“MENINO KATUMBU”: A PRIMEIRA OBRA INFANTIL DO UÍGE

Por Alfredo Dikwiza/Jornalista

Uíge, 28/07 (Wizi-Kongo)- “Menino Katumbu”, do escritor Garcia Pedro Teleka, é a primeira obra literia infantil da província do Uíge, que, no dia 01 de Junho, aàs 10 horas, na escola do Magistério Cor Maria, no centro da cidade do Uíge, será colocada ao público para sessão de vendas no valor de 3.500,00 (três mil e quinhentos kwanzas”, sublinhou, hoje, terça, ao Wizi-Kongo, o proprietário do livro que contém 24 paginas.

Como disse, o titulo em referência «O MENINO KATUMBU», é um conto culturalmente forte e muito abrangente no mundo da literatura infantil, é um conto que resume um episódio do menino de nome Mwanza, isto é, na cidade do Carmona que pelo seu aspecto físico, sua forma de agir e de ser, suscitava curiosidades para quem o visse pela primeira vez.

“E, segundo a tradição mística da zona, ele apresentava uma característica de um filho proveniente de sereia”, sustou o escritor.

Licenciado em Economia, na especialidade de Economia Monetária, na Faculdade de Economia da Universidade Kimpa Vita do Uíge, Garcia Pedro Teleka, nasceu na aldeia do Vamba, município do Bembe, província do Uíge, em 1991. Seu gosto pela literatura nasceu em 2007. Entretanto, é fundador do Centro de Alfabetização Mundo do Saber, onde criou o Clube das Artes Estrelas do Saber, com objectivo de ajudar as crianças a cultivar o amor pelas artes e leitura; começando por contar estórias, ensinando canções, poesia e o teatro.

No seu percurso, foi membro do Movimento Literário Viva Arte do Uíge, onde ocupou o cargo de Secretário Executivo e como Actor, fez parte do Grupo Protesa Teatro, onde ocupou, igualmente, o cargo de Secretário Executivo e, é, também, mentor e Coordenador Executivo do grupo Círculo Literário Letras Vivas, grupo vencedor do prémio Rostos do Uíge 2019, na categoria Literatura – Melhor Grupo do Ano, mentor da Associação Geração Visionária.

É Escritor, Mentor de Projectos Sociais, Formador nas Áreas de Literatura (especificamente em Escrita Criativa) e Professor do IIº ciclo do Complexo Escolar nº 40 de Vista Alegre, nº 40, onde leciona a disciplina de Empreendedorismo.

  1.  Como escritor, Pedro Teleka, destacam-se várias publicações em revistas de literatura nacional e internacional, como: a Revista Internacional Òmnira da Baia – Brasil, Revista Kamba e Coletâneas como: Com Amor & Luta, organizado pelo Escritor brasileiro, Roberto Leal e a Coletânea Escritos de Quarentena, organizada pelas Edições Handyman e nos últimos anos, publicou diversamente na página Cultura, isto é, em sugestão de leitura, do Jornal Folha 8. Actual Director Geral do Centro de Alfabetização Nova Sabedoria, Director de Gestão da Gáfica Makango e Professor.
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    Yala Nkuwo

     

    Da copa da Yala Nkuwo

    O Ntoyo pelo mpungi soprou

    Eh yaya, vejo grande tempestade

    De mafumeira e lianzi do Malongo

    A ngoma e ndungu do Soyo

    Pelo kahombo e sanha do Tomboco

    O incêndio pegou

     

    Kalunga do Mar e do Fogo

    Se revolveu e revoltou

    os ventos e trovões

    Soprou as chamas das bocas

    Das sondas que lhe espetaram

    No nkuwo para lhe extraírem

    Petróleo e gás que mataram

    O ar dos pulmões

    E o peixe das bocas do Povo

     

    As chamas estão a chegar

    Nzambici

    Teus ramos braços

    Tuas folhas dedos

    Dos Ntontila do Kulumbimbi

    apontando Ngonde

    Vão todos queimar e tombar

    Eu mesmo daqui vou voar

    não sei para onde.

     

    E a tempestade chegou

     

    Nkondi dentro do tronco Nkisi

    Da Yala a seiva renovaram

    Com sangue dos Ntontila do Mbiro

    Suas raízes entrelaçaram

    com as das Nsanda do Mayombe

    E até da Mulemba Waxa Ngola

    Copiosas chuvas convocaram

    O nguzu do Nzadi Kongo reforçaram

    Kalunga acalmaram

    E do seu nkuwo extraíram

    As sondas que tanto mataram.

     

    E a tempestade passou

     

    No Nkuwo da Árvore Sagrada

    Bakulo se sentaram em reunião

    Para julgamento do Ntoyo

    Por ignorar que Kalunga e Yala

    São espíritos da mesma criação

    De Nzambi ya Mpungo Tulendo

    Por duvidar do poder

    E da força da tradição

    Há milénios nunca quebrada

     

    O Ntoyo nunca voltou

    Foi o único que o vento levou.

