Língua Zombo, figura imprescindível das relações entre culturas

Por José Carlos de Oliveira

 Língua Zombo, figura imprescindível das relações entre culturas

Como portugueses, não nos podemos esquecer do centralismo da personalidade de Santo António de Lisboa (ou de Pádua), como arquétipo do língua zombo – mensageiro: de acordo com a sua obra literária, falava aos peixes e, conseguia, assim, atingir os homens: “Vos estis sal terrae”.

Apagada da memória dos portugueses, a figura do língua zombo reclama o protagonismo de emparceirar ao lado dos embaixadores, sendo dotado de um cariz diplomático. Não teria sido possível aos portugueses e aos outros povos mareantes, alcançarem tantos e tão valorosos progressos no caminho da administração ultramarina, no campo da história, da economia, da educação, da política e dos assuntos sociais. O seu saber contribuiu fundamentalmente para a coexistência pacífica. Da sua capacidade de oratória, dependia o desenvolvimento dos contactos, especialmente os relacionados com assuntos delicados, sendo assim, bem merecem que lhes restituamos a visibilidade. Os tratados celebrados ao longo de séculos, tanto em África como nas Américas e no Oriente, denotam sempre a presença da figura do língua zombo, o linguister dos Ingleses e o linguará do Brasil.

O seu papel social, mais que linguístico, atesta a sua importância. Por exemplo, Diogo Cão trouxe alguns indígenas de linhagem para Lisboa, de modo a que no regresso da sua primeira viagem ao Congo, falassem e compreendessem o português e trajassem como os nobres. Posteriormente, na sua chegada triunfal ao seu reino de origem, davam notícia ao Manikongo, das maravilhas que tinham presenciado, da perícia dos portugueses ao enfrentar o imenso oceano; informavam da importância que o mercado do Congo tinha para Portugal e, por sua vez, do interesse que o rei africano deveria ter em negociar com ‘gente à sua altura’.A dada altura do processo, também os missionários se deram conta da necessidade e vantagens diversas em ensinar, aos padres negros, a língua portuguesa, para haver maior facilidade na evangelização e no acesso à mentalidade dos subgrupos. Não só, nesta altura, se construíram os primeiros ensaios de dicionários como se iniciaram os primeiros estudos gramaticais, e isso, não teria acontecido senão em escolas de linguística africana (bem como asiática). Estes conhecimentos davam substancial vantagem aos futuros administradores para porem em prática a competência da comunicação: preparava-os para contornar os embustes e perigos diversos contidos nas mensagens mais relevantes com as autoridades nativas.

Assim, desenvolviam a capacidade de viver, em duas ou mais culturas, o que lhes facilitava a necessária empatia.

Porém os intérpretes linguísticos da administração colonial portuguesa não eram funcionários superiores; a estes bastava, de uma maneira discreta, perceber se a conversa desenrolada à sua frente, conduzia ao disfarce, ao embuste do intérprete na explicação da conversa traduzida ao seu superior. Os língua zombo iam apurando o seu saber, aprendiam que a estrutura discursiva das línguas, em presença, podia ser diferente, pela entoação e pela mímica. Entendiam o cuidado a ter, para dar o devido sentido às palavras. Faziam grandes esforços para encontrar as equivalências na conotação.

