As características da educação tradicional em África

Por Camilo Afonso Nanizau Nsaovinga

Ao nos referimo-nos sobre a educação em África, observamos que na óptica de Pierre Erny (1987, P.16) e numa perspectiva etnológica, de modo a cumprir com a sua função social, a educação reveste-se de três aspectos fundamentais no seio desta totalidade que é a cultura: o  aspecto dinâmico, o aspecto estáctico e o aspecto da mudança social. Porém, a educação no cumprimento da sua função social, visa integrar progressivamente as novas gerações no seu contexto social da sociedade, e na maneira de conceber o mundo. Segundo, a perspectiva de H. Arendt (2009.p.234), a educação permite as novas gerações de serem introduzidas progressivamente na sociedade que se encontram. São tarefas da educação de apresentar o mundo as novas gerações, de se perpetuar, de se renovar, preservando-o, e transmiti-lo de geração em geração, assegurando-se assim, a continuidade da humanidade.

Esta perspectiva de análise é uma das principais tarefas da educação tradicional africana de modo geral, e como ficou explicitado nos processos de socialização como meios da educação das novas gerações. O espaço natural em que a criança nasce é lhe apresentado e ensinado pelos adultos. Um mundo que já existe há bastante tempo, pois, possuí uma longa história e de experiências acumuladas, vivenciadas que são transmitidas as jovens gerações para o garante da sua continuidade.

A nova geração cabe a missão de inovarem o mundo com as suas novas experiências, de se consciencializarem sobre o novo mundo que passam a habitar. A sua missão passa na preservação do patrimônio legado e da relação que os liga com as gerações passadas e da construção colectiva do presente embasada no passado.

Assim sendo, a educação tradicional africana tem as suas próprias características que se definem dentro da realidade sociocultural das suas comunidades. As características que nos propormos apresentar para as nossas reflexões têm o seu embasamento nas características das regiões circunvizinhas do noroeste de Angola nomeadamente da República do Congo Brazzaville e da República Democrática do Congo. Porém, utilizaremos as experiências do Congo Brazzaville e do Congo Democrático sobre o assunto, por localizarem-se bem próximo de Angola, ou melhor, dizendo, por ser o prolongamento da região sociocultural Kongo do noroeste de Angola e da África Central, numa perspectiva comparada da análise crítica da questão.

Por outro lado, em virtude destes estudos ainda não ocuparem de facto o seu lugar no sistema de ensino e aprendizagem, e nos programas e currículos escolares em Angola. O nosso propósito é de apresentármos o modelo da educação tradicional africana, as suas características, técnicas de educação, estrutura do sistema de ensino, valores e anti – valores da educação tradicional, de um sistema de ensino informal que já acontece nestes espaços, incluso nos programas escolares de ensino.

Neste sentido, A.S. Mungala (1982), homem dad ciências da educação, da República Democrática do Congo, segundo a sua perspectiva apresenta o quadro das características no seguinte: “Ao contrário da chamada educação moderna, a educação tradicional em África é essencialmente colectiva, funcional, prática, oral, contínua, mística, homogênea, versátil e integracionista”.

Segundo, Andoche Bavuidinsi Matondo (2012, p.36), da República Democrática do Congo, é do seguinte ponto de vista “Sobre o assunto, exponho três elementos importantes: em princípio a educação como processo de integração social.Em seguida, tratarei do conteúdo da educação e sua função social; finalmente, examinar as grandes etapas educativas da tradição congolesa”.

Na visão de Côme Kinata (2013.p.118), do Congo Brazzaville, sua atenção vai no sentido da abordagem das diferentes etapas de educação dos jovens Bakongo. Retomando Mungala, na sua linha de pensamento sobre as características da educação tradicional, passamos a exporo quadro por ele descrito.

– educação coletiva.

A educação reveste-se de um carácter colectivo e social que não é só da responsabilidade da família, mas também do clã, da aldeia, da etnia. O indivíduo é definido pela comunidade e é dentro deste grupo social que a criança faz a sua aprendizagem: ela está assim submetida à disciplina colectiva. A criança neste caso é considerada como um bem comum, ela é submetida à acção educativa de todos; ela pode ser mudada, enviada, aconselhada, corrigida ou punida por qualquer adulto da aldeia ou comunidade. Ela recebe assim uma infinidade de influências diversas mas os resultados são convergentes por causa da coesão do grupo (princípio da coerência na acção educativa).

– uma educação pragmática e concreta.

A aprendizagem é baseada na participação activa da criança nas diferentes actividades do grupo. Trata-se de uma pedagogia vivida onde os adultos servem de exemplo e do quadro de referência à acção dos jovens. A ênfase está na experiência e da teoria que faz corpo com a prática (princípios de pragmatismo, de experiência e de exemplo).

– uma educação funcional.

