Fernando Miala, o novo patrão dos Serviços de Segurança

Por José Gama

 

 

 

 

 

É considerado como um dos melhores peritos de inteligência do país e com aptidões determinantes para o funcionamento de um serviço de Intelligence. Em Maio de 2015, o seu nome foi apontado, numa cimeira da Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos (CIRGL), em Luanda, como alguém com “perfil indicado” para promover e sistematizar uma boa coordenação entre os órgãos nacionais de segurança e intelligence dos países da organização.

Fernando Garcia Miala, que em finais do ano passado esteve a fazer superação na Rússia, para regressar a comunidade de Inteligência, nasceu e cresceu em Luanda, cidade onde os seus progenitores (pai natural do Uíge e mãe do Kwanza-Sul) ai mudaram. Na adolescência era muito ligado a um irmão João Garcia Miala Júnior. Ambos frequentavam a mesma escola (Escola 83 e Magistério primário na vila-Alice) até se terem separados com a ida do irmão a Bulgária por intermedio de uma bolsa cedida pela JMPLA.

Ao contrario do irmão que esteve ligado a JMPLA, Fernando Garcia Miala, era conotado a BJR- Brigada da Juventude Revolucionária, uma organização paramilitar da FNLA. Porém, no seguimento da expulsão desta força política de Luanda, alguns dos seus familiares haviam se refugiado na RDC, antigo Zaire. Fernando que estava em Luanda, seria detido pela segurança de Estado e dai recrutado para as FAPLA, precisamente no ramo da Contra Inteligência Militar.

Como oficial de inteligência, Miala foi no inicio da década de oitenta destacado para São Tome, servindo um destacamento das FAPLA, ai estacionado. Mas seria, no regresso ao país, que fora enviado para trabalhar em Saurimo, cidade que acolhia a Escola de Instrução da Segurança de Estado.

Entrada para o “futungo de Belas”

De acordo com pesquisas, Fernando Miala entrou para o então “Futungo de Bela”, ainda em meados da década de oitenta, depois ter sido descoberto por um então segundo tenente da área das operações da Presidência angolana, José Manuel Domingos, que mais tarde seguiu para a Checoslováquia, em formação (Direito Internacional).

Estava-se no período de guerra fria e a Checoslováquia era um dos principais aliados de Angola no fornecimento de armas. Há certa altura, os serviços de segurança junto a Presidência da República precisavam de um operativo para investigar o desaparecimento da filha do então embaixador Checo, em Luanda que havia sido raptada, em Luanda, nas mãos de um marginal identificado por “Zé Povim”. As investigações estavam a ser levada a cabo por José Manuel Domingos, hoje conhecido por Brigadeiro “Tunecas”.

A Presidência entendeu despachar o brigadeiro “Tunecas”, para a República Checa, a pretexto de formação para aproximar-se das autoridades daquele país aliado, face ao incidente ocorrido em Luanda. Por seu turno, José Domingos “Tunecas” foi orientado a arranjar alguém para o substituir nas investigações ao rapto da filha do embaixador Checo. Este por sua vez, olhou para as províncias e identificou em Fernando Miala, colocado em Saurimo, qualidades de um operativo organizado que podia dar sequencia nos trabalhos de investigação e de o substituir na Presidência da República.

Assinalada que estava a entrada de Fernando Garcia Miala, para o “futungo de Belas”, rapidamente ganhou simpatia do então major António José Maria, a época Secretário do Presidente para Defesa e Segurança e que ai trabalhava desde 1978. José Maria que passou acumular responsabilidades sobre a Contra Inteligência militar (CIM) fez do jovem Garcia Miala, seu oficial de campo.

Rotura com general “Zé” Maria

Estava-se agora no multipartidarismo, processo este que também encontra Fernando Miala, já na estrutura da então Secretária do Presidente para Defesa e Segurança, a predecessora do que é hoje chamada Casa de Militar do PR.

Na esteira deste processo de abertura política, um sobrinho de Savimbi, em Luanda, Elias Salupeto Pena, a época o Chefe da Delegação da UNITA à Comissão Conjunta Político -Militar (CCPM), convocou uma reunião para exigir explicação sobre um documento assinado por José Eduardo dos Santos dando instruções a “Zé” Maria. Na reunião estavam, a então representante da ONU em Angola, Margareth Anstee e por parte do governo o general António França a “Ndalu”. O documento exibido era classificado “versão única”, e havia sido vazado do gabinete do general Zé Maria.

