Mongo a Káyila é o nome antigo de Mbanza Kongo

Por Camilo Afonso Nanizau Nsaovinga (*)

1.- Em relação a Província de Mpemba, do antigo Estado do Kongo, esta era a capital do Estado com o nome de Mbanza Kongo (aqui importa esclarecer que há ainda uma discussão a ser levantada a cerca do nome Kongo). Nimi a Lukeni ao migrar para estas paragens levava consigo exímios caçadores, por se tratar de uma zona de florestas e de abundante caça diversificada. E como esta actividade implicava a secagem das carnes, nada mais foi feito pelo líder, senão escolher a zona do planalto, pela sua elevação e oferecer as melhores condições de observação da extensa área circundante.

A priori era um espaço de caça, da secagem da carne e de acampamento dos caçadores. Por este facto, teriam sido chamados de Nkongo–caçadores pela população local ali encontrada, que são os Nsamba e falantes de Kimbundu. Estes, a pouco e pouco e com o crescimento populacional de Mbanza Nkongo, foram descendo mais para o sul. E ali vão construir os Estados do Ndongo e Matamba.

Na realidade, os Bakongo conduzidos pelo Nimi a Lukeni vieram emigrados do Vungu ou Bungu, na margem direita do rio Nzadi, em busca de novos espaços. Pois, é de aferir-se, que Nimi a Lukeni havia cometido um acto que lezou a família real, ao ter cometido um incesto com a sua tia. E para evitarem-se outros problemas decidiu buscar outras paragens. E tratando-se de um filho de nobres, decidiu partir e levar consigo um grupo de adeptos que lhe seguiram na longa aventura até as terras da outra margem do Rio Kongo.

Ao encontrarem uma caça abundante, decidem ficar e criarem o seu próprio espaço, como ficou referenciado acima. E assim nasce Mbanza Nkongo, a cidade dos caçadores. Porém, com a chegada dos primeiros portugueses a capital do Estado, e por razões próprias da semântica e da fonética teriam estes entendido e interpretado o significado do nome, como sendo Mbanza Kongo.

Pois, Mpemba era a Província que albergava a sede da capital Mbanza Kongo, que deixou de ser Mbanza Kongo, após a construção das primeiras Igrejas Católicas construídas ao sul do Sahara, isto é, no Kongo pelos Padres Jesuítas. A primeira foi dedicada a Cristo Salvador do Mundo. E daí até a independência de Angola, a capital passou a designar-se São Salvador, retomando-se novamente a designação de Mbanza Kongo após a Independência de Angola.

Quanto a esta questão julgo ter dado uma resposta aproximada para a compreensão dos factos. Porque, há ainda muitos aspectos ligados ao incesto de Nimi a Lukeni que devem ser esclarecidos para melhor se compreenderem as relações históricas das diferentes linhagens Kongo. Penso que já terias lido este assunto do incesto de Nimi a Lukeni. Ele gravidou uma Tata Nkento, uma irmã do pai. Os Na Nzinga, são da linhagem Kinzinga. Falar de Na Nzinga é o mesmo tratar-se da
Linhagem Kinzinga. Chamar Kinzinga, é o mesmo dizer, os de Na Nzinga ou Na(Ne) Nzinga Kongo. Como é comum ousar dizer–se entre os Bakongo: Na Nzinga wa zinguidi e Kongo Mponda! Ou ainda, Nzinga wa zinga mvila zawonsono. O que nos permite afirmar com clareza, que foi Na Nzinga que deu as origens à todas as linhagens Kongo.

2.- MONGO a KÁYILA, refere-se ao planalto, colina, enfim, ao local aonde se ergueu a capital. E no reforço do acima descrito, e da natureza da caça que se praticava na altura entenderam dar o nome de, Mongo a Káyila. No sentido de ser um espaço de unidade e de partilha. Eis uma das razões do Bakongo não ser egoísta. Pela sua natureza e educação partilha com os demais o pouco que possui. Por isso, são muito hospitaleiros. Pois, quando têm que partilhar enchem as suas mesas de farturas. Finalmente, Mongo a Káyila, é no sentido da partilha ou partilhar entre os demais. Pois, aqui se denota o princípio da educação tradicional Kongo da partilha para com o próximo.

3.- KONGO dya NGUNGA, significa dizer, o Kongo dos sinos, após a construção das primeiras igrejas católicas na capital do Estado do Kongo. Pois, sendo uma realidade extra-cultural Kongo, onde os sinais de chamamento para qualquer acto de interesse da comunidade, eram utilizados os meios de comunicação tradicionais, como, Mpungi, Mondo, Ngongi e até o Ngoma. Estes emitiam sons bem codificados e que transmitiam as mensagens desejadas. De festas, de mortes de personalidades importantes, de congregar as diferentes entidades para as reuniões com o Ntotila, e com as comunidades longínquas.

Neste caso, do sino, era uma novidade para as populações do Kongo. O sino era outra forma de convidarem-se os fiéis para participarem das missas e outras solenidades da Igreja. Assim como havia a sineta colocada nas escolas, para o chamamento dos alunos e da participação em outras actividades.

4.- Em relação as Linhagens Kongo, as que foram mencionadas são as principais. São aquelas, conhecidas como as fundantes do Estado Kongo. É preciso ter em atenção ao que ficou referenciado a cerca do incesto cometido pelo Nimi a Lukeni. A partir daquele acto houve problemas internos em termos de sucessão ao poder, em termos de linhagem. É por isso que em relação a este assunto das linhagens, e como bem o descreve o Mgs Jean Cuvellier, na sua obra, Nkutama a Mivla za Makanda.

