A Tradição Oral nas Sociedades Africanas: Contextualização das Culturas Kongo e Ovimbundu

 Por Domingas Henriques Monteiro

 

1. Traços dominantes da tradição oral, transmissão e preservação

 As sociedades africanas em geral, e muito em particular a África subsariana, são essencialmente sociedades da palavra falada. Mesmo quando a escrita existe, e apesar de séculos de colonização, a oralidade continua a ser parte integrante da comunidade e do indivíduo, sendo constitutiva da própria identidade individual e coletiva. É elemento chave para a transmissão e preservação da tradição e da sabedoria dos povos, legada pelos antepassados de geração em geração, de boca em boca ao longo dos séculos. A tradição negro-africana baseia-se na palavra; é essencialmente oral. A oralidade é completada por ritos e símbolos. Mas estes, sem a palavra, sem a tradição, tornam-se ininteligíveis e ineficazes. Nas sociedades africanas a palavra contém em si um valor dinâmico e é eficazmente influente, pois ela é vida. A cultura realiza-se, expande-se e permanece pela palavra; por isso, é cultivada e tratada com zelo. A oralidade baseada na palavra é assim o canal para a difusão da sabedoria dos povos, conforme nos diz o antropólogo Raul Altuna, na conhecida obra Cultura Tradicional Bantu.

 A expressão “tradição oral” é utilizada com frequência e em diferentes aceções por vários estudiosos que a ela dedicaram as suas investigações. O historiador Paul

Zumthor (1997) considera a “tradição oral” como fator de unificação das atividades sociais e individuais, o lugar possível para a manutenção da identidade dos povos, apontando, como outros investigadores, um traço nuclear: Ela é também memória viva, tanto para o indivíduo (para quem a imposição do seu nome deu forma), quanto para o grupo, cuja linguagem constitui a energia ordenadora. Nas sociedades pré-coloniais, os louvores do chefe contribuíram para manter a identidade do seu povo: esta prática era confiada a especialistas e suas formas definiam géneros poéticos reconhecidos. (Zumthor: 1997: 66)

 Para Alexandre Parafita (2005), “tradição oral” designa a transmissão de saberes feita oralmente, por um povo, de geração para geração, isto é, de pais para filhos ou de avós para netos. Estes saberes tanto podem ser os usos e costumes das comunidades, como podem ser os contos populares, as lendas, os mitos e muitos outros textos de caráter normalmente breve que o povo guarda na memória, como sejam os provérbios, as orações, as lengalengas, as adivinhas, as fórmulas mágicas, os cancioneiros, os romanceiros, etc.. Também são conhecidos como património oral ou património imaterial. Através deles cada povo marca a sua diferença e se encontra com as suas raízes, num importante processo de construção contínua da sua identidade cultural.

 Já o escritor Amadou Hampaté Bâ releva na tradição oral a vertente didático-pedagógica, a sua importância na transmissão dos conhecimentos de um povo,

considerando que ela é a grande escola da vida. Escreve Hampaté Bã: “Fundada na iniciação e na experiência, a tradição oral conduz o homem à sua totalidade e, em virtude disso, pode-se dizer que contribui para criar um tipo de homem particular, para esculpir a alma africana”. (Hampaté Bâ, 1982: 183)

 Na mesma linha de ideias, o antropólogo Raul Altuna, na obra Cultura tradicional Bantu (2006), considera que a tradição oral é um tesouro comunitário com

múltiplas funções relacionadas entre si: é biblioteca, arquivo, enciclopédia, tratado, código, antologia, filosofia, ritual. Se acrescentarmos as danças, a escultura, os jogos e a música, fica completo o património cultural negro africano. Como afirma Altuna, a palavra ocupa o primeiro lugar nas manifestações artísticas, no culto religioso, na magia e na vida social. Para além do seu grande valor dinâmico e vital, é praticamente o único meio de conservar e transmitir o património cultural.

Para a pesquisadora Susana Nunes, a tradição oral é a principal fonte histórica que pode ser usada para a reconstrução do passado de muitos povos: “são fontes

históricas cujo caráter próprio está determinado pela forma que revestem: são orais e não escritas e têm a particularidade de que se cimentam de geração em geração na memória dos homens”. (Nunes, 2009: 37).

De um ou outro modo, estes e outros investigadores da tradição oral sustentam a ideia de que a tradição oral é o veículo pelo qual se transmitem e se preservam o

conhecimento, os hábitos e costumes, as crenças, a filosofia e a memória coletiva legados pelos antepassados aos povos vindouros. Fonte inesgotável de sabedoria, ela é a âncora para edificação da personalidade e da identidade comunitária.

 As formas de transmissão deste património variado que é a tradição oral são muito diferenciadas, e são feitas quer no quadro interno das práticas quotidianas de uma dada comunidade (ligadas aos ciclos de vida de um grupo em concreto), quer de forma ambulante, circulando de grupo em grupo, mediante a ação performativa de pessoas qualificadas que se deslocam de lugar para lugar com a missão de vivificar a tradição.