No contexto colonial e especialmente em zonas de diferentes influências, na confluência das zonas portuguesa e belga; da portuguesa e francesa; da portuguesa e alemã e especialmente, por estranho que pareça, na confluência da influência inglesa e portuguesa, o língua zombo não era só o intérprete como também o guia das pequenas e grandes expedições, das pequenas e grandes caravanas. Eram, eles próprios, exploradores, comissários políticos, embaixadores e eram especialmente os consultores dos militares envolvidos em campanhas guerreiras. Influíam decisivamente nas decisões, sendo oriundos das grandes kandas, pertenceram frequentemente às suas linhagens mais preponderantes especialmente de caçadores, exerciam eles próprios muitas vezes a profissão, conseguindo assim as melhores cotações para os seus produtos pessoais e incluíam nas transacções o que iam conseguindo, contrabandeando muitas vezes, durante a noite, utilizando os mais destemidos subterfúgios para, no dia seguinte, apresentarem o seu próprio produto por entreposta pessoa de sua inteira confiança. Detinham a informação necessária às duas partes em presença, e frequentemente eram acusados de traidores pelas suas gentes, pagando com a morte frequentemente a sua audácia. Basta-nos consultar os relatórios confidenciais dos nossos comandantes militares da ocupação efectiva dos territórios Cuamato, Dembos e do Congo, para nos apercebermos do seu poder, da sua influência e como evitavam ou aceleravam os conflitos.

Porém, a sua eficácia estava também patente no papel que exerciam como porta-vozes dos pequenos e grandes potentados nas relações com os missionários. Podem imaginar-se as dificuldades dos portugueses ao passarem por territórios dos potentados mais aguerridos; sem o tacto destes mediadores linguísticos, as conversações referentes ao pagamento das portagens devidas à entrada e ao retorno da sua caravana, por essas zonas, seria muito mais dispendiosa. Os dois senhores em contacto dependiam sempre da “inteligência”, ou melhor, do segredo que o intérprete pudesse guardar ou revelar.

Voltando aos assuntos da missionação, quando nos referimos à documentação colonial, uma das preciosidades é a correspondência do padre franciscano João Gualberto de Miranda.[2]Partiu para Angola a 2 de Julho de 1779, para chegar a Luanda a 4 de Dezembro do mesmo ano. Nessa época, o bispo D. Frei Luís da d’Anunciação de Azevedo era o governador espiritual, civil e militar de Angola. A 22 de Abril de 1777, escrevia o padre Gualberto ao arcebispo Cenáculo informando-o da sua precária saúde e da doença que o prostrou por 3 meses, aliás a ele e aos seus companheiros, informando-o que foram escolhidos quatro missionários com destino à missão do kongo e duzentos e dez carregadores que conduziam os prelados, mais a carga que levavam (onde estava incluído, como sempre, um presente destinado ao rei do Kongo). Para percorrerem, aproximadamente seis dezenas de quilómetros, demoraram três dias, era a povoação do Itábe (deverá o missionário querer referir-se à zona do Tabi, sempre preferida pelas caravanas) “ (…) ao depois principiamos a sentir mais incomodos. Aqui vimos logo as primicias do nosso ministerio, correndo dos matos muitos mininos (leia-se meninos) para receberem o Baptismo. O mesmo sucedeu por todo o Marquezado do Mossul, por onde passamos, sendo de ordinario trezentos a 400 baptismos por dia, e ás vezes mais” (…)[3]

Abrimos aqui um pequeno parêntesis, porque nos assalta uma dúvida. Uma vez que o processo escravocrata estava em acelerado desenvolvimento, entre as gentes das povoações do reino do Kongo, correria célere a notícia de que caravanas comandadas por brancos se dirigiam para Banza Kongo afim de “resgatarem” escravos. Quem nos garante que essas populações, especialmente as mães, não tivessem já instruído os seus filhos dos riscos que corriam se não se baptizassem? Não será descabido admitir que presumissem que o baptismo, os livraria de tão ignóbil destino. Como é que dois ou três missionários, completamente desconhecedores da língua local baptizariam tantos indígenas? Que poder era o deles?

“ (…) Assim mesmo fomos administrando os Sacramentos a todos que os pedião, e hũ Interprete, ou Mestre da Lingua Portugueza foi o q. nos mandou gente, e alguns infantes juntamente mandarão seus escravos para nos trazerem para as terras do Grão-Duque de Bamba, por este Ducado trabalhamos em excesso em nosso Santo Ministerio, sendo a nossa maior demora em caza do dito Interprete (…)”[4]

Mais uma vez nos confrontamos com a incontornável figura do língua zombo no processo do contacto de culturas.