Na RDC foram feitos todos os estudos das Linhagens Kongo, durante o período de colonização Belga e depois da Independência. Do lado de Angola tudo tem por se fazer. Por que na altura, os portugueses não permitiam que investigações do gênero fossem feitas nos espaços por estes colonizados. Situação que se mantém até aos nossos dias,por razões próprias da falta de gente formada e especializada nos domínios da lingüística,sociologia,antropologia,filosofia e economia africanas e capazes de se dedicarem a este penoso,mas gratificante trabalho histórico e cultural. Das populações de Angola.

Todavia, nestes domínios, Angola tem muito por fazer, para que se possam estudar a fundo as principais linhagens Kongo, e de outros grupos étnicos de Angola.

5.- Em relação as linhagens colaterais ou sub-kanda como você as designa,estas surgiram sobretudo, no período da invasão Jaga do Estado do Kongo, em 1560. E seguida da conquista da capital Mbanza Kongo pelos Jagas em 1569.A partir deste período muitas populações saíram do Kongo e em busca de outras paragens. Melhor dito em busca de novos espaços,onde passaram a viver em paz.

E no meio destas populações fugidas, havia gente escrava que veio de muito longe e que já não podiam retornar para as suas terras de origem. E como saída, tiveram que se juntar aos que foram se fixando nos espaços que conhecemos como, Mazumbu entre os Kongo. Os Mazumbu, como se pode observar, nas Províncias do Uíge e Zaire, são as referências socio-culturais dos assentamentos feitos pelos emigrantes do Kongo, nos períodos referenciados até ao início da colonização portuguesas destes espaços.

Por outro lado, os Mazumbu, serão abandonados, com a colonização portuguesa, sobretudo, com a abertura das estradas, nos novos espaços ocupados. Contudo, estas populações foram obrigadas de forma compulsiva a deixarem novamente os seus Mazumbu e Mabaxa, e passaram a viver perto das estradas, para o melhor controlo destas, pelo novo regime português reinante nas suas terras.

Outro factor, que provocou a maior saída das populações do Kongo, é a conhecida Batalha de Mbwíla de 1665. Muitas populações se uniram em alianças familiares e tendo como ponto de referência as origens do Kongo. Ao afirmarem no seu dia a dia, que todos nós viemos do Kongo, até aos nossos dias. Eto kulu ku Kongo twa tuka!

E como se pode constatar, há famílias que ainda apontam que as suas origens vieram do Kwangu. Ku Kwangu twa tuka! A aqui a conclusão a tirar, é de terem sido aquelas populações, que na condição de escravizados tinham acabado de chegar ao Kongo. Tarefa que nos espera, para se estudarem e situarem-se em definitivo os diferentes grupos etnolinguisticos de Angola nos espaços que ocupavam e recriados com o final da guerra no país.

Porém, outro factor que vai contribuir para a separação das linhagens Kongo, é o resultante do início da Luta Armada de Libertação Nacional, que provocou muito êxodo das populações da região Noroeste de Angola, das Províncias do Uíge, Zaire e parte do Bengo.

6.- Sobre o Nganga, este julgo não oferecer muitas dúvidas quanto ao seu papel no meio sociocultural Kongo. Para os primeiros missionários católicos no Kongo, o Nganga era um elemento pernicioso e perturbador das suas acções religiosas e da conversão das populações locais. Por todos lados em que circulavam, a presença da palavra Nganga era notória e muito marcante no espaço Kongo.

Para os Kongo, o Nganga era o mestre do sagrado. Era este que uma vez iniciado nas escolas iniciáticas da vida, estabelecia o diálogo entre o mundo visível dos entes vivos e o mundo do invisível, dos entes que vivem no mundo dos espíritos, junto dos seus Bakulu, os Antepassados. e não se trata de qualquer antepassado. Normalmente, são evocados e aqueles que durante a vida terrena exerceram ou tiveram uma conduta moral reverenciável e digna de merecer de exemplo para os
demais entes queridos e os da comunidade em que viveu.

Porém, posso concordar contigo, que pela formação continuada que os Nganga têm nas escolas iniciáticas até a sua maior idade adulta, este pode ser considerado de cientista, dentro do seu contexto sociocultural e pelo diálogo que estabelece com os diferentes espíritos da natureza. Ser ferreiro ou Nganga Lufu, não é uma especialidade de qualquer um. Esta especialidade requer outros saberes e conhecimentos que só são adquiridos nas escolas iniciáticas e como especialização. Não
basta ser circuncisado. Claro, que há outras formações e nos mais variados domínios da vida humana.

Finalmente, no período do tráfico de escravizados, muitos Nganga foram vendidos como escravos para as Américas. Estas designações estão presentes nos escritos coloniais da época. Muitos Nganga sobreviveram nas Américas. Muitos destes contribuíram com os seus conhecimentos e saberes na formação dos Terreiros do Candomblé no Brasil

7.- MPUMBU, era o grande mercado que se situava na região batizada de Stanley Pool, hoje Kinshasa. Com a presença européia no espaço Kongo e o tráfico de escravizados, os intermediários negros, brancos e mestiços que se embrenhavam nestas florestas em busca das riquezas africanas, passaram a ser designados de Pombeiros, nos escritos coloniais.

Mpumbu é uma palavra Kongo, que passou a ser empregue e utilizada de forma aportuguesada, durante o período do tráfico dos escravizados. A palavra Kimpumbulu em kikongo tem a ver com a pessoa de má conduta social. Um violador de mulheres, o assassino, o ladrão, o feiticeiro, etc, etc. Todos pertencem a classe ou a categoria de pessoas indesejadas na sociedade ou na sua comunidade.

(*) Historiador e diplomata angolano

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