Ao tomar conhecimento do embaraço, o Presidente JES chamou atenção do general José Maria sobre a fuga do documento comprometedor que foi parar nas mãos da UNITA, e este por sua vez responsabilizou o seu oficial de campo, Garcia Miala pelo seu extravio e o afastou da Secretária do Presidente para Defesa e Segurança.

Reabilitado por “Kopelipa”

Afastado, que estava, Fernando Garcia Miala seria então recuperado pelo antigo comandante da extinta FAPA ( Força Aérea) na frente Sul, Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa” que na presidência dirigia um departamento de inteligência que atendia pelo nome “COSSE”, que na prática tinha a natureza de “privado do presidente”. “Kopelipa” comunicou a JES que face a carga de trabalhos relacionado a UNITA, passaria a trabalhar com o antigo oficial de campo do general José Maria, e este concordou.

A certa altura, isto depois de 1993, o general “Kopelipa” que acumulava a direção do COSSE com o GEPA – Gabinete de Estudos, Pesquisas e Análises, órgão adstrito ao Gabinete presidencial passou a viajar com frequência para negociar a compra de armas a Rússia para combater a UNITA e Fernando Miala, embora sem nomeação formal, passou por algum tempo a dirigir o COSSE. Por ter sido subordinado do general “Kopelipa”, até aos dias de hoje, ele trata aquele por “Chefe”.

Em meados dos anos 90, Fernando Miala, já estava feito figura-chave da “entourage”, de Eduardo dos Santos. Foi promovido a brigadeiro e nomeado vice-ministro do interior para a segurança interna, mas acabaria por ser afastado na sequencia de desinteligências com o então ministro Fernando da Piedade Dias dos Santos “Nando”, que propôs ao Presidente da República a nomeação de um antigo colaborador do extinto MINSE, Fernando Eduardo Manuel.

O demitido vice-ministro do interior, regressou ao COSSE, na sua forma extensa Comando Operativo de Segurança Externa. Paralelamente ao seu regresso, JES fez aprovar um novo estatuto orgânico deste departamento, que passou a adotar a designação de Serviço de Segurança Externa da República de Angola (SSE), funcionando nas antigas oficias do Futungo de Belas. O brigadeiro Fernando Miala foi então nomeado seu director-geral.

Desmantelamento da UNITA no exterior

A nomeação do novo patrão do Serviço de Segurança Externa, acontece no auge do conflito armado em que as tropas de José Eduardo dos Santos tentam tomar de assalto o Bailundo, então bastião de Jonas Savimbi. Fernando Miala centrou o seu trabalho em criar um estado de opinião perversa a imagem de Savimbi e a desmantelar redes externas da UNITA. Um dos seus principais alvos, foi o general Baptista Vindes, a época, alto oficial da Inteligência da UNITA que alvitrara a partir do Togo, o abastecimento da logística da guerrilha.

Miala teve êxito em levar para Luanda, um filho de Savimbi, Araújo Sakaita aliciado a partir do Togo, onde era estudante. Falhou noutras operações, que foram abortadas pela Agência Nacional de Informação (ANR – serviços secretos) do Togo, que agindo em favor da UNITA, emboscou um operativo seu, Casimiro Manuel da Silva, que se deslocara a Lomé, para raptar um outro filho de Savimbi, Eloi Sassandaly Sakaita.

Um outro operativo seu, identificado por “Contreiras”, colocado na embaixada de Angola na Costa do Marfim, também falhou no aliciamento de uma irmã de Jonas Savimbi, Judith Pena, em Lomé e no rapto de um operativo Celino Saveyile, que a partir de Abidjan coordenava as comunicações externas do líder da UNITA com o resto do Mundo.

A fracassada acção dos operativos de Fernando Miala, levou com que as chefias da UNITA no norte de Africa solicitassem um encontro com o Coronel Touré, ex- chefe da guarda presidencial da Costa do Marfim pedindo que persuadissem as autoridades angolanas a não transferir o conflito para aquele país, porque qualquer atentado contra a integridade física dos seguidores de Savimbi, conforme fizeram saber, resultaria em retaliação violenta.

