Efeméridse Toccoísta N°07 do ano 70

EFEMÉRIDE TOCOÍSTA N°. 07 DO ANO 70 , (04 – Fev – 2020)

(e-mail: cetoco2020@gmail.com)

Por Neves Álvaro

  1. DATA: 05 de Fevereiro de 1950
  2. FACTOS REPORTADOS SOBRE ESTE DIA SEGUNDO A BIBLIOGRAFIA TOCOÍSTA

 O 05 de Fevereiro, marca no Tocoísmo a data de ENTRADA OFICIAL DOS PRIMEIROS 62 TOCOÍSTAS NO VALE DO LOGE, provenientes de Maquela do Zombo, após terem sido expulsos do Congo Belga à 09 de Janeiro de 1950, e o da REALIZAÇÃO DO PRIMEIRO CULTO TOCOISTA DA INSJCM

EVIDÊNCIAS HISTÓRICAS DESTA EFEMÉRIDE TOCOÍSTA

Alcançamos o 2º mês do ano civil (2020) e o 8º do Calendário Religioso Tocoísta do ano 70, e consequentemente as efemérides e acontecimentos relevantes vinculadas a este período. Desta feita, temos a destacar em Fevereiro, os dias 05, 09, 15 duplamente e o grande dia 24, datas que assinalam momentos importantes da fé dos Tocoístas e da vida da INSJCM. Eis a transcrição fiel de evidências do dia 05 de Fevereiro para o Tocoísmo:

DISCURSO DE RECEPÇÃO DO DIRIGENTE SIMÃO GONÇALVES TOCO PRONUNCIADO PELO PEDRO MUMBELA EM 15/02/1975 (NTAYA), pág nº 6.

NDIMBA NZENGO. “Imuna ndimba wowo wasolola Mbanza ya tungua ku’ambangi mpe. Vava wantu MAKUMASAMBANU YE NKAZI BALUA’E TÔTO, kadi ebuka kie LUNANA YE ZOLE kunku yole kia budika, ekiaka yovo eyaka ndambu iyau ye yenda oLuanda kana ndonga yalanda. Kansi, ebuka kiokio ikiau ntete kia vita. Ibuka kie mbut’amuntu JOÃO MANKOKA, ndiona wakota kwani omu Jeova. Ekiak’ebuka ikie mbut’amuntu SIMÃO G. TOCO. Ibosi vana Tôto vakasolela wantu a 4. 1. MIGUEL ESTEVES; 2. VASCO PANDA; 3. MATIAS DIELUNGWAGWA/Yani inlongi omu lumbu kiokio. Walongela muna I Timóteo 2:1…; 4. MIGUEL LUBAKI, etc, etc, etc.

Awaya iwantu antete badiata e NDIMBA LOGE, WINA VO ISINA DIE BUNDU DIE Klisto ikie 04/02/1950. Ibosi eki kie 05/02/1950 o Mfindi amatokayistas mbut’amuntu Simão G. Toco, ilumbu kiokio kakota ye yaka ndonga ye sala vana Tôto. Vava 04 wowo walwaka, balele. Ekie lumingu ikiau bakot’esambu. Ondikidi imbut’amuntu Matias, oyu wafil’esambu, imbut’amuntu Vasco Panda.

Ibosi ekie lumingu, momo lumbu kiokio kaka kie lumingu, ikiau babaka esadilu, isyavo, konso muntu YÙMA TANU: 1. NSENGO; 2. NTANZI; 3. PÀ yovo pau; 4. PIKASI yovo (picarrete) ye SENGELE. Vava tuabak’eyùma, ambuta zeto oku vo ‘Ana sumba esengele kie mpa, emekena imu mbota. Embota keyakakako’, imana nfinda mwazala nkosi ye ngo yeyi yawonsono yambi mavekua ye mata-mpakasa”.

Tradução nossa

“É neste vale onde se ergueu a vila. Quando as 60 e poucas pessoas chegaram no Toto, porque o Grupo das 82 pessoas foi dividido em dois. Uma parte seguiu para Luanda, embora que depois seguirem-lhes muita gente. Mas este grupo esteve liderado pelo mais velho João Mankoka, que mais tarde aderiu as Testemunhas de Jeová. O outro grupo esteve liderado pelo mais velho Simão Gonçalves Toco. Posteriormente, a partir do Toto foi onde ele escolheu 04 elementos: 1. MIGUEL ESTEVES; 2. VASCO PANDA; 3. MATIAS DIELUNGWAGWA/ele foi o pregador deste dia. Pregou em I Timóteo 2:1; 4. MIGUEL LUBAKI, etc, etc, etc. Estes foram os primeiros a entrarem no dia 04/02/1950 no Ndimba Nzengo que é a terra de Cristo. Somente no dia 05/02/1950 o Dirigente dos Tocoístas, sr Simão Gonçalves Toco, entrou com as demais pessoas que ficaram no Toto. Quando os 04 chegaram, dormiram. No domingo foi quando realizaram o culto. O pregador foi o mais velho Matias e o culto foi conduzido pelo mais velho Vasco Panda. No domingo foi-lhes entregue os utensílios de trabalho agrícola, nomeadamente: uma ENXADA com sacho; uma CATANA; uma PÁ; uma PICARETA e um MACHADO”. Simão Lutonda e Pedro Nzila acrescentam ainda: ALAVANCA e UNIFORME DE KAKI.