 No seio das comunidades, ela transmite-se sobretudo nas escolas de iniciação, que são os principais locais para a aprendizagem da herança cultural deixada pelos ancestrais para o engrandecimento e crescimento do povo. Embora as escolas de iniciação e os rituais a elas ligados sejam menos importantes nos meios urbanos, elas continuam a ter uma grande importância nos meios rurais. A tradição oral transmite-se também nas rodas de dança, à volta da fogueira, nas reuniões (com os mais velhos, nos óbitos e nas festas) e, no dia a dia, ao ar livre, nos jogos de crianças e adultos, bem como nas brincadeiras infantis.

 As rodas de dança e as fogueiras são mais usuais e difundidos nas aldeias, e até há pouco tempo estavam bem presentes nas periferias dos centros urbanos. Atualmente, com o advento da modernização, essas práticas acontecem de forma mais irregular ou esporádica nas grandes cidades; porém, nas aldeias elas continuam a ser frequentemente realizadas e cultivadas com o estímulo e apoio das gerações mais velhas.

 Essas atividades abarcam geralmente a dança e a canção, elementos-chave para o seu sucesso. Nas rodas de dança, os homens, as mulheres e/ ou as crianças, dançam e cantam em círculos, recorrendo sempre ao batuque e às palmas. Tanto podem manifestar-se em cerimónias ritualísticas como em atividades profanas de recreação, com canções específicas ou improvisadas, adaptadas ao momento e à situação vivida ou retratada.

 As fogueiras são realizadas com frequência no tempo seco ou cacimbo (inverno), por causa das baixas temperaturas que se fazem sentir nesse período. Ainda em tempos recentes, nas periferias das cidades, as pessoas costumavam reunir-se à volta da fogueira (e essa fogueira tanto podia ser feita de lenha ou feita num fogareiro) para contarem ou ouvirem contar histórias, contos, lendas, genealogias etc., sempre acompanhadas de canções e com a participação de todos, enquanto se aquecem juntos.

Era comum ver os mais velhos sentarem-se com os mais novos para lhes ensinarem os hábitos e costumes do seu povo; mas, hoje em dia, estes costumes só acontecem em lugares mais remotos, normalmente no mundo rural. Contra princípios seculares de respeito pelos mais velhos, verifica-se uma tendência crescente em certos meios para os velhos serem desprezados e acusados de feiticeiros; muitos jovens, sobretudo os que vivem na cidade, não têm interesse em aprender as tradições ancestrais, que veem como algo ultrapassado, optando por formas culturais e de entretenimento da aldeia global, usando os vários meios de comunicação existentes para se ligarem a uma realidade virtual muito diferente da dos seus pais e avós.

 Nas aldeias, e focando-nos sobretudo em Angola, a fogueira ainda é uma constante, sendo uma das cerimónias vitais para a transmissão da tradição oral. Essa atividade pode ser comunitária, grupal ou familiar, e é sempre acompanhada por alguns “quitutes” (aperitivos) da terra, como banana, bombó (mandioca) e milho assado com jinguba (amendoim) torrada e chá ou café. Diz-se que é “comunitária”, quando se realiza dentro da comunidade e com a participação de todos; é “grupal” quando é específica de um grupo (homens, mulheres, crianças), e “familiar”, a que ocorre dentro do seio familiar, como quando um chefe de família, o avô (ou a avó), a mãe ou o filho mais velho reúne com o resto da família para esse momento especial.

 A tradição oral é também uma biblioteca ambulante que vai de aldeia em aldeia e chega a todos. Como em tempos remotos, os conhecedores e detentores da sabedoria cultural do grupo ou do povo continuam a deslocar-se, iniciando e ensinando as populações sobre o conhecimento ancestral que lhes foi confiado. A transmissão feita por esses bibliotecários ambulantes é, como faz notar Altuna, de grande fidelidade ao conhecimento que herdaram, e esses “agentes da cultura” tradicional são capazes de fazer narrações com enorme expressividade, evocando os mais pequenos detalhes, numa extraordinária iniciativa imaginativa e poética. Estes detentores da sabedoria popular – “poços” ou “sacos” de sabedoria, como também são conhecidos – são, assim, reverenciados pelas populações pelo seu saber e pelo profissionalismo no desempenhodas suas funções:

Há trovadores e contistas profissionais, dotados de grande imitação e

captação. Percorrem as aldeias recitando, cantando e dançando. Não

inventam nada, comunicam apenas o que herdaram do mestre que os

iniciou. Guardam e protegem a tradição, são ‘memória do grupo, pois a

memória excecional de cada um é uma autêntica biblioteca. (Altuna,

2006: 40)”

