1 Dezembro, 2022

‘Pelo que fiz na música, se fosse militar seria general’ – Matadidi Mário

Por Dani Costa e Sebastiao Felix

 

Quem não se lembra do célebre agrupamento Inter-Palanca 80, constituído por músicos provenientes do então Zaíre, e do seu mentor e ‘show man’ Matadidi Mário? Quem não ouviu falar do homem que se dizia que escorregava do Kinaxixi até à Maria da Fonte? O autor de ‘volta camarada’, ‘café’, ‘povo a chorar’, Agostinho Neto’ e outros temas, que brilharam nos finais de década de 70 e nos anos 80, continua em forma e com vontade de regressar. Para ele, se fosse possível, gostaria de morrer em palco. Um novo disco está na forja para 2016

Como é vê a sua carreira no mundo da música?

Em primeiro lugar gostaria de agradecer. Vou começar por dizer também como me chamo: chamo-me Matadidi. Aqui tenho um disco em que me chamam Mário, mas o nome que o meu pai me deu, porque gosto de homenageá-lo apesar de já ser falecido, é Matadidi Mário. Porque depois vem o Mabele, depois Bwana Kitoko, Show Man. Mas o primeiro nome que o pai me deu é esse: Matadidi.

Quando é que começa a cantar?

Comecei em 1961, a cantar oficialmente na Orquestra O.D Jazz.

E quando se dá o surgimento da Orquestra Sosoliso?

Sosoliso foi minha criação. Creio que comecei numa Orquestra Kamile Ferruge, que tem uma canção que ainda continua a tocar nas rádios. Mas não foi de maneira oficial. Oficialmente foi no OD Jazz. Daí sai de Kinshasa e fui para Luabulu, hoje Kananga, Lubumbashi, Rodesie e voltei em 1968.

O que é que cantava?

Nós cantávamos tudo sobre a mulher e numa outra língua. Eu sou angolano de pai e mãe. O meu pai é de Mbanza Zombo e a minha mãe de Mbanza Sole, que é antes de chegar a Maquela do Zombo. E o meu pai depois de chegar a Maquela do Zombo. Depois é que se vai a Kibokolo e a outros sítios. Então, eu nasci no Congo. Hoje, como pessoas estamos a envelhecer pouco a pouco, depois vamos morrer sem excepção, e não vale a pena andar com a mentira.

Quais foram as influências que teve a nível da música?

A influência era de Kabassele Joseph. Eu gostava de lhe ver cantar e foi assim, embora os meus pais não quisessem que fosse cantor. Fugi de Kinshasa para Luabulu.

Fugiu para cantar?

Fugi porque os meus pais, principalmente vindos de Angola como refugiados, tinham outra maneira de ver as coisas. E hoje podemos dizer que se o meu filho quiser cantar, não vejo problema. Só vou-lhe dizer para seguir a música desde o princípio, isto é aprender a música. Eu queria fazer uma coisa ligada à música, mas o pai não quis. Ele queria só estudos e mais estudos. Quando chegou o momento para mim deixei os meus pais e fui para o Luabulu porque gostaria de cantar. Foi assim que me tornei cantor e quando regressei fiquei no Vévé, onde houve um problema. Daí fundei o trio Madjesi e a Orquestra Sosoliso.

Naquela época alguns cantores já faziam música de intervenção. Acontecia o mesmo consigo?

Não. Para já o Franco cantava música popular. Era um bom compositor e artista, mas eu não lhe conhecia. Eu não cantava músicas de intervenção, como cantei por exemplo ‘Volta, camarada’. Mesmo quando cantei em Kinshasa, no Congo, nunca o fiz em português nem em kikongo.

Qual era a língua em que cantava?

Cantava em lingala. Uma vez fiz uma canção em francês, a minha composição foi ‘La naissance de le O.D Jazz’, ou seja o nascimento de O.D Jazz. Como na altura foi a primeira canção, o chefe da orquesta, o tenor Beya, fez tudo também para meter o seu nome na minha canção. Então era tenor Beya com Matadidi, mas era minha canção. Como eu não sabia, porque não estava no sistema ainda, a música também não fez muito sucesso.