ANÚNCIOS DE SIMÃO GONÇALVES TOCO NO ACTO DE RECEPÇÃO À QUANDO DA ENTRADA NO COLONATO DO VALE DO LOGE AOS 05 DE FEVEREIRO DE 1950 (In Profecias do Dirigente, págs 50 e 51)

Missão no Vale do Loge

“Bem-aventurados sois vós que saístes duma cidade cheia de glória mundana para a mata. Mais fácil será a salvação para vós do que os vossos irmãos que foram para Luanda. Porque saíram da cidade de Leopoldville para outra com maior glória mundana. Pois, futuramente esta terra se transformará em cidade (Cidade Santa do grande Rei). Tendes uma grande missão de Deus para cumprirdes. NÃO FUI EU QUEM VOS ESCOLHI. FOI O PRÓPRIO DEUS QUE ME TINHA ENVIADO PARA IR A VOSSA BUSCA, PORQUE VOS TEM CONSAGRADO PARA LHE CONSTRUIRDES AS SUAS SANTAS CIDADES. Hão-de construir-lhe três cidades: A primeira cidade é esta que agora começastes aqui, na região do Bembe. A segunda cidade será erguida na REGIÃO DO ZOMBO (Ntaya); A terceira cidade será erguida na REGIÃO DO KWIMBA. Serão estas três cidades santas que ireis erguer para o vosso Deus. Estas cidades terão o mesmo estatuto que têm as Missões da BMS. Por isso, trabalhem, porque futuramente tudo isso será vosso”. Confira ainda: Depoimentos de Simão Lutonda (Loge, Jan/2012), Daniel Araújo Mfinda (1960), Pedro Nzila (2013);

Advento dos movimentos de luta armada e de libertação nacional

“Não vos sentis tristes, vós que viestes comigo neste lugar (Vale do Loge), onde suportareis inúmeros sofrimentos. Mas o vosso sofrimento será recompensado. Toda obra de vossas mãos que se fará neste lugar, será para vosso bem futuro. Deus sabe o motivo pelo qual vos mandou neste lugar. VÓS SOIS OS CÃES DE CAÇA QUE FOSTES INTRODUZIDOS NO BOSQUE PARA CRIARDES PÂNICO ÀS FERAS QUE AQUI ABUNDAM; PORQUE OS CAÇADORES ESTÃO A VIR A VOSSA ATRÁS. Por isso, nós os cães estamos a espera que os caçadores cheguem e tomem as suas devidas posições. Porque, QUANDO AGITARMOS O BOSQUE, TODOS OS ANIMAIS QUERERÃO SAIR EM DEBANDADA, o que vai permitir os caçadores a começarem abatê-los. É ESTA A MISSÃO QUE DEUS NOS INCUMBIU. Lá onde saímos as coisas vão mudar dentro em breve. Quando ouvirdes que o Congo Belga estremeceu, saibam que o tempo de Angola estremecer também está próximo”. Palavras proferidas por Simão Gonçalves Toco no primeiro culto Tocoísta da INSJCM realizado no dia 05 de Fevereiro de 1950, para saudar a sua chegada no Colonato do Vale do Loge.

Estas duas narrativas revelam a natureza e origem da missão profética dos Tocoístas da INSJCM (AVAUKI AMPUNGU) e descrevem os seguintes factos subjacentes no acto realizado neste dia no Vale do Loge:

  1. O Ndimba Nzengo a Yave (VALE DO LOGE ou melhor, VALE DA DECISÃO FINAL DE DEUS) é uma localidade previamente escolhida por Deus, onde os Tocoístas travaram varias batalhas, tendo lhes sido incumbida uma missão divina: “AGITAR O BOSQUE E CRIAR PÂNICO AS FERAS QUE NELE EXISTEM”. Segundo Vasco Nzila, esta foi a conclusão chegada por Silva Cunha em 1956 a quando do estudo que realizou sobre o Tocoismo e que ditou a construção da Unidade Militar no Ntôto à 30 km do Vale do Loge;
  2. Neste dia, teve lugar o PRIMEIRO CULTO TOCOÍSTA ocorrido na INSJCM, dando-se cumprimento ao programa de acção de Deus apresentado por Simão Toco aos Tocoístas no dia 10 de Setembro de 1949, no quintal do Ancião TIMÓTEO MENAKULUSE LUTOKAMU;
  3. Neste acto, os 62 Tocoístas acompanhados pelos Senhores: Engenheiro ARTUR MEDINA, Engenheiro Agrónomo ANTÓNIO FERRÃO DA FONSECA e pelo Capataz JOÃO OLIVEIRA, recebem destes os seguintes utensílios (instrumentos) de trabalho agrícola: Uma ENXADA com sacho; uma CATANA; uma PÁ; uma PICARETA e um MACHADO. Simão Lutonda e Pedro Nzila acrescentam ainda: ALAVANCA e UNIFORME DE KAKI, cumprindo-se deste modo o anúncio do Profeta Simão Kimbangu, conforme o Ancião Pedro Nzila e demais Tocoístas presos, foram alertados na cadeia em 1949 pelo discípulo de Simão Kimbangu, sr Jean Albert “NKENGEDI A BOLOKO – SURVEILLANT”, que aí se encontrava detido há 20 anos, nos seguintes termos: “Quando estivemos na prisão em Leopoldville, houve um dos discípulos do Profeta Simão Kimbangu que encontramos e disse-nos o seguinte: ‘BEM, VOCÊS VÃO PARA ANGOLA. SE CHEGAREM NO BEMBE, E VOS DEREM ROUPA DE KAKI E ENXADAS DE DUAS CABEÇAS COMO FERRAMENTAS DE TRABALHO, ENTÃO É MESMO ESTE HOMEM QUE O PROFETA KIMBANGU NOS ANUNCIOU. Mas se forem por outro caminho, e não se verificar os sinais que mencionei, digo-vos meus irmãos, não convêm, porque este será um outro. O Profeta Kimbangu disse-me: «Tu entraste comigo nesta prisão, mas só cá sairás quando aquele Muzombo der entrada nesta cadeia. E quando ele sair, será o dia da tua saída». E isto aconteceu, porque no dia em que abandonamos a cadeia, foi quando o governo Belga libertou-lhe”. Profecias do Dirigente, pág. 47, rodapé nº 24.
  4. Anúncio de Simão Toco, afirmando aos Tocoístas de que foi Deus quem o enviara, para que fosse à busca deles em Leopoldville no Congo Belga e os consagrasse para cumprimento da SUA MISSÃO, e que lhe erguessem TRÊS LOCALIDADES SAGRADAS: Vale do Loge, Zombo (Ntaya) e Kuimba;
  5. Neste dia, Simão Toco declara de viva voz e diante dos Portugueses, de que eles eram os CÃES DE CAÇA que Deus introduzira no bosque, para criarem pânico as feras (colonialistas), a fim dos CAÇADORES (movimentos de luta armada em Angola) que viriam depois deles, pudessem abate-los logo que agitassem o bosque e os animais (feras) saíssem em debandada;
  6. Também anuncia as mudanças significativas que teriam lugar em Angola, tão logo ouvissem de que o Congo Belga estremecera.
  7. ANTECEDENTES FACTUAIS DESTA EFEMERIDE TOCOISTA

A literatura Tocoísta existente remete-nos aos seguintes antecedentes históricos deste importante acontecimento