 A preservação da tradição na memória coletiva da chamada África negra deve muito aos griots, aos mestres da palavra, aos sábios, aos curandeiros, aos iniciados e aos mais velhos; são eles que a revitalizam no seio da comunidade para a posterioridade, como afirma Altuna (2006). Os griots conhecem milhares de contos, de provérbios, de lendas e de mitos. São eles que fixam as listas genealógicas, as migrações, as epopeias e as guerras. Nunca esquecem os usos, ritos, crenças e costumes. Eles asseguram que a memória coletiva se mantenha viva e atuante. O que singulariza ainda a tradição oral em sociedades africanas não é apenas o respeito pelo património cultural herdado, mas a reverência pelos antepassados, que a transmitiram fielmente ao longo dos séculos, cumprindo dessa forma a sua missão na terra, de manutenção dos pilares das culturas sem escrita, ou que só muito tardiamente a tiveram. Assim se estabelece uma ligação fundamental entre vivos e antepassados, e que se reflete tanto em cultos religiosos como nas práticas mais banais do dia a dia. A palavra que eles pronunciaram vive dentro da comunidade e conserva-se no tempo através das canções, dos contos, dos provérbios,das adivinhas, das lendas e dos mitos que circulam no seio do povo.

Enraizada na memória coletiva, a tradição oral em Angola é, à imagem do que acontece na África subsariana, um dos veículos de transmissão e de preservação do

conhecimento cultural dos povos angolanos deixado pelos seus antepassados. É, portanto difundida, ensinada e gravada na memória do povo, tanto nas zonas rurais como nos centros urbanos, de modo a que aqueles a quem a legaram a vivifiquem, assegurando assim o laço vital entre os vivos e os mortos.

 Essa tradição oral angolana é também constituída por provérbios, contos, canções, adivinhas, fábulas, poesias, danças e narrativas várias, que, ao longo de séculos, foram passando de boca em boca, tendo começado a ser fixada pela escrita ainda no século XX por autores como Óscar Ribas. Ela é o garante da continuação dos hábitos e costumes da ancestralidade, nas várias etnias que compõem o mosaico cultural de Angola. Por exemplo, para os grupos kongo e ovimbundu em estudo, a tradição oral é de capital importância para a transmissão da filosofia grupal; as crenças nos espíritos dos antepassados é indiscutível, sendo uma premissa básica para a perpetuação do seu legado. As canções, a par de muitas formas de literatura oral, permitem que essa

filosofia e cosmovisão sejam transmitidas.

 Nestes territórios, a preservação da tradição oral é igualmente da responsabilidade dos mais velhos, dos mestres da palavra e dos iniciados, que transmitem toda a sabedoria que têm gravada na memória aos neófitos, ao grupo e à população em geral, nas reuniões, nos óbitos e nas festas, para que não morra com eles, mas fique para as gerações vindouras. Os mais velhos são exímios contadores e iniciadores, que, no ato de contar uma história, recriam rituais dos seus antepassados;

assim, preparam e embalam a plateia que toma parte da encenação e dela participa, com cânticos, dança, aplausos, assobios e gritos. Laura Padilha descreve desta forma esse momento mágico:

 “O contador e seus ouvintes são seres em interação para quem o dito cria

a necessária cumplicidade e reitera que é preciso ser, na força da

diferença, preservando-se com isso o vasto manancial do saber

autóctone. Do ponto de vista da produção cultural, a arte de contar é

uma prática ritualística, um ato de iniciação ao universo da africanidade,

e tal prática e ato são, sobretudo, um gesto de prazer pelo qual o mundo

real dá lugar ao momento possível que, feito voz, desengrena a

realidade e desata a fantasia. (Padilha, 2005:21)”

 

Verifica-se facilmente que as canções são uma constante nas culturas kongo e ovimbundu; elas brotam da alma do povo e têm como função utilitária para as comunidades a passagem do testemunho dos hábitos e costumes, do pensamento e da filosofia que forjam as suas culturas, pois elas são cantadas em todos rituais e em todas as atividades dos grupos. Assim ouvimo-los cantar em momentos de cerimónias mais solenes como a entronização do rei, no nascimento, no casamento, na morte, no ritual da circuncisão e em muitos outros rituais. Mas ocorrem também em momentos de rotina na vida comunitária, como na caça, na pesca, nos jogos e brincadeiras, e em várias outras atividades que vão acontecendo dentro da comunidade. Através das canções, os bakongo e os ovimbundu reforçam e consolidam uma harmonia social estabelecida na base de regras e normas de convivência em grupo, a que todos obedecem e que procuram conservar.

Cada som, cada ritmo tem um significado importante: por isso, as canções sempre se referem aos costumes, e orientam as pessoas no sentido de criarem um modo de vida salutar e gregário, regido pelos valores e normas de conduta do seu povo.

 Assim, a canção torna-se uma ferramenta poderosa para o restauro das forças e a expulsão da tristeza para manter sempre viva a alegria.

 

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