Terras do Zombo, costumes da R.D. do Congo !

Terra de cá costumes de lá
Por Filipe Eduardo
Chegar a Maquela do Zombo, mesmo à sede municipal, obriga-nos a arranjar um tradutor ou, na pior das hipóteses, “andar às escuras” quando o português é a única língua.Localizada a 350 quilómetros da sede provincial, Uíge, e a pouco menos de 40 da fronteira com a  República Democrática do Congo, Maquela do Zombo tem o lingala como  língua de contacto, depois o kikongo e em último lugar o português.

Na comuna do Kibokolo, a 30 quilómetros da sede municipal, a interacção com os meninos com idades compreendidas entre os seis e os 14 anos, todos a frequentarem a escola, só foi possível em lingala. Interrogados sobre que língua é usada na escola, a resposta do pequeno Jean veio de imediato: “Ba professeur balobaka pé lingala”, o que se traduz em português por “Os professores falam também lingala” na sala de aula. O adulto que se encontrava ao lado justificou dizendo que a razão é simples: “O Congo foi sempre um país culturalmente forte. É assim que edificaram o Matonque em Bruxelas, na Bélgica, um autêntico Congo no centro da Europa, só para citar este exemplo.”

Nos espaços públicos, nos estabelecimentos comerciais  ruas  só ouve-se  falar lingala, uma realidade que nos levou a perguntar se os falantes eram angolanos ou congoleses. Os naturais da região conseguem distinguir, facilmente, o cidadão de cá e o de lá, mas o mesmo já não acontece com os visitantes, como era o nosso caso.

Ao jovem que se identificou como angolano, perguntámos se o vendedor ambulante com vários pares de sapatos pendurados no pescoço e nas mãos era angolano ou congolês, e ele respondeu sem rodeios que era congolês.

É uma terra de cá, mas que se parece com um espaço do outro lado da fronteira. Apesar desta realidade, nem toda a gente fala lingala. Próximo do mercado, interpelámos dois rapazes, Francisco e Jorge, na casa dos 14 anos, vestidos com batas brancas, que regressavam da escola. Mataram a nossa curiosidade, mas no fim confessaram que só estavam em Maquela há seis meses, saídos do bairro da Mabor, em Luanda.

Negociantes por excelência

A rua principal, de terra batida, uma condição reclamada por vilões, acolhe grande parte das cantinas e lojinhas, que desempenham um papel duplo.

Dentro, a venda de artigos diversos, maioritariamente provenientes do Congo, e fora a comida acondicionada em panelas de alumínio e  bebida é um facto como constatou a reportagem do Jornal de Angola. Com a excepção das pessoas que trabalham nas repartições públicas, cada residência tem algo para comercializar. A provar que é também terra de lá, na porta de cada estabelecimento estão duas ou mais colunas de som de todos os tamanhos que se cruzam. Parado num lugar, pode-se ouvir três ou até quatros músicas diferentes. Todas do outro lado.

“É o Congo”, como diz o jovem Manuel, ido de Luanda para cuidar do negócio da serração do pai. Vendedores ambulantes de todas as idades circulam nas artérias da vila com vários produtos, entre artesanais,  como candeeiros feitos de latas de cerveja, a iguarias como a mandioca com ginguba, banana assada e medicamentos caseiros.

O movimento fronteiriço

Dos vários postos fronteiriços, o de Kimbata, a 41 quilómetros de Maquela, é o mais frequentado pelo facto de a via ser asfaltada. É um espaço de trocas comerciais, com movimento  fraco.

Na zona neutra, os congoleses vendem produtos do campo, como mandioca, quizaca, “tsafu” e ginguba. Em troca, os congoleses buscam produtos como açúcar, óleo alimentar, sal, peixe seco e outros, mas eles encontram dificuldades porque devem transpor a fronteira para alcançarem o mercado, a dois quilómetros do limite.

A dificuldade é, segundo um oficial do  Serviço de Migração e Estrangeiros, que não se quis identificar, no posto fronteiriço, o facto de os congoleses dificilmente terem documentos.
“Juram que só vão fazer compras, mas quem garante que eles regressam?”, questiona o oficial do Serviço de Migração e Estrangeiros, vestido a rigor com a farda característica, contrastando com os homólogos do outro lado da fronteira trajados à civil.

Vários congoleses, à semelhança do jovem mototaxista Matsuki Emanuel, acusam as autoridades angolanas na fronteira de não facilitarem a vida dos vizinhos. “Eu só quero fazer táxi  mas eles não deixam”, reclama o jovem que não se faz acompanhar de nenhuma documentação.

Via JA

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