  1. Os anúncios proféticos de Simão Kimbangu sobre o Vale do Loge e sobre o surgimento de Simão Toco (Zombo), cujo cumprimento deste facto foi reafirmado pelo sr Jean Albert, profecia esta que está na base da TENTATIVA DE ENTRADA DE MPADI SIMON NO VALE DO LOGE que levou a sua gente até o Bembe, mas Deus não consentiu que alcançasse o Loge, saindo dispersos;
  2. Deus proveu a escolha dos AVAUKI AMPUNGU – Tocoístas (caso que está na origem do surgimento do Lunzamba), tendo enviado Simão Gonçalves Toco em 1943 ao Congo Belga a busca destes (Coro de Kibokolo), para cumprimento da sua Missão no mundo;
  3. A estadia de Simão Gonçalves Toco no Bembe como professor da Missão Baptista, no período e 1938 à 1943;
  4. A apresentação do PROGRAMA DE ACÇÃO DA INSJCM no dia 10.09.1949 por Simão Toco aos membros do Coro de Kibokolo no quintal do Ancião Timóteo Menakuluse Lutokamu, no dia a seguir a expulsão destes da Igreja Baptista;
  5. Em 28 de Julho de 1949, Jesus Cristo leva Simão Toco em espírito ao Vale do Loge, e instrui-lhe no que devia fazer: “O Espírito levou-me para o Bembe no Vale do Loge e disse-me: ‘OLHA, QUANDO CHEGARES AQUI, AQUELE MONTE DARÁS O NOME DE MONTE DE JESUS CRISTO’. Quem conhece o Vale do Loge, o monte de Cristo é aquele onde os senhores Padres construíram uma capelinha com um nimbo. O outro no meio da aldeia antiga do Loge, o Espírito disse-me para dar o nome de MONTE SIÃO e o outro monte a esquerda depois de atravessar o rio Loge, disse-me para dar o nome de MONTE SINAI, etc. Eu não conhecia o Loge. Profecias do Dirigente, págs 42/43;
  6. As prisões, expulsões e desterros dos Tocoístas desde 22 de Outubro de 1949 em Leopoldville, como consequência directa da relembrança da Igreja de Cristo em 25 de Julho de 1949;
  7. De acordo com o Relatório de Sete anos de Actividades do Colonato do Vale do Loge elaborado pelo Engenheiro António Ferrão da Fonseca, a pretensão da DIRECÇÃO DOS SERVIÇOS DE ADMINISTRAÇÃO CIVIL, em 1949 solicitara à JUNTA DO CAFÉ para que promovesse a instalação de 426 Cabo-Verdianos em matas desocupadas do antigo Distrito do Congo (Uíge), tendo sido apresentada em Luanda aos 21 de Novembro de 1949, uma informação para a materialização desta sugestão, à quando da vinda em Angola do Vice-Presidente da Junto de Café. Os trabalhos de prospecção tiveram início no mês de Janeiro de 1950 por decisão do Governador-Geral de Angola, Capitão Agapito da Silva Carvalho, mas a 30 deste mesmo mês, após encontro que teve com Simão Toco e sua gente em Maquela do Zombo e na presença de todos Administradores de Distritos de Angola, este decide fixar aí um contingente de indígenas de Angola que tinham sido expulsos do Congo Belga(Ferrão 1957:02-04). Dizer ainda que a Carta elaborada pelos Comerciantes Zombo de Leopoldville e endereçada aos Sobas do Zombo, alertando-os para que se livrassem de Simão Toco, tal como as Declarações do Missionário William David Grenfell, pesaram muito na rápida decisão do então Governador-Geral de Angola, que os isolou no Colonato Vale do Loge.
  8. RELEVÂNCIA DESTE EVENTO TOCOÍSTA

A efeméride deste dia referente ao Vale do Loge, indiscutivelmente remete-nos à uma variedade de assuntos fulcrais no Tocoísmo e na história política de Angola (nacionalismo), visto que a acção dos Tocoístas nesta localidade foi determinante para o “ABATE PELOS NACIONALISTAS DAS FERAS (animais) QUE ELES DISPERSARAM DO BOSQUE”, isto é, para o derrube do colonialismo em Angola, facto que pode ser provado através dos estudos realizados pelo então Ministro do Ultramar, Dr Silva Cunha em 1956, por Eduardo dos Santos e por outros investigadores que lá se dirigiram (Vale do Loge), e também pelas medidas de precaução que foram adoptadas pelo Governo de Salazar contra os Tocoístas a partir de 1957 (chegada da PIDE em Angola, criação da Base Militar no Ntoto/Bembe, retirada compulsiva da estrela no peito dos Tocoístas, etc). Também trás a ribalta a problemática da missão profética de Simão Toco e dos Avauki Ampungu e Ndimba Nzengo; das três localidades sagradas que deviam ser erguidas;

Por estes factos, somos a concluir que o 05 de Fevereiro de 1950 encerra um conjunto de situações relevantes que delineadas no PROGRAMA DE ACÇÃO DA INSJCM, que estão na base das missões executadas pelos Tocoístas desde 1950, mas que se confundem com a recente história de Angola: LIBERTAÇÃO DOS AFRICANOS DO JUGO COLONIAL. Pensamos ser uma problemática que converge para a melhor compreensão do simbolismo desta data e lugar, que está seguramente vinculado com o sentido da fé dos Tocoístas e da sua comunhão com Deus, remetendo-nos aos seguintes elementos:

 