Morte de Savimbi

Como colaborador directo de JES, Garcia Miala é citado por fontes de inteligência como a figura que convenceu o Presidente a baixar as armas depois da morte de Savimbi, evitando perseguição aos colaboradores de Savimbi.

Logo a seguir, Fernando Miala deslocou-se a Zâmbia para convencer um sobrinho de Savimbi, o brigadeiro Esteves Pena, a regressar ao país. Esteves Pena, foi o numero dos serviços de segurança da UNITA, na década de 80. O mesmo havia atravessado a fronteira com a Zâmbia, depois da morte do tio levando com que o SIE, julgasse que pretendesse se reorganizar com um outro general, Kamalata Numa – que estava em parte incerta nas matas – para vingarem a morte do líder do partido.

Em Outubro deste mesmo ano, Miala viajou para o Togo, onde foi recebido pelo Presidente Gnassingbé Eyadéma a quem assegurou que estavam reunidas as condições em Angola para receber e instalar todos os angolanos que aquele país acolhia. Dois dias depois, o general Miala viajou para o Burkina Faso, para transmitir a mesma mensagem ao Presidente Blaise Compaore.

Na digressão, o general Miala levou consigo operativos da secreta da UNITA, (Brig. Silas Nunulu, Coronel Jojo Chitende) desertados a partir da Zâmbia e outros – de nome imprecisos – que tinham seus familiares nestes dois países, do norte de Africa a fim de mostrar que estavam a ser bem tratados em Luanda e que podiam todos regressar a Angola. Como demonstração da sua sinceridade disse aos militantes da UNITA, neste país que quem quisesse regressar a Angola podia subir no avião que o levou e seguir com a sua comitiva.

Restruturação do SSE

Em finais de 2002, o SSE é restruturado para um novo contexto de paz passando a chamar-se Serviço de Inteligência Externa (SIE). Fernando Miala, o sujeito da historia é reconduzido a director geral. Simultaneamente, o então Presidente o nomeou Secretário do Conselho Superior de Segurança Nacional, uma nova estrutura que o permitia estar na condição de coordenador de todas as secretas existente no país. Miala era o patrão das secretas. E nesta qualidade esteve habilitado de participar na co autoria de um livro “A Produção de Informações de Segurança no Estado Democrático de Direito”, de autoria de Carlos Feijó, baseado na estruturação dos três órgãos de inteligência existente no país.

Saída do circulo presidencial

Em Abril de 2006, Fernando Miala é afastado do SIE, no seguimento de desinteligências com uma corrente interna – movidas pelos generais José Maria e Hélder Vieiras Dias – que se tornaram seus opositores internos. Foi colocado na cadeia por três anos junto com os seus colegas da Inteligência Externa. Em 2008, foram feitos “lobbies” que o influenciassem a fazer publicamente um pedido de perdão ao Presidente José Eduardo como condição previa para a sua liberdade. Miala recusou com sentimento de que nada fez que atentasse a lealdade do seu antigo patrão. Em Outubro do ano a seguir, ganhou liberdade por conta do Decreto Presidencial n.º 45/09 que Indultou a pena de prisão aplicada pelo Supremo Tribunal Militar.

Três mês depois da sua soltura, compareceu num culto realizado pela Igreja Simão Toco e ao passarem lhe a palavra e declarou que o seguinte: “Amados e queridos irmãos, quero em primeiro lugar agradecer a Jeovah Deus que ouviu as vossas orações, ao Líder Espiritual e aos irmãos que intercederam por mim em oração durante os meses que permaneci sob tutela da justiça. Devo aqui realçar o espírito de solidariedade que a Igreja prestou-me sob orientação do Líder Espiritual Sua Eminência Bispo Dom Afonso Nunes, personificação do Profeta Simão Gonçalves Toko. Resta-me dizer que o passado é passado. Estou aqui para dizer que não tenho rancor, nem ódio, nem guardo ressentimentos por tudo o que aconteceu. Devemos sim olhar para frente e olhar para o futuro, Muito obrigado”.

Reconhecimento externo

Fernando Miala é considerado por lideres africanos como Joseph Kabila, RD Congo, e Paul Kagamé, Ruanda. Mas é com Filipe Nyusi de Moçambique que partilha uma amizade pessoal.

Via Club-K

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