Visto que não é demais enfatizar a figura do língua zombo, novamente registamos a composição de uma coluna militar, nos primórdios do século vinte. Alves Roçadas, como comandante da coluna de operações militares contra o Kuamato, era um administrador e militar repleto de experiência, não descurava o essencial e, quando se refere à composição da coluna militar, são dele as seguintes palavras: “ (…) Aqui deixo, em resumo, indicado o que respeitava á organização da linha de etapas e aos abastecimentos destinados à coluna propriamente dita, questão esta de primacial importância em quaisquer operações de guerra, sobretudo quando estas tenham de se desenrolar em regiões de África.

Composição da Coluna

Em harmonia com o projecto de operações devia ella ser constituida pela seguinte forma: Comando e estado maior: 9 officiaes, 15 praças, 7 civis (interpretes, guias e pessoal telegraphico), 11 solipedes e 1 carro boer.(…)”

Voltando ao navegador capitão e mercador Diogo Cão, este não desejava quedar-se por mais tempo naquelas paragens, a sua demora poderia ocasionar interrogações desnecessárias aos potentados e prepará-los para investidas contra os mareantes que saíssem a terra, entre outras questões. Resolveu então rumar mais ao sul. Deixou a sua gente preparada e, entregou-lhes presentes para ofertarem ao Manikongo. De seguida, rumou viagem, mas chegado ao cabo Lobo, hoje chamado Lucira Grande, verificou que continuava a avistar terra, optando assim por voltar para trás, de regresso ao rio Grande. Quando chegou ao local onde tinha deixado os seus mensageiros, levou consigo de regresso, quatro nobres kongo deixando a promessa que voltaria passadas que fossem quinze luas. Muito mais demorou o capitão a regressar, mas quando o fez, já trazia consigo quatro senhores vestidos de forma europeia, falando a língua de Camões e conhecedores dos costumes das gentes de Portugal, perfeitos língua, prontos a servirem como melhores embaixadores. O que eles transmitissem ao seu povo seria acatado com o maior respeito.

Insistiu então o navegador em seguir a rota mais para o sul, voltando a não encontrar o fim da terra. De novo enfrentou o rio Poderoso e desta vez, deparou com uns rápidos que os não deixaram prosseguir. Nos rochedos das margens fizeram inscrições dizendo que eram capitães de Portugal cujo rei era D. João II, e deixou nomes escritos, (vide fotografia nº ) Diogo Cão, Pedro Anes e Pêro da Costa. Assim, continuou, a pé, para Banza Kongo, levando consigo a proposta de conversão à fé cristã enviada por seu rei ao Manikongo, acompanhadas por muitas outras ofertas. Foi entusiástica a resposta do rei do Kongo, solicitando ao capitão que pedisse por ele missionários, carpinteiros e outro tipo de especialistas. Estes contactos de culturas, entre povos europeus e africanos, foram sendo, a par e passo, penosamente conseguidos pelos portugueses.

Em 1491, Diogo Cão efectivou a segunda expedição dirigida exclusivamente ao reino do Kongo, fazendo-se acompanhar pelo embaixador de Portugal e pela primeira missão de dominicanos, para além de numerosa expedição de soldados, operários e colonos, marcando assim o início do grande movimento cristão. Passado pouco tempo, foi baptizado o rei com o nome de D. João, conhecido entre os seus por N’Zinga. Este cerimonial da eleição e coroação dos reis do Kongo, segundo os nossos cronistas, atenta principalmente na adaptação religiosa, intencionalmente introduzida pelos missionários portugueses durante os processos de evangelização. Um pormenor resta semi-silencioso: o significado do cerimonial tradicional e das insígnias entregues a cada novo soberano do Kongo pelo prelado ou o seu vigário[6]. O Mani Kabunga ou Saku ne Vunda da província de Mbata era não só o detentor do poder religioso mas também o principal eleitor dos reis e o sacerdote tradicional da coroação. Por razões mais ou menos explicadas ficamos privados, nessa época, deste valiosíssimo capítulo da etno-história do Kongo, sob o pretexto de que se tratava de cerimónias ridículas ou pagãs. Um número razoável de responsáveis dos altos estudos coloniais percebe que o cristianismo é concebido no Kongo como reforço ideológico e não como exclusividade religiosa. Passaram-se os anos e as linhagens kongo verificaram que, o modo de vida imposto pela nova religião não se adequava aos seus princípios. Revoltaram-se algumas tribos conhecidas por anzicos, presumindo-se serem os actuais batéke ou povos makoko, que habitavam as ilhas e as margens do Zaire. Foi a ocasião dos portugueses demonstrarem ao potentado africano o seu valor, tendo regressado de vários confrontos com o prestígio da vitória.