  1. O NDIMBA NZENGO A YAVE enquanto vale da decisão de Deus, é a génese da acção do Tocoísmo prático projectado em Leopoldville aos 10.09.1949 e implementado a partir de Angola em 1950 (a bola), sendo a mais importante das Missões Tocoístas;
  2. Enquanto local da realização do PRIMEIRO CULTO TOCOÍSTA e de inúmeras realizações espirituais, religiosas e sociais pelos Tocoístas aí desterrados, e tal como dizia Simão Toco, o Vale do Loge é a “RAIZ DO TOCOISMO”, e um lugar de ricas, vivas e muitas memórias, sendo um património insubstimável da INSJCM e da humanidade;
  3. As sentenças declaradas por Simão Gonçalves Toco neste dia cumpriram-se na íntegra, pois, segundo a literatura Tocoísta, o surgimento dos movimentos de luta armada em Angola uma década depois, foi um pedido feito pelos Tocoístas em oração, com o fim destes os ajudarem nesta empreitada, abatendo as feras dos bosques que os Tocoístas dispersaram (luta espiritual);
  4. CONCLUSÕES

 Com a abordagem desta efeméride que nos remeteu de volta ao passado, pensamos termos apresentado o retrato mais fiel possível da relevância e do simbolismo desta localidade, o que não nos leva a dispensarmos os inevitáveis questionamentos que se impõem sobre o assunto:

  1. Qual o significado histórico, espiritual, religioso, teológico, académico e social do Ndimba Nzengo a Yave para os Tocoístas, Angolanos e Africanos?
  2. Qual o simbolismo do Vale do Loge para a INSJCM, visto que está na origem do Tocoísmo praticante, pois, enquanto sede espiritual da Igreja, é de lá onde imanaram as directrizes que ergueram o Tocoísmo nos anos cinquenta.
  3. Como caracterizar a Missão Tocoísta do Vale do Loge?
  4. Por que razão os Tocoístas nesta localidade foram submetidos a duras e terríveis provações?
  5. Como entender a Missão que Deus incumbira aos Tocoístas nesta localidade?
  • METODOLOGIA E BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

Semelhantemente as demais abordagens, na nossa reflexão em torno desta efeméride Tocoísta, adoptamos a mesma metodologia, fontes documentais e bio-bibliográficas:

 

DOCUMENTOS:

  1. António Ferrão da Fonseca, Relatório de Sete anos de Actividades do Colonato do Vale do Loge, 1957;
  2. Edicções Mumbeliano Tocoísta, A história de Nkusu-Mpete: arqueologia da tradição oral , Luanda, 2018;
  3. Calendário Religioso Tocoísta, Luanda, 2018;
  4. Daniel Araújo Mfinda, Vale do Loge, 1960;
  5. Reverendo William D. Grenfell, Superior da Missão de Kibokolo, sobre Simão Gonçalves Toco, datado de 11.01.1950, à pedido do Governo Colonial Português em Angola;
  6. Gabinete de Comunicação e Imagem/INSJCM, Ciclo de Conferências: o Tocoísmo e o Nacionalismo Angolano, Luanda, 2019;
  7. Relatório Colonato Indígena do Vale do Loge, 1957;
  8. Estudo sobre o Planeamento do Núcleo de Povoamento Agrário do Vale do Loge, Junta de Povoamento de Angola, Setembro de 1970;
  9. Relatório do Batalhão de Caçadores nº 159, Companhia de Comando e Serviços, história da Unidade, 1961;
  10. VALE DO LOGE: A TERRA PROMETIDA POR DEUS AOS TOCOÍSTAS (Origem, sacralidade, profecias e importância do lugar) Por: António Neves Álvaro, Maturino Pedro Nzila, Benção Matias Carlos e Paracleto Mumbela.

LITERATURA TOCOISTA

  1. AGOSTINHO, Pedro Santos, Simão Gonçalves Toco e os Tocoístas no Mundo, s/d;
  2. CUNHA, Silva, Aspectos dos movimentos Associativos na África Negra. Vol. 2, Junta de Investigação do Ultramar, Lisboa, 1959;
  3. ESTERMANN, Carlos, Etnografia de Angola (Sudedoeste e Centro) Vol I, Lisboa, 1983;
  4. GRENFELL, F. James, História da Igreja Batista em Angola (1879-1975), Luanda, 1998a;
  5. ———, Simão Toco: An Angolan Prophet, Journal of Religion in Africa, Vol. 28, Fasc. 2, 1998b;
  6. HENDERSON, Lawrence W., A Igreja em Angola, Viseu, Editorial Alem-Mar, 2ª edição, 2001;
  7. KIBETA, Simão Fernando, Simão Toco. O profeta Africano em Angola, Luanda, s/d;
  8. KISELA, Joaquim A., Simão Toco. A trajectória de um homem de paz, Editorial Nzila, 2004;
  9. Nova Esperança Tocoísta, Manual de Ensino Tokoístas para Anciãos e Conselheiros Formadores, Luanda, 2013;
  10. —————————–, Manual de Periodização do Tocoísmo, Luanda, 2016;
  11. —————————–, Memórias dos Anciãos da Igreja “Ngunga Ngele”, GCNET, Luanda, 2006;
  12. NZILA, Maturino Pedro, Vida e Obra de Simão Gonçalves Toco, 1998, Luanda;
  13. SANTOS, Eduardo, Movimentos Proféticos e Mágicos em Angola, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1972;
  14. TOCO, Simão Gonçalves, Directrizes do Dirigente, GCNET, 2004, Luanda;
  15. ——————————, Profecias de Mayamona, GCNET, Luanda, 2012;

DEPOIMENTOS

  1. Depoimentos dos Anciãos e Anciãs da Igreja: Vasco Pedro Nzila, Simão Lutonda, Pedro Nzila, Veronika Makiese, Paulina Malongi, Elizabeth Veki, Filipe Ndombele, etc.