     

    A.K. (08/23)

     

    Notas:

    1. Mpungi: Trombeta

    2. Mafumeira, Lianzi, Ngoma, Ndungu, Kahombo, Sanha: Nomes de plataformas petrolíferas

    3. Nkuwo: Chão/Tapete Sagrado

    4. Mbiro (ou ‘Ambiro’): Antigo ‘Nzo a Nkisi’ (cemitério) dos Ntontila na floresta

    BUKAMA: FUTURO E UTOPIA, UM CONTRIBUTO PARA A COMPREENSÃO DA ANGOLA COLONIAL E PÓS- COLONIAL.

    Bukamá, livro de autoria de Bens Nyoka Abílio, pseudónimo literário de Benção Cavila Nyoka Abílio. Nasceu na Missão Baptist Missionary Society em Kibocolo, município do Zombo, província do Uíge, em 1959.

    A obra Bukamá pertence ao género narrativo, porquanto se serve do discurso narratológico para transmitir de forma grossa os problemas mais funestos de Angola no período colonial e a consequente desilusão da época pós-colonial. Concomitantemente, a obra é um romance histórico, porque o seu autor, à volta de um núcleo central sobre a história de Angola nos períodos colonial e pós-colonial, cria vários subnúcleos secundários para recriar a história e proporcionar aos leitores parte crucial da história de Angola, no entanto prenhe de uma ficcionalidade contínua.

    No campo da teorização histórica da literatura, Bens Nyoka Abílio pertence à Geração das incertezas, ou seja, à geração literária de 80 do século XX. Este período tem início com a Independência de Angola e traduz, por si só, uma ruptura no plano do discurso literário, os escritores da Geração das incertezas servem-se grandemente do discurso narrativo para descrever a descrença e a desilusão dos sonhos da independência. Por conseguinte, uma geração literária é caracterizada pelas experiências colectivas, isto é, vivências da história do globo, influências académicas, visão de mundo e outros factores, todavia também o é pelo factor biológico, como o disse o professor e crítico literário Luís Kandjimbo, pois todos os escritores da geração a que faz parte o autor supracitado nasceram na década de 50 do século XX, precisamente entre 1950 a 1959.

    No âmbito do enquadramento histórico-literário das produções estéticas escritas, Bukamá, enquanto património cultural imaterial da literatura e história de Angola, enquadra-se no quarto período da Literatura angolana, compreendendo o período que se estende de 1940 a 1960, período histórico crucial na organização dos movimentos políticos e a concomitante luta para a independência de Angola. Linguisticamente, o texto textualiza-se em dois códigos, português e kikongo. As frases são simples e sintaticamente menos elaboradas, consequentemente, quer o bilinguismo, quer a estrutura frasal simples e menos elaborada visam apresentar com real semelhança as massas de Angola e o modo de vida da época Em Bukamá compara-se os políticos de Angola a organismos vivos, isto é, com nascimento, crescimento e falecimento, à maneira de uma explicação, os políticos angolanos foram fecundados pela situação colonial ostracizante, cresceram combatendo o sistema colonial e o vencendo e faleceram falhando os ideais do nacionalismo pré-independência.

    A obra é, essencialmente, um manifesto do realismo angolano, o seu narrador é o seu autor que conta todos os factos a partir do relato das testemunhas, portanto não participa na história, contando-a na terceira pessoa. Entre os factos a que a obra faz alusão, sobressaem a miscigenação cultural e biológica, a ambição desmedida dos líderes partidários, o exílio, a morte dos sonhos do povo, a guerra fratricida e a miséria pós-independência.

    Bukamá, em Kikongo baixar ou baixar-se, reflete a morte dos sonhos de um povo, visto que, o entusiasmo de muitos filhos de Angola, metaforizados pelos protagonistas Cristina e Vunga, transformaram-se em pessimismo, em luto. Os sonhos foram enterrados no solo da ambição desmedida de Neto, de Savimbi, de Roberto e quiçá de um dos Santos. A personagem Cristina é a metáfora do povo angolano, dura e severamente oprimido pelos três movimentos políticos que lutaram para independência de Angola.

    À maneira de se fazer um epílogo, dir-se-ia que a obra é assaz importante para a instituição literária angolana e é um importante manancial para o conhecimento da história colonial e pós-colonial da vida angolense. Portanto, não é um instrumento integrante para compreender a história de Angola, é um instrumento fundamental e senão mesmo essencial, o qual não se pode retirar se se quiser compreender e apreender as idiossincrasias do mosaico histórico angolano proporcionado pelos três movimentos que lutaram pela Independência nacional, assim se recomenda que se faça a leitura desta importante obra, entretanto que a referida leitura seja feita na calada morna da noite, na companhia da razão de Apolo.

    Via opaís.

     

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