Como é que se dá o seu regresso a Angola?

Como lhe disse, eu sou angolano e estava ansioso para conhecer o país. Já tinha vindo a Angola, pela primeira vez, em 1975. Quando cantávamos no Sosoliso, estive na Rodésia pela primeira vez, e fui ver o Consulado de Portugal em Bulawayo. Disse-lhes que era angolano, não se podia dizer que era congolês de Kinshasa, porque se falava muito em Lumumba. Tinham medo das pessoas que vinham do Congo Democrático, por isso dizíamos que tínhamos vindo do Congo Brazzaville. Falei com o pessoal do consulado e apresentei-me como filho de Angola. Disseram-me que no fim do vosso contrato venham assistir para poderem cantar nos barcos. Então, quando chegou o fim do contrato na casa que tínhamos, veio a guerra de Iam Smith e então fugimos de Bulawayo para Ndola. Dali queríamos entrar na Tanzânia e chegar até Moçambique. Quando chegamos no Ndola, as autoridades congoleses que estavam na fronteira mandaram-nos voltar até Lubumbashi. Daí não conseguimos mais. Quando chegamos à Lubumbashi a orquestra acabou.

Estamos a falar de que orquestra?

Não é o O.D Jazz, porque acabou em 1962. E o Madjesi em 1972. Primeiro foi VV, depois o Madjesi. A seguir veio a suspensão de que não poderíamos mais cantar, porque fizemos uma viagem à República Centro Africana, do imperador Bokassa, e aí aconteceu uma coisa estranha. Quando voltamos a Kinshasa fomos suspensos, no ano em que o Trio Madjesi tinha um contrato com o Le Olímpia. O nosso manager passou na televisão para anunciar que o Trio Madjesi já tinha o contrato, assinado pelo Brioko Katrice, no Domingo, e na segunda-feira chegou a suspensão. Sem nos terem perguntado o que tinha havido naquela viagem. Na nossa língua diz-se que ‘você pai quando um filho te vem queixar, mesmo que tenha razão ou não, tens que ouvir também o outro’. Isso quer dizer que o chefe tem que sempre ouvir, porque a versão de um não vai ser a do outro. Ninguém nos ouviu e a sorte para mim foi a independência de Angola.

Regressou imediatamente para Angola?

Primeiro, regressei em 1975 e fui até Negage, no Úige. Aí ouvimos que em Luanda não estava muito bom, porque havia os três movimentos. Então, voltamos para Kinshasa e em 1976 regressei outra vez.

Com quem é que veio?

Vim sozinho, apenas com os meus familiares e não com os artistas. Mandei vir os artistas depois, como o Mogue, Diana, Teddy, Sassa, Domé, etc.

Que tipo de música encontrou?

Encontramos o semba, que estava aí, e depois veio o kilapanga.

Qual é o contributo que a Orquestra Inter-Palanca deu para a música angolana?

Eu não posso falar sobre isso. O artista não se pode gabar. Vocês como o jornalista têm o poder e o direito de dizer se este aqui é ou não bom. Esse fez aquilo e aquele não. O Inter-Palanca, para falar verdade e sem se gabar, dêmos um contributo muito grande.

Podemos dizer sem vergonha que a evolução de hoje veio do Inter-Palanca. Mas, hoje, as pessoas não falam, mas sabem disso. Não nos metem no primeiro plano.

Sente-se esquecido?

Um pouco. Vou dizer que estou um pouco esquecido. Porque a força e a imaginação que eu tinha na altura não é a de hoje. Houve muita coisa que fez com que perdêssemos aquela vontade. Porque quando se vem a um país que não se conhece, com outra experiência e encontra barreiras, as pessoas que estão contigo não entendem. Todos não são políticos e não sabem os jogos. Há coisas que você não pode falar e tem que guardar. A UNTA formou o 1º de Maio. Quem foram os músicos?

Foram os artistas de Matadidi, como o Teddy, Mogue, Sassa, Domé, Tabonta e outros do Inter-Palanca. Só tinha ficado no Inter-Palanca o Matadidi. Faltava apenas me chamarem! Era o que faltava.