ANEXO

  1. MISSÃO BAPTISTA DE QUIBOCOLO INFORMAÇÕES RELATIVAS AO ASSUNTO SIMÃO GONÇALVES TOCO

Princípio da história

 O Simão veio de Sadi, próximo de Maquela na estrada da Quimbata. Veio para a Missão ainda rapaz em 1926, onde permaneceu até 1933. Manifestou-se bom estudante e nos estudos ocupou sempre lugar muito destacado entre os restantes. Por isso, a Direcção da Missão decidiu manda-lo para Luanda tirar o 3º ano, à custa da Missão. Foi para Luanda em 1933 e esteve lá 03 anos.

Em 1937 voltou a Quibocolo e empregou-se como Professor na Escola da Missão e mais tarde, durante a licença do Sr Bruno de Sousa, substituiu-o, sob direcção do então Superior da Missão, Rev. James Russell, M.A. no regresso do Sr Bruno de Sousa, Toco foi transferido para a Missão Irmã da Sociedade no Bembe, para tomar conta da Escola.

Durante quase 05 anos, trabalhou bem e afincadamente e exerceu uma grande e benéfica influência sobre os rapazes daquele Distrito. Em 1943, contudo, Toco começou a ficar descontente com o seu trabalho porque deixou o serviço da Missão sem autorização.

Ajustou casamento com uma rapariga de Quibocolo, para o que lhe foi dada uma licença de 06 meses, mas não voltou ao trabalho, nem escreveu a participar a sua resolução de se desligar da Missão. Todas os preparativos para o casamento tinham sido feitos em Quibocolo, mas não deu parte de nada e foi para o Congo Belga, donde não voltou.

 No Congo Belga

A Missão esforçou-se ao máximo para persuadir Toco a reocupar o seu lugar, mas sempre em vão. Vivia em Leopoldville, mas não trabalhava e era evidentemente sustentado pelos amigos. Passado tempos, formou um coro que teve grande sucesso e vivia muito bem com as dádivas dos componentes. Também se tornou Secretário de várias sociedades de Socorros Mútuos, o que prova que era um membro acreditado na comunidade.

Nunca foi empregado na Sociedade Missionaria Baptista de Leopoldville. Nas celebrações do Jubileu ocorridas no Quibocolo em Julho, veio de Leo muita gente do Zombo e outros lugares do Congo Belga para tomar parte nas nossas festas. Toco veio com eles e trouxe o seu coro. Parecia estar encarregado do grupo de Leo, porque tratou de todos os assuntos da viagem.

O grupo permaneceu uma semana e na manhã do dia da partida, pediram emprestado 9.325,00 para pagar o carro que os transportasse à fronteira; nessa mesma manha, perguntaram se podiam pedir emprestado alguns francos Congolenses e emprestaram-lhe 4.600. Toco assinou ambos os recibos. Os francos foram pagos logo a seguir, mas a quantia em angolares ainda está por pagar. Julgo que também esta quantia teria sido enviada se Toco e seus amigos não tivessem sido presos pelas autoridades Belgas.

 O movimento “religioso”

Em 1946 houve uma grande Conferência Missionária e entre os assistentes, encontravam-se delegados negros de vários países, incluindo os dos E. Unidos de América. Esta gente exerceu alguma influência em Toco, que parece que lhe deu volta à cabeça. Em Leopoldville encontrava-se nesta altura Mrs Paul Robson, a mulher do bem conhecido cantor. Não sei o que ela lá fazia, mas conversou com alguns líderes cristãos africanos. Mais tarde, um ou dois destes africanos tornou-se descontentes com os seus contractos e julga-se que ela teve alguma influência nisto.

Pouco tempo depois, Toco começou a receber projectos (literatura) duma organização americana chamada Torre de Vigia. Os jornais eram impressos em Português no Rio de Janeiro. Este movimento e as suas publicações são proibidos no Congo Belga. Este movimento diz-se baseado na Escritura. Baseia-se fundamentalmente na crença da 2ª vinda de Cristo à Terra e de que os reinos deste mundo serão nessa altura julgados e exterminados. A política e os antagonismos de raças facilmente entram neste movimento.