Os ensinamentos recebidos estão relacionados com o ambiente físico, com as realidades sócio-económicas e directamente ligadas às taxas de produção. E, portanto, dá-se assim a criança um conjunto de conhecimentos utilitários que lhe permitem afrontar sem muita frustração as dificuldades da sua vida (princípio de funcionalidade).

– uma educação oral.

Com a relativa ausência da escrita, a educação não poderá ser outra senão a oral e, sobretudo ocasional e não institucionalizada no sentido de sistematização. Daí o carácter essencialmente informal (“escola sob medida” do Claparède).

uma escola continuada e progressiva.

Ela é adaptada a cada categoria de idade. Ela vai desde o mais simples ao mais complexo e se define em termos de patamares a mais alta hierarquia das idades ou ao mais velho que se supõe conhecer mais que os novos. A acção educativa é, sobretudo, continua e gradual, quer dizer, sem falhas e nem cortes entre as diferentes etapas do desenvolvimento da criança, entre a família, o clã e a sociedade, entre a teoria e a prática (princípio de adaptação, processo contínuo).

– uma educação mística.

A educação é baseada sobre a concepção animista e nas crenças religiosas. Ela é cercada por tabus e a torna numa realidade incontornável e marca de maneira profunda as relações que o homem estabelece com a natureza, com a comunidade humana e com o mundo invisível. As relações com a natureza se caracterizam pelo receio que o homem tem das forças naturais tal como a faísca, o rio, os animais ou das árvores sagradas, divinizadas ou protectoras do clã, etc. Este receio torna o homem impotente perante a natureza e faz com que ele viva em harmonia com ela.

As relações coma comunidade humana se revelam nas práticas rituais onde o objectivo principal é de inserir, de integrar o indivíduo na sua sociedade. Elas implicam, pois de deveres aos outros e desenvolve o sentido do respeito para com os anciãos, o espírito de ajuda mútua, o sentido de responsabilidade, de hospitalidade, em breve, elas preparam o indivíduo para a vida e estabelecem uma ordem social na conduta às vezes colectiva e individual.

Finalmente, a relação com o mundo do invisível se caracteriza pelas trocas entre os vivos e os mortos. Estes últimos jogam o papel de intermediários entre as divindades e os homens. Assim a família africana não é composta unicamente dos viventes, ela estende-se aos mortos e aos invisíveis.

– uma educação homogênea e uniforme.

Seu conteúdo é um tanto imutável e repousa sobre a uniformidade dos princípios educativos que regem a sociedade. Todas as crianças estão submetidas a um mesmo tipo de educação que prossegue um mesmo ideal, os mesmos objectivos, a saber: fazer da criança o homem da família, do clã, da etnia; o homem que deverá trabalhar duro para constituir a família e assegura-lhe a felicidade; o homem que obedece a sua família e aos mais velhos, que se submete a regulamentação social do grupo, que ajuda os mais velhinhos, os fracos e os estrangeiros; o homem que conhece o seu meio, sua sociedade e se harmoniza; o homem com o poder de perpetuar as tradições do seu clã, da sua etnia, etc.

Assim, a educação não está marcada por contradições internas e todo adulto serve de exemplo para a educação dos jovens em função do tipo de homem definido pela sociedade (princípios de coerência interna, de democratização, de exemplo).

– uma educação completa e polivalente.

Ela visa à formação de todo o homem, quer dizer, do homem em todas as suas diferentes componentes: física, intelectual, social, moral, cultural, religiosa, filosófica, ideológica, econômica, etc. As disciplinas não são cortadas nem isoladas umas em relação às outras como na educação moderna. Através do conto, por exemplo, ensina-se a criança às vezes a língua (vocabulário e fraseologia), a arte de contar (linguagem e retórica), as características dos animais (zoologia), os comportamentos humanos ou as condutas dos homens em relação aqueles dos animais (psicologia), o canto, o saber – viver em sociedade (moral, civismo) etc. (princípio de globalização, aplicação da teoria de Gestalt).

– uma educação integracionista.

Ela procura fazer do indivíduo um membro integrado e aceite pelo grupo. Participando activamente nas actividades e na vida do grupo, o indivíduo se integra socialmente e culturalmente. A integração social permite ao indivíduo reconhecer o grupo como seu e de ser reconhecido por ele; o indivíduo se integra no seu ambiente social que, por sua vez, aceita por se incorporar entre os seus membros.

A integração cultural faz da personalidade um modelo, um padrão que é a expressão de uma maneira de viver, de pensar e de ser o próprio aos membros do grupo. O indivíduo integra os valores culturais do seu grupo e se conforma com estas maneiras de ser e de agir (princípios de adaptação, de integração e de coesão).

– as técnicas da educação.

A educação tradicional em África utiliza diversas técnicas que se reportem aos métodos ditos “novos”: elas se prendem não só ao fazer adquirir à criança os conhecimentos utilizados na idade adulta, mas estende a sua acção à formação da personalidade. Elas suscitem a actividade da criança em relação as suas necessidades fundamentais e são subordinadas ao desenvolvimento mental da criança assim como, ao seu nível de socialização (métodos activos). As principais técnicas educativas utilizadas são: os contos, as adivinhas, as legendas, os provérbios, o medo, os ritos de iniciação, etc.