Os músicos provenientes da actual República Democrática do Congo integraram-se facilmente?

Era Zaíre. No dia 30 de Junho foi a data que o Congo recebeu a sua independência. O nome era República Democrática do Congo. Quando crescemos o nome foi sempre Congo. Mdandaka era muito longe do Congo, cujo nome veio do Congo Dya Ntotela, que se estende de Angola até ao Gabão. Mobutu não se encontrava e como homem não tinha nada a ver com o Congo. O nome Zaíre também veio a partir de Angola. Tudo é Angola. Quando eramos pequenos ouvíamos que o Congo dia Ntotela era em Angola, no Mbanza Congo.

Os músicos que vieram do Congo conseguiram se impor em Angola?

Estive lá e posso dizer muita coisa. Às vezes se a pessoa não fala, não é no cemitério que vai fazer isso. O Inter-Palanca era eu. Podemos dizer que 90 por cento era eu e havia a contribuição dos outros, porque tínhamos bons elementos.

O que é que procurava transmitir com temas como ‘Povo a chorar’, ‘Agostinho Neto’ e ‘Produção Kima Kianhi’?

Quando o camarada Neto faleceu não sabia. Estava a caminho do Bié. Quando estávamos dentro do avião, o comandante dirigiu-se aos passageiros e disse que ‘o camarada Presidente já não está connosco’. Eu até queria voltar no mesmo voo, mas disseram-me que não podia e tinha de esperar um outro. Fui até ao Huambo apanhar o avião para regressar. No domingo, dia em que saio da Câmara Municipal para ir ao palácio, quando cheguei não havia passagem para o meu carro e fiquei na rua do Ministério da Defesa. Onde estiveram as mulheres que choravam e quando saio fui à casa e comecei a compor. É uma canção que não teve uma correção. Aquilo que estava a ver é o que saiu.

Houve uma alteração entre aquilo que cantava no Congo e o que começou a cantar em Angola?

No Congo cantava sobre as mulheres e mais nada. Quando cheguei a Angola vi que tinha que participar. Deixei toda a minha concepção de ontem para hoje. Comecei por cantar ‘Café’, que foi no Úige, quando Lukoki estava a governar. Fomos à uma campanha de café e aí a inspiração surgiu. Chegamos aqui e veio a inspiração do ‘Um minuto de silêncio’.

Falava da realidade social ou intervenção política?

Depois de ‘Café’ veio uma canção política, que lamentavelmente não foi cantada em português, o ‘Bakokossa ku bakossa’. O povo aceitou esta música que ‘é mentir por mentir’. Quando chegamos aqui estávamos a ouvir coisas e disse na música que o filho que nasce não anda no mesmo dia. E hoje estamos a andar. Por isso, lamento muito que as pessoas não entendam o significado. Posso dizer que muita gente entrou aqui por causa daquela minha música.

A música teve um grande feed back nos angolanos que estavam na diáspora?

Sim. Eu encontrava as pessoas e diziam-me: ‘estou aqui por causa de você’. Às vezes as coisas não andavam bem e eles diziam que eu é que lhes tinha chamado. Eu dizia que não era assim. Mas hoje estamos a ver que Angola está a andar e está de pé, mesmo com uma crise que estamos a atravessar. Angola está de pé. Os estrangeiros que não conheciam o país estão a vir e querem viver aqui.

Tinha uma forma como se apresentava no palco e uma dança própria. Brincava-se que escorregavas do Kinaxixi até à Maria da Fonte. Também ouviu estas coisas?