Toco aceitou muitos dos ensinamentos deste movimento mas a sua “nova religião” ultrapassou muito o que eles ensinavam. O próprio contraiu um casamento irregular, casamento em espirito – alguma coisa para além das ligações terrestres – e adoptou estas e outras coisas disparatadas para os seus sequazes que não caberiam na cabeça de ninguém que a tivesse no seu lugar.

Muitas destas práticas têm origem no paganismo. O movimento é completamente condenável. O que de mais generoso se pode dizer de Toco e da sua chefia neste movimento, é que está completamente varrido. Alguns dos nossos Catequistas foram convidados a seguir Toco, mas todos recusaram. Um destes homens contou-me algumas regras e práticas deste movimento. Muitas destas regras são muito bárbaras mas são perfeitamente aceites pela mentalidade do preto inculto. Algumas delas têm significados que uma mente educada dificilmente compreende.

Os pontos de fé que se seguem não estão por ordem de importância:

  • Os membros não devem comprar ou usar sabonete ou perfume, ou usar brincos, anéis ou braceletes;
  • Não devem usar utensílios de esmalte ou zinco para se lavarem;
  • Devem usar roupas pretas ou escuras. Devem usar um medalhão em forma de estrela para mostrar que pertencem ao movimento;
  • As mulheres devem usar o cabelo curto;
  • Há regras relativas aos alimentos permitidos; alguns, como a carne de porco são proibidos;
  • Quando se dirigem à Deus, devem manter a cabeça bem para trás e os olhos abertos;

Nalgumas regiões, foram apanhadas pelo “Espirito” que as fez sacudir violentamente, etc. Deixaram da moral e permitem coisas como dançar sem roupa. O próprio Toco perdoa todos os pecados. Os membros dirigem-se ao Pai, Simão e ao Espírito Santo.

Os homens brancos tornar-se-ão pretos e todos os membros do movimento tornar-se-ão brancos. O domínio estrangeiro (branco) acabará e os africanos governarão na sua própria terra. A exploração do nativo acabará. Muito do que foi escrito acima é já antigo, mas apenas repetição das perturbações do “Profeta” ou “Espírito” que aqui ocorrem de tempos em tempos. O autor da carta conheceu dois destes movimentos em 1940 4 1943, mas foram bem dominados pelas autoridades de Maquela.

William D. Grenfell, Superior da Missão, 11.01.1950.

PS: Opinião do Dr. John T. Tucker, da Missão de Luanda: O superior Grenfell é muito duro nesta carta para com o Simão Toco.

  1. EXTRACTO DA DISSERTAÇÃO DO ANCIÃO JEREMIAS PEDRO FERNANDO (PEPE) NA CICLO DE CONFERÊNCIAS SOB O TEMA: O TOCOÍSMO E O NACIONALISMO ANGOLANO, ORGANIZADO PELA INSJCM E REALIZADO NO ISCED/LUANDA AOS 17.02.2018

Só para ficar registado, sobretudo para os académicos. O antigo Ministro do Ultramar e depois Ministro da Defesa do Governo de Salazar na altura. Portanto, num relatório feito pelo Centro de Estudos Políticos e Sociais da Junta de Investigação do Ultramar, Comissão dos Estudos dos Movimentos Associativos em África. Relatório da Campanha de 1956, Joaquim Moreira da Silva Cunha. Dizia assim: “Escreveu-se no relatório de 1956, O Tocoísmo é um movimento de maior valor sintomático de uma atitude de reacção contra a colonização portuguesa. Mantemos a mesma opinião e por isso, procuramos com particular acuidade, alias, dentro da orientação geral, exposta na introdução, dirigir a investigação de forma a suprir as lacunas das informações recolhidas nas campanha anterior e corrigir as inexactidões e práticas”. In: CENTRO DE ESTUDOS POLÍTICOS E SOCIAIS DA JUNTA DE INVESTIGAÇÕES DO ULTRAMAR – MISSÃO DE ESTUDOS DOS MOVIMENTOS ASSOCIATIVOS EM ÁFRICA – RELATÓRIO DA CAMPANHA DE 1957 – Joaquim Moreira da Silva Cunha (Ministro do Ultramar de 1965-1968 Ministro da Defesa do Governo 1973-1974 dos governos de António de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano respectivamente – Pág. 93, Secção II); 

Portanto, o Tokoísmo era considerado sim uma organização terrorista ou patriótica, chamemos assim. Obrigado. (Ciclo de Conferências: o Tocoísmo e o Nacionalismo Angolano, Gabinete de Comunicação e Imagem/INSJCM, Luanda, 2019, pags 100 e 101.

