dominado. Uma raiz não é uma prisão.

    A transformação da UPA em FNLA constituiu, justamente, o esforço deliberado de conferir ao movimento uma moldura mais ampla, mais articulada e mais nacional. Sob Holden Roberto, a causa angolana adquiriu contactos, voz diplomática, presença em fóruns internacionais e uma estrutura política que lhe deu contorno, consistência e duração. Em 1962, a criação do GRAE, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio, representou um passo decisivo: pela primeira vez, uma estrutura angolana apresentava-se não apenas como movimento de resistência, mas como autoridade que reivindicava representar Angola perante o exterior. Estados africanos e a Organização da Unidade Africana reconheceram essa estrutura e trataram-na como interlocutora legítima da causa angolana. Não se concede semelhante estatuto ao que é irrelevante. Não se reconhece, com tal solenidade, aquilo que não pesa.

    A FNLA construiu igualmente uma máquina política e militar real. Nos campos de treino próximos de Kinshasa, milhares de combatentes foram preparados para a guerra de guerrilha; a ELNA não era uma ficção musculada para consumo externo, nem uma cenografia ideológica erguida para iludir observadores estrangeiros. O movimento organizou, além disso, assistência a refugiados e programas médicos destinados aos deslocados. E, apesar da sua forte implantação bakongo, a FNLA não foi um corpo etnicamente selado. Entre os nomes ligados ao governo no exílio figuram José Lihauca, médico na área da Saúde, e Dr Jonas Malheiro Savimbi, que desempenhou funções relevantes na representação externa antes da ruptura que o afastaria de Holden Roberto. A composição do movimento era, portanto, mais larga do que a caricatura permitiu admitir, e mais complexa do que a simplificação escolar se mostrou disposta a tolerar.

    Digo tudo isto também a partir de uma memória pessoal, que não substitui a história, mas por vezes a ilumina. O meu pai, Tavares Hungulu Jamba, pertenceu à UPA, tendo sido recrutado por quadros enviados do Norte para o Planalto Central, concretamente para a Missão do Dondi. A minha irmã, Altina Flora Jamba, foi membro sénior da Ala Juvenil da FNLA no Planalto Central. Lembro-me dos homens vindos do Norte, sentados em nossa casa, entregues a conversas longas, densas e tensas, como se cada frase transportasse, ao mesmo tempo, um segredo e um risco. Vários familiares próximos, depois do exílio de 1961, acabaram integrados na UPA. A FNLA teve braços, fidelidades e circuitos humanos muito para além da caricatura escolar. Passou por casas, atravessou geografias, tocou famílias, deixou marcas. Não foi, para muitos angolanos, uma abstração; foi uma presença.

    A caricatura persistiu porque era útil. A verdade complicava em excesso a liturgia dos vencedores. Implicaria reconhecer que a UNITA emergiu, em parte, do mesmo tronco histórico; que figuras posteriormente denunciadas como traidores haviam sido, em certo momento, jovens angolanos movidos por impulsos nacionalistas inteligíveis; que atravessaram fronteiras não por venalidade, mas porque queriam juntar-se à luta. A história real raramente oferece a pureza moral com que os regimes sonham educar os seus catecismos. É sempre mais ambígua, mais desconfortável, mais resistente à pedagogia do poder. A FNLA não precisa de hagiografia. Precisa, simplesmente, de lugar histórico. Negar-lhe esse lugar não é fazer história; é administrar o esquecimento como se ele fosse património privativo de um partido, prolongando, em tempo de independência, a mesma lógica de mutilação selectiva que o colonialismo exercia sobre os corpos, agora exercida sobre a memória.

    Angola merecia melhor. Merecia que o 15 de Março pudesse ser pronunciado sem catecismos nem reflexos condicionados; que a UPA fosse reconhecida como a faísca que incendiou o Norte e obrigou o império a despertar da sua arrogância; e que a FNLA regressasse ao lugar que lhe cabe, não o de remorso incómodo da historiografia oficial, mas o de um dos actores centrais da libertação, com grandezas e misérias, como todos os outros. Um país que consente semelhante fraude contra a sua própria memória empobrece o seu futuro, porque ensina os vivos a venerar, não a verdade, mas a versão autorizada dela.

    História do Kongo

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