Nestes espaços com preocupações científicas, começamos por coligir bibliografia rigorosa e adequada para suporte do assunto em questão. Naqueles tempos, e estamos a referir-nos aos séculos XV e XVI, era fundamental o suporte em pessoas experimentadas e com uma cultura familiar que permitisse errar pouco, muito pouco, uma vez que as pesquisas sobre povos e locais eram muito demoradas, exigindo recursos financeiros elevadíssimos. Os portugueses só reuniram tais condições com o suporte de recursos financeiros internacionais, especialmente judaicos da Flandres, e rapidamente transformados em agentes de cultura, ciência e tecnologia, também seriam os mais prósperos e interessados intervenientes na grande empresa marítima dos descobrimentos que, de início visava isolar o Islão e detectar o caminho marítimo para o rico Oriente.

A história de Portugal e de Espanha foi assinalada pela intervenção do povo judaico na diáspora, nos séculos XV, XVI e XVII especialmente naquilo em que sempre foram mestres, na economia. Aqueles que ficaram, em África, passariam a ser conhecidos por cristãos-novos e a sua excelente aptidão para a contabilidade e proverbial intuição para os negócios, sempre fez deles brilhantes colaboradores das empresas dos descobrimentos marítimos. Não eram por isso estranhos ao poder exercido pelo rei do Kongo, na captura da moeda zimbu, cuja vigilância estava especialmente entregue a padres inacianos e a um familiar próximo do monarca, cujo nome era Mwene Kabunga, a quem competia comandar as mulheres, que faziam a captura do mesmo zimbu, mergulhando nas águas da ilha durante a preia-mar, para procederem à captura do búzio conhecido cientificamente por “cauris” – a [Cipraea moneta][7].

Notas de Rodapé:

[1]Oliveira, José Carlos (2000) O Comerciante do Mato. Departamento de Antropologia. Universidade de Coimbra. Coimbra, p.60.

[2] Silveira, Luís, Um Missionário Português no Congo, nos fins do século XVIII, Ministério das Colónias, colecção Pelo Império, Agencia Geral das Colónias 1943, p. 13.

[3] Idem, pp. 24,25.

[4]Idem, p. 25

[5]Roçadas, José Augusto Alves (1908) O Sul de Angola. Conferência feita na Sociedade de Geographia de Lisboa. Imprensa Nacional. Lisboa, p.12

[6] Reportamos este assunto para o quarto capítulo.

[7] Sousa, L. Rebelo de (1967) Moedas de Angola. Banco de Angola. Luanda, p.16.

Via: http://estudoafricano.blogspot.ch/

 

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    OS BASUNDI: POVO DO KONGO CENTRAL E HERDEIROS DE UMA ANTIGA PROVÍNCIA DO REINO DO KONGO

    Por Kalunga Bisimbi 

    Hoje, gostaria de vos falar sobre um povo cuja história está diretamente ligada à organização política do antigo Reino do Kongo: os Basundi, por vezes chamados Ba-Nsundi.