3.MEMÓRIAS DO ANCIÃO SEBASTIÃO ALVES

  1. Comerciantes Bazombo em Leopoldville advertem Sobas e Anciãos

Então, enquanto esperávamos pelos acontecimentos que o Dirigente anunciara (descida do Espírito Santo e expulsão), certa altura, os grandes comerciantes Bazombo que exerciam a sua actividade comercial em Kinshasa, mandaram uma carta à todos os Anciãos e Sobas da região do Zombo. Eles diziam na sua carta:

“Levamos ao conhecimento de todos os mais velhos, anciãos e sobas da região do Zombo, que o Simão Toco está preso e será expulso do território do Kongo Belga. As autoridades Portuguesas já foram notificadas a cerca da expulsão deste homem. E nós também aqui vos rogamos bastante, principalmente aos nossos, para que não permitam que os Portugueses fixem residência deste homem aí nas terras do Zombo. Isto, porque Simão Toco só trás prejuízos. Aqui onde estamos, todos os nossos negócios faliram, porque ele está com uma doutrina que proíbe as pessoas de fumarem, de consumirem bebidas alcoólicas, de usarem missangas e outras jóias. Razão pela qual estamos a insistir que antes que venham consentir enormes prejuízos como nós tivemos, é melhor que os sobas assumam uma posição enérgica contra ele. Os Belgas já informaram o Governador-Geral de Angola de que Simão Toco não pode exercer os seus trabalhos neste País. Por isso, compete aos Portugueses determinarem a sentença deste homem e que não deverá ser diferente daquela que Simão Kimbangu recebeu”.  

  1. Governador Geral de Angola reúne-se com Sobas e Anciãos do Zombo

Foi também naqueles dias que o Senhor Governador geral de Angola Capitão Agapito da Silva Carvalho  chegou em Makela do Zombo e antes de tomar qualquer contacto com o senhor Simão Toco, primeiro reunira com os sobas e anciãos da região do Zombo.

“Eu fui notificado pelo Governo Belga no Kongo, a cerca de um homem chamado Simão Gonçalves Toco. Este homem é um profeta de Deus e como não pode fazer o seu serviço lá naquela terra, porque eles também têm o seu profeta que é o Simão Kimbangu, por isso entregaram-me para vir trabalhar na sua terra. Será que todos já se prepararam para o receber?”

Mas como os Sobas e os Ancião já antes tinham sido instruídos pelos comerciantes, responderam somente:

“Nós não estamos a precisar de novos profetas. Temos os Padres e os Missionários e bastam-nos as nossas duas Igrejas Católica e BMS que têm nos ensinado a palavra de Deus aqui nas terras do Zombo. Vocês negam em receber o vosso profeta de nome Simão Toco? E se por ventura o Governo criar boas condições de acomodação para ele e os que com ele vêm, lá onde irão ficar, será que vocês não poderão seguir-lhe?”

“Nunca”.

“E caso eu apanhe alguns de vós entrarem na Igreja dele, qual será o castigo?” Pergunta o Governador. “Só tu saberás se vás degolar-lhe o pescoço ou lhes farás o quê”. Responderam os sobas.

  1. Sobas e Anciãos do Zombo aconselham Governador a desterrar Toco e adeptos

“E o que acham que deve ser feito deste homem” – Questionou o Governador. Em resposta eles pediram aquilo que constava na carta dos comerciantes, dizendo: “Não o mates e também não o fixe residência aqui nestas terras, para que não aconteça que venha acabar com as nossas duas Igrejas pela acção do seu poder e da força da sua doutrina. Contudo, desterra-o fora do território do Zombo e se bem parecer-vos, mandem-no para S. Tomé ou Cabo Verde”.

E ouvindo atentamente todas estas declarações, disse-lhes o Governador Capitão Agapito da Silva Carvalho: “Vou mandar o Simão Toco e seus seguidores para o Bembe e ficarão fixados no Vale do Loge. Mas ai do dia que eu ouvir que aqui no Zombo saíram pessoas para irem no Vale do Loge”.

Portanto, foi isto que aconteceu e o Dirigente e a multidão que o acompanhava foram mandados para o Vale do Loge. Mas durante a sua curta estadia em Makela do Zombo a quando do repatriamento, o Dirigente Simão Gonçalves Toco foi nos instruindo sobre a maneira como havíamos de proceder, nós que ficaríamos aí. Alias, ele mesmo não fora surpreendido de nada porque já a partir de Kinshasa informara as pessoas que com ele estavam, que Makela seria apenas um ponto de passagem, mas que o seu destino seria alcançar o Vale do Loge. In: Memórias dos Anciãos da Igreja “Ngunga Ngele”, GCNET, Luanda, 2006

 

 

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