– os contos.

Eles são ensinados as crianças a noite, à volta da fogueira e porque o dia está reservado aos diversos trabalhos. O seu conteúdo, é muito rico e muito variado, tocaas vezes à muitas disciplinas: a língua, a linguagem, o canto, a zoologia, a psicologia, amoral, etc. Os contos jogam assim um papel às vezes de formador (dá à criança um certo número de conhecimentos sobre o seu ambiente físico e social) e moralizador (mostram muitas vezes as crianças como o mal é punido e o bem recompensado).

-as legendas.

Elas têm um conteúdo muito rico e muito variado. Através delas a criança adquire os conhecimentos diversos tal como os transmitidos pelos contos, mas, ela ainda aprende a história da família, do clã, da etnia, a sua localização espacial, os itinerários seguidos a quando das migrações, as corridas; de água ou dos rios cruzados, a origem do mundo, etc. (a criança aprende assim às vezes a genealogia, a história, à geografia, a cosmogonia, etc).

-as adivinhas.

Elas são às vezes um jogo e um exercício de espírito. Elas supõem um conhecimento muito amplo do meio: nomes de pessoas ilustres, as partes do corpo humano e as suas características.As características dos animais e das plantas, os fenômenos naturais,etc.Elas fazem apelo à memória, àimaginação, ao espírito de observação e assentes sobre os seguintes princípios educativos: 1- O pedocentrismo: A criança é considerada como um agente principal do ensinopois, ela própria deve procurar e encontrar a resposta certa; 2- A Emulação: As crianças são levadas a superar e a encontrarem a resposta certa. 3- A democratização: todas as crianças do clã ou da aldeia são aceites neste jogo sem discriminação. As adivinhas, assim como os contos e as legendas, tocam às vezes todas as diferentes disciplinas tais como a história, a geografia, a anatomia, a zoologia, a botânica, etc.

– os provérbios.

Eles são portadores de valores, de comportamentos e de atitudes desejáveis à transmissão das crianças. Eles são muito usados com mais frequência quando se trata de aconselhar uma criança. O seu conteúdo toca os mais variados domínios da vida social e do grupo: amizade, aparências, honestidade, cortesia, solidariedade, ajuda mútua, casamento, trabalho, etc. Os provérbios jogam essencialmente um duplo papel na vida da comunitária: um papel didáctico e um papel jurídico; 1- Papel didáctico: porque eles formam o homem por lhe darem uma linha de conduta tal como é desejada pela sociedade, uma linha de conduta ditada pela prudência, à desconfiança, a modéstia; 2- Papel jurídico: Porque muitas vezes os Velhos se servem para cortar as palavras, etc.

– os jogos.

Eles são apenas exercícios destinados a formação da resistência física da criança, mas também formas eficazes para promover as aprendizagens fundamentais, desenvolver a inteligência, as percepções, a tendência à experimentação, o poder de invenção, etc. É jogando que a criança consegue assimilar certas realidades intelectuais e que lhe a ajudem a extrair do que fica fora da sua inteligência infantil. Tais como, os jogos de azar, de contagem ou de combinação matemática que desenvolvem o raciocínio e a imaginação das crianças; é através dos jogos de imitação que as crianças são iniciadas à actividades produtivas do grupo, enfim, a observância das regras do jogo constituí para a criança uma verdadeira moral e social que forma o seu carácter.

– o medo.

É o meio da educação tradicional utilizada para fazer respeitar as regras, as leis e as precedências vitais que ordenam toda a vida social. O indivíduo tem medo das consequências naturais ou sobrenaturais que lhe podem chegar caso ele transgride as leis, os interditos, os tabus, etc. as sanções corporais são geralmente ligeiras, e se contenta mais tarde com uma lamparina de censura e, para obter a disciplina sobre as crianças recalcitrantes, recorre-se ao medo invocando-se personagens misteriosas e temíveis, de gente de má qualidade, etc.

– os ritos de iniciação.

Eles marcam a passagem de adolescência ao estado adulto e têm como tarefa principal de cobrir as lacunas da educação recebida anteriormente, fazendo com que o adolescente seja capaz de suportar o peso de enfrentar as dificuldades e de penetrar nos segredos da nova vida. As duras provas inerentes a estas práticas rituais têm por objectivo de desenvolver a resistência física do sujeito, para lutar contra ele todas as formas de violência e de impor a submissão total de preservar e de garantir a unidade e a sobrevivência do grupo. Os jovens são assim iniciados à vida conjugal, ao respeito pela hierarquia, a solidariedade e a ajuda mútua, à moral e à disciplina individual, a linguagem codificada e à discrição (segredos da etnia, etc).

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