    Origens e Importância Política

    O seu nome provém de Nsundi, uma antiga e importante província do Reino do Kongo. Esta província existia muito antes da colonização europeia e fazia parte da estrutura política do reino. Nessa organização, o território era dividido em várias províncias dirigidas por governadores ou representantes da autoridade real.

    A província de Nsundi ocupava um lugar estratégico. As fontes históricas explicam que era frequentemente governada por um membro da família real. Em certos casos, o governador de Nsundi podia até desempenhar um papel crucial na sucessão ao trono do Reino do Kongo. Isto demonstra que esta província estava longe de ser uma simples região periférica: fazia parte do coração político do reino.

    Geografia e Arqueologia

    A capital desta antiga província chamava-se Mbanza Nsundi. Situava-se no espaço que corresponde hoje à província do Kongo Central, na República Democrática do Congo, nomeadamente na zona próxima do rio Inkisi.

    Investigações arqueológicas realizadas nesta região permitiram encontrar vestígios de antigos centros políticos e túmulos pertencentes às elites locais, o que confirma a importância histórica desta província.

    Identidade e Território Atual

    Com o tempo e as transformações políticas do território, o nome Nsundi continuou vivo através das populações chamadas Basundi. Ainda hoje, várias comunidades do Kongo Central se reconhecem nesta identidade histórica. Encontramos os Basundi principalmente nos seguintes territórios:

    • Lukula e Tshela
    • Luozi e Songololo
    • Mbanza-Ngungu e Seke-Banza

    Em algumas zonas administrativas, o nome desta antiga província permaneceu presente na organização territorial, como, por exemplo, o setor Tsundi-Sud no território de Lukula.

    Cultura, Língua e Sociedade

    Como muitos povos Bakongo, os Basundi pertencem à grande família cultural Kongo. A língua mais difundida continua a ser o Kikongo, com várias variantes locais. Esta língua não é apenas um meio de comunicação, mas também um veículo fundamental de transmissão de tradições e da memória coletiva.

    A sociedade tradicional Basundi baseia-se num sistema matrilinear:

    1. Sucessão: O parentesco e os direitos passam pela linhagem materna.
    2. Clã (Mvila): Desempenha um papel essencial na organização de alianças e casamentos.
    3. Autoridade: Os chefes tradicionais e os anciãos são os guardiões da tradição e da palavra.

    “A nossa história não começa com a colonização. Ela existia muito antes. E a história dos Basundi faz plenamente parte dela.”

     

    O KISOLONGO É UMA VARIANTE DO KIKONGO

    O kisolongo é uma variante do Kikongo, há evidências baseadas em alguns estudos que passo a citar na minha abordagem abaixo.

    Começo por dizer que “kikongo puro não existe”, todas as formas e variedades oriundam no que os especialistas chamam por proto-kikongo, há estudos abaixo referenciados que esclarecem isso.

    Há momentos em que a emoção identitária é legítima. O problema começa quando ela tenta substituir a evidência científica. E aqui precisamos ser responsáveis.

    A questão é simples: o Kisolongo é uma língua independente ou uma variante do Kikongo? A resposta é simples, variante. E isso não é opinião.

    A linguística bantu moderna não reconhece “Kisolongo” como língua autónoma separada do complexo Kikongo. O que a investigação descreve é um “continuum dialectal”, isto é, um conjunto de variantes regionais estruturalmente aparentadas.

    O Kikongo não é uma língua única e homogénea. Ele é um grupo linguístico com dezenas de variedades históricas.

    Entre essas variedades aparecem formas como Kisolongo, Kisikongo, Kiyombe, Kizombo, entre outras.

    E “Kisolongo” corresponde justamente a uma dessas formas dialectais historicamente documentadas.

    Documento de referência que gostaria que muitos lessem é do conceituado investigador e linguista Sebastian Dom, Reflexive Morphology in the Kikongo Language Cluster (2024), tem tradução em português.