Matadidi MárioEu disse que quando entrei tinha uma força e uma vontade. Tinha vontade, imaginação, fazer com o Inter-Palanca 80 um ballet. Mas quando cheguei não conhecia o mercado. As pessoas pensavam que eu era vaidoso. Sou muito simples, mas quando estou no palco não gosto de ver pessoas. Tenho uma outra disciplina. E quando não estou fora do palco pensam que sou uma outra pessoa, mas não. Você me telefonou e hoje estamos aqui. Não tenho problema. Sou sempre assim. Mesmo quando cheguei no Congo, vinha do Lubumbashi, porque tínhamos um contrato verbal com o falecido Kibassa Maliban, ex-ministro, e o Paluku Demin, governador de Lubumbashi, que também já é falecido. Quando cheguei a Kinshasa, o Kibassa já não estava no ministério e muito mais tarde ele disse-me no lugar no canal do Kabassele Joseph que o ‘senhor ministro disse que não tem possibilidade de te ajudar agora’. Mas, na altura, já tinha passado mais de oito meses. O Paloku também disse a mesma coisa e não estava ver mais como voltar a Lubumbashi com a aparelhagem. A partir de Kibassa fui ver Franco. Ele não me conhecia. Quando cheguei à porta encontrei alguém e disse-lhe que queria falar com o Franco. Ele recebeu-me e disse-lhe que era cantor, que tinha vindo de Lubumbashi. Na altura tinha uma proibição do médico por causa do coração e não podia cantar. Disse-lhe que voltaria para o médico, caso autorizasse regressaria para cantar. Franco disse que não havia problema. Então, não sei se foi azar. Falei com Franco no sábado e no domingo o Kabassele, do Afrique Jazz, tinha um concerto de dia que se chamava matiné. Como era perto da nossa casa, disse que iria passar no Kabassele. Gostava muito de dançar, principalmente salsa. Quando tocasse não havia desculpas para ficar sentado. Dancei e no regresso para tomar a minha cadeira apareceu alguém que se chamava Belmondo. Disse-me que eu era o Mário e que era meu vizinho, porque ele vivia na rua do Doma, e era artista da orquestra de Vévé. Como estava sempre com vontade de ver o Franco, disse-lhe que não tinha ido para cantar. Para já, estou doente e vou voltar. Mais uma música salsa e fui outra vez dançar. No regresso, encontro as pessoas que estavam a minha espera: o Sinatra, Dalida e Belmondo. Falhei-lhe a mesma coisa, porque tinha só a vontade de cantar OK Jazz. O Vévé não me dizia nada. Era um conjunto assim, assim. Falei com o meu primo Makwika, que está hoje nos Estados Unidos da América. Disse-lhe que tinha um problema: no OK Jazz estou a solicitar e no Véve es­tão a me solicitar. Eles não têm tenor, mas no OK Jazz tem o Franco, Vicky, Boibanda e outros artistas. Para levan­tar vai ser difícil. Ele disse-me que não havia problema e foi assim que fiquei no Vévé. Era mesmo bom. Encontrei Sinatra, Sakul, Disken. Saímos do conjunto e formamos o Trio Madjesi.

O que é que o levou à França nos anos 80?

A minha família. Pensava que não podia mais perder a segunda família. Tudo que fazemos no mundo é bom, mas quando você não tem sucessor, o trabalho não vale. Você morre e tudo fica. Hoje estou aqui, tenho a minha filha e o meu filho, que vai viajar ama­nhã. Quando nasce o Laurent estive aqui e ele na Europa. Quando chego à França não era para fazer os anos que lá fiz. Era para pelo menos seis meses. Mas ele tinha problemas de documen­tação. Disse que iria esperar até que o papel saísse, mas na altura aquilo fazia anos.

Quando tempo depois conseguiu os documentos?

Fiquei mais de quatro anos sem papel na França. Mas tinha que ver onde eles iriam, não lhes podia deixar sozinhos. Eu gosto da minha família.

Deu para fazer música em França?

Sim.

Como é que era a sua vida lá? Havia muitos angolanos?

Na altura não havia. Mas hoje há muita música angolana nas festas, sobretudo kizomba e o kuduro. O problema que está aí é que o cabo-verdiano quer mostrar o kuduro como se fosse dele, embora o kuduro seja música angolana.

Como os angolanos não são muito conhecidos, Cabo-Verde está à frente e tira tudo em seu nome. Consegui gravar músicas. Não deu como devia dar porque vivíamos numa província, o Metz, longe de Paris e era muito difícil. Mas consegui porque em 2000 havia uma fotografia minha numa ex­posição das fotos do século eleitas por um jornalista. Ficou exposta durante um ano.

