Sebastião Kupessa “Muana Damba”: Um activista defensor da cultura Kongo

Por Rui Ramos

Natural do Kongo Central, Muana Damba enfrentou enormes dificuldades diárias em Luanda mas estudou sempre e licenciou-se na Suíca, sendo criador do portal wizi-kongo.com

Sebastião Kupessa “Muana Damba” nasceu na República Democrática do Congo, na localidade de Kitobola, província do Kongo-Central, nos anos 1960, e cresceu em Kinshasa até 1974.
Os seus parentes são originários de Mbanza Mabubu, Damba, província do Uíge.

Alguns familiares foram membros da UPA e do PDA, como Sanda Martins, o tio da mãe, um dos fundadores da UPA.

Sebastião Kupessa “Muana Damba” começou os estudos primários em Kinshasa, interrompidos na 4ª classe, depois do 25 de Abril de 1974, que obrigou os refugiados angolanos a regressarem.

Regressei com a minha avó, em inícios de 1975, na fronteira encontrámos ainda funcionários da administração colonial, que rasgaram as nossas certidões de nascimento como naturais do Congo para substituir por documentos angolanos, mencionando as localidades dos nossos pais como nosso local de nascimento.”

Em Angola, Sebastião Kupessa “Muana Damba” continuou os estudos mas, por não dominar a língua portuguesa, teve de voltar para trás. Isto foi na Missão Católica da Damba, até 1979, quando é transferido para a cidade do Uíge, mas termina o ciclo preparatório no Prenda, em Luanda, em 1982. e faz o 3º nível na Escola Juventude em Luta, no Largo 1° de Maio.

Em 1985, Sebastião Kupessa “Muana Damba” inscreve-se no Instituto da Geodesia e Cartografia de Angola, IGCA, administrado pelo Ministério da Defesa, no curso da Topografia, equivalente ao ensino médio.

Professor do ensino primário foi a minha primeira profissão, em Viana. Não era fácil combinar as actividades de professor e estudante na Escola Militar Comandante Gika, em Alvalade, não havia transportes regulares para Viana. Íamos a pé do 1° de Maio até ao Grafanil, ou até ao Tunga Ngo, para apanhar o comboio”, recorda. “Não tínhamos dinheiro para apanhar um candongueiro, devido aos atrasos dos pequenos salários, que podiam chegar a 6 meses, Passávamos muita fome, entre professores e estudantes. Foi um período de muito sacrifício diário.”

Em 1986, como militante destacado da JMPLA de Viana, Sebastião Kupessa “Muana Damba” foi recrutado para alfabetizar, na altura “um dever revolucionário”. “De manhã era estudante, à tarde dava aulas no ensino primário e à noite ensinava adultos, dormia no máximo 3-4 horas, acordava de madrugada para apanhar uma boleia para a escola onde estudava, não havia dinheiro para candongueiros.”

Devido ao seu dinamismo e sendo amante de livros, Sebastião Kupessa “Muana Damba” é nomeado director-adjunto da escola primária e como não havia matéria para leccionar os adultos em Geografia e História, teve de fazer apontamentos para os alunos. “O mais curioso foi em História, tive de pesquisar sobre a luta de libertação de Angola, aí nasceu a minha paixão de pesquisador”, recorda. “As minhas pesquisas agradaram ao director das escolas do ensino de base do 2° e 3° nível de Viana, que as adopta e nomeia-me coordenador destas disciplinas, era muita carga para um jovem de menos de 25 anos.”

Em 1988, devido à guerra, Sebastião Kupessa “Muana Damba” sai de Angola e exila-se na Bélgica onde vive mais de 3 anos.

Em 1992, volta a Angola. “Durante esta estada, exerci o meu direito de voto pela primeira vez, nas eleições de 1992.”

Com o reatamento da guerra, Sebastião Kupessa “Muana Damba” volta a sair de Angola para se exilar na Suíça, em 1993.

Na Confederaçâo Helvética, para além das actividades profissionais e do activismo no seio da comunidade angolana, Sebastião Kupessa “Muana Damba” colabora com a Igreja Reformada Suíça, sendo eleito delegado regional para assuntos ecuménicos, missionários e de ajuda humanitária, de 2004 a 2014. “Foi a Igreja Reformada que me enviou para a Faculdade de Teologia, da Universidade de Basel, para estudar Relações Interculturais, Religiões e Migrações.”

Em 2009, cria o Portal do Uíge e da Cultura Kongo wizi-kongo.com, portal de notícias do Uíge e da promoção da cultura Kongo, como um lugar de partilha de pesquisas e centro de debates.

Por ter publicado conteúdos relevantes sobre a História do Kongo, os seus usos e costumes, luso-angolanos naturais do antigo distrito do Congo Português residentes em Portugal ofereceram ajuda para completar as pesquisas com escritos e testemunhas no tempo colonial, o que aumentou o numero de visitantes da página.

Com a morte do meu pai, em 1971, a minha avó, filha do Soba da Damba no tempo da chegada dos portugueses à localidade, em 1909, ocupou-se da minha educação, iniciando-me na tradição oral. Ela ensinou-me que educação e a cultura nunca foram dissociadas nas comunidades africanas, os conceitos são responsáveis pela edificação do homem africano, interrompida com a introdução de culturas estrangeiras, o que originou os problemas que temos hoje.”

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