    O estudo de Sebastian Dom demonstra que o chamado “Kikongo language cluster” é composto por mais de 40 variedades geneticamente relacionadas. Essas variedades partilham morfologia nominal bantu, sistema de classes nominais, estrutura verbal e fonologia histórica comum.

    Quando uma variedade partilha:

    sistema de classes nominais idêntico

    morfologia verbal correspondente

    léxico de base cognato

    evolução fonética previsível dentro do grupo

    ela não é considerada língua isolada. É considerada variedade interna.

    O que diferencia uma língua de um dialecto, segundo a linguística histórica, não é orgulho regional. É estrutura, genealogia e comparação sistemática.

    E o Kisolongo encaixa-se estruturalmente no grupo Kikongo. (Sebastian Dom, 2024), em Reflexão morfológica da lingua Kikongo.

    Não estamos a falar de opinião. Estamos a falar de classificação genética de línguas.

    A própria tradição missionária já documentava o “dialecto Kisolongo” no início do século XX. Não como língua separada, mas como variante regional do “Congo”.

    Há uma obra clássica de José Lourenço Tavares intitulada Gramática da Língua do Congo (Dialecto Kisolongo), publicada em 1915. Repara no título: “Língua do Congo”, dialecto Kisolongo. Só este parágrafo resolve a inquietação, salvo um argumento melhor (fundamentado).

    Se fosse língua independente, a designação teria sido outra. Mesmo na época em que os missionários tinham liberdade para nomear línguas, o kisolongo não foi classificado como sistema separado. Falar de missionário é só um exemplo histórico.

    Deixo aqui mais uma referência em José Lourenço Tavares, Gramática da Língua do Congo (Dialecto Kisolongo) (1915),

    Em classificações académicas recentes sobre as línguas nacionais angolanas, incluindo dissertações defendidas na Universidade de Évora, o Kikongo aparece como grupo linguístico estruturado e reconhecido. Para não ser generalista, ai está de uma das dissertações, que tenho em pdf para quem precisar.

    O que não aparece?

    Kisolongo” como língua autónoma. E porquê?

    Porque ele é classificado como variante interna do grupo Kikongo.

    Se fosse língua independente, teria:

    código ISO próprio

    reconhecimento em bases como “Ethnologue ou Glottolog”

    descrição estrutural autónoma- classificação fora do cluster Kikongo

     

    Nada disso acontece. Ele surge sempre inserido no grupo Kikongo. Esse entendimento extrai-se da citada dissertação. Toda língua viva tem variação, meus caros. Mas variação não é ruptura genética.

    Dizer que o Kisolongo é uma língua completamente distinta implica provar que:

    não deriva do proto-Kikongo

    não partilha o sistema bantu de classes do grupo

    • não apresenta correspondência lexical sistemática

       

    Até hoje, nenhum estudo sério demonstrou isso. Quem o tiver, pode publicá-lo e vamos aprender. Mais uma vez, volto a citar o Sebastian Dom, 2024. Nas redes sociais há uma tendência perigosa: transformar identidade em argumento científico.

    Mas ciência não funciona por aclamação.

    Funciona por comparação linguística sistemática, reconstrução histórica e classificação genética. Não sou linguísta nem historiador, mas investigador, portanto, sei comparar fontes e produzir um entendido unificado.

    Portanto, se amanhã alguém provar, com método comparativo rigoroso, que o Kisolongo tem origem fora do cluster Kikongo, a ciência aceita. Mas até agora, as evidências apontam no sentido contrário.

    O Kisolongo é uma variedade interna do grupo Kikongo. Negar isso exige prova estrutural, não discurso emocional. Quem escreve para o público deve ter responsabilidade histórica.

    Nós não podemos deixar uma narrativa distorcida por falta de rigor. Identidade merece respeito. Mas história e linguística exigem método, como qualquer outra área científica.

    Algumas fotos de sites contendo artigos, dissertações e dicionários de estudos especificados do proto-kikongo.

    Fonte: PATER – Liberdade e Cultura/facebook

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