Qual foi a sua reação quando viu a fotografia?

Epá! Muitas vezes, as pessoas não me conheciam e os poucos que me conheciam falavam-me que a foto estava ali. Levei até uma vez o meu cunhado para ver a fotografia. Aquilo era muito grande, talvez cerca de quatro metros.

O que sentia quando estivesse diante da fotografia?

Muita emoção.

Qual é a sua apreciação sobre o FENACULT?

É uma boa coisa. Agora será de quatro em quatro anos. Em quatro anos para se repetir será difícil. Daqui só em 2018.

O que espera fazer ainda pela músi­ca, depois de ter lançado ‘Masiku­lu’?

Estou a preparar-me. Vou lançar sempre. Não há outra coisa a fazer, porque enquanto Deus nos der tem­po para viver vamos lançar. Tenho muitos projectos ligados à música, mas as nossas vidas estão um pouco difíceis. Há uns anos tinha muitos convites, hoje desapareceram. Para já, muita gente pensa que estou mor­to. Há outras que quando aparecem algumas coisas pensam que estou em França, enquanto que estou mesmo aqui. Como os jornalistas aqui têm aquela dificuldade de seguir a músi­ca, então… Você está na minha casa, mas só hoje é que chegaste. Já me conheces há muito tempo. Aqui está a diferença entre o jornalismo que se faz noutros países e o que se faz em Angola. Quando vivia em Kinshasa conhecia quase todos os jornalistas e eles conheciam a minha casa. Mas aqui não. É a mentalidade que está assim e têm que mudar. Nós os artis­tas temos muitas coisas para dar.

Acha que as tuas músicas têm sido pouco divulgadas?

A culpa pode não ser só deles, mas também minha. Mas são eles que têm a responsabilidade de difundir. A canção pode não ser boa, mas se a rádio ou a televisão passarem as pessoas vão gostar dela. Vão cobrir aquilo que não se conseguia. Mas quando a rádio e televisão não tocam ou apresentam, então você não vai saber de nada, nem o que a pessoa pensa.

O que mudou na sua carreira depois da homenagem que teve no programa Caldo do Poeira, da Rádio Nacional de Angola?

Aquele programa é muito bom e gostei bastante, apesar de ter sido numa semana muito difícil para mim. Uma semana antes tinha perdido o meu sobrinho Petit. É um sobrinho que gostava muito e tinha ficado com a minha casa da Maian­ga. Era ele que fazia quase tudo. O programa da rádio caiu na mesma semana. Fiz o meu papel, mas estou a falar do Petit porque era um sobrinho que me conhecia e parece que estava apenas a minha espera.

Alguns colegas seus como ‘Diana’ e outros já partiram. Outros reclamam apoios por parte da sociedade. Como é que acha que estão socialmente os músicos?

Para não culpar ninguém, a música é um trabalho liberal. Mas as coisas não estão abertas. Quando você está a dar, estão aí para te apoiarem. Mas quando esquivas um pouquito, entras no esquecimento. Em primeiro lugar, é preciso dizer que a música é um trabalho liberal, não depende de ninguém. Como você não tem tudo, não domina as coisas, depende dos outros. Mesmo na Europa você de­pende. Eu hoje estou nesta condição. Estou nesta condição e digo muito obrigado. É uma casa do Estado, mas hoje é minha.

Como é que estás socialmente?

Socialmente, estamos a viver, mas não é como artista. O trabalho que nós fizemos, principalmente eu, na altura não havia dinheiro. Nunca cheguei num sítio e dizer que tenho de pagar X. Nunca. Mandavam-me onde quisessem.

Quem é que o mandava?

Os pedidos vinham do partido e do comité. Mas estou reconhecido por aquilo que o partido também fez por mim.

O que é que o partido já fez por você?

Por exemplo, está casa aqui. Embora tivesse uma casa com um quintal grande no Palanca, mas a rua não é asfaltada. Não posso ser ingra­to. Digo-lhes sempre isto. Quando você não toca, não tem dinheiro. Eu gostaria que não me dessem dinhei­ro, mas sim trabalho. Ainda tenho força para fazer o meu trabalho. No dia que não tiver força, quem sabe… Tinha o Kussungila, que era pa­trimónio da Câmara Municipal, pagava os meus impostos, mas depois tiraram-me e me deram o Interdit. A possibilidade que tinha no Kussungila não havia no Interdit. Não houve comparação. Ali no Kussungila tinha a obrigação de cantar. Enquanto não recebia convite, estava no meu sítio. Hoje não tenho. Eu posso ainda cantar. Eu gostaria de cantar até envelhecer. Até no dia da minha morte, se possível morrer em palco, porque domino o palco. Quando comecei no palco, foi o Mano Dibangu que me deu.

Como assim?

O Mano Dibango estava a falar de James Brown. Foi na primeira viagem que fim com o VV. Depois da gravação, o Mano Dibango começou a contar como viu James Brown. Eu estava só a ouvir e quando voltei a Kinshasa coloquei tudo em prática.

Inspirou-se em James Brown?

Sim. Mas isso não aconteceu como agora em que podemos ver pela televisão. Foi através de uma pessoa que esteve a contar, que é o Mano Dibango. Eu estava só a ouvir, porque foi no ano em que o James Brown passou em Olím­pia Olím­pia. Foi em 1971, no mesmo ano em que fui à Bélgica pela primeira vez. Então, encontramo-nos com o Mano Dibango. Somos muitos. Haverá ainda outros.

Como é que vê a música feita pelos jovens?

Para já, fala-se de Angola, mas muitas vezes falta a originalidade. Penso que o problema está aqui. Às vezes, a melodia está boa, mas não tem conteúdo. Quando a melodia está boa, isso é bom para as pessoas que não entendem a língua. Agora, nas pessoas que entendem a língua e a melodia, quando o conteúdo não está bom, então não agrada. A melodia e o conteúdo têm de andar juntos. Muitas vezes temos músicas com boa melodia, mas o conteúdo é muito pobre.

Tem recebido alguns jovens?

Eu não vejo. Não vou mentir. Para já, eles sabem que estou morto. Uma vez veio um artista que interpretou o meu ‘Café’ e autorizei. É o único que vi.

Quem é?

É um jovem que veio de Portugal.

Quais são os jovens que são certe­zas da música angolana?

São muitos. Temos o Yuri da Cunha, Yola Semedo e Yola Araújo. Eu gosto muito dos clipes da Yola Araújo, já lhe falei isso uma vez.

Tem tido relações com outros músi­cos africanos e partilhar o palco com eles?

Eu conheço o Koffi e já estive num concerto dele. Fui numa festa que ele tinha organizado em Paris. Conheço também Papa Wemba. Mas em pal­co, tirando o Trio Majestic, não estive com eles.

Cruzou-se com Bonga na Europa?

Quando estive na Europa, Bonga esteve sempre em Portugal. Estive em algumas actuações dele no Metz, em França. Nos entendemos bem e não temos problemas. Comprei o seu disco quando vendeu no Cine Atlântico.

Gostaríamos de terminar esta entrevista com algo que gostaria de acrescentar. Está à-vontade.

Os artistas precisam de entrevistas porque são pessoas. Tudo que tem faz falta às pessoas. Mas, cada um tem o seu problema. Posso dizer que sou militar, porque o trabalho que fiz naquela altura, se fosse militar seria já general. Mas não fui militar, nem peguei em armas. Peguei arma da minha maneira. Lutei da minha maneira. Os sul-africanos vieram aqui, os racistas, entraram no Cunene e também participei. Mas, gostaria de dizer a quem me está a ouvir, eu quero ainda trabalhar. Os 14 anos que fiz na Europa gravei mais de cinco discos. É muito. Eu próprio financiei e estou a preparar mais. No próximo ano, se Deus quiser, não vai passar sem o meu disco. Mas preciso de ajuda e trabalho.

Mário Matadidi, a direita, o famoso trio MADJESI do Sosoliso, fizeram sucesso nos anos70 em Kinshasa. Imagem de arquivo
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