Enterramos Manuel Panzo

Por Sousa Jamba

Enterramos Manuel Panzo

 

A semana passada enterramos o senhor Manuel Panzo, natural de Maquela do Zombo, que faleceu em Tampa, Florida, aonde vivia há décadas. O senhor Panzo faleceu com 63 anos. Co-nheci-o cerca de treze anos atrás no funeral da minha cunhada. Como o meu falecido sogro, Jaime Kanga, o senhor Panzo pertenceu à FNLA. Houve um grupo de senhores da FNLA radicados cá no Sul dos Estados Unidos que tinham vindo para consolar a nossa família. A solidariedade deles tocou-me bastante na altura. Durante o óbito, naturalmente, o tema de discussão foi o futuro da nação Angolana: para aquele tios, a história Angolana parecia ter feito uma «pausa» em 1975.

Ultimamente, num jeito altamente louvável, a cônsul de Angola em Houston, a Doutora Júlia Machado, tem promovido encontros entre Angolanos. Infelizmente, no último encontro que tivemos em Orlando, Florida, o Senhor Panzo e os seus compatriotas Angolanos baseados na
cidade de Tampa não conseguiram estar connosco. Na semana passada, lá estávamos, na casa funerária, no meio de um cemitério muito bem tratado, com relvado, flores, árvores de carvalho com ramos cheio de musgo espanhol.

Na pequena sala aonde despediu-se finalmente do Senhor Panzo, o Pastor, um Jamaicano que não pára de citar poesia, fez um discurso muito comovente – sobre o aspecto tão transitório da vida cá na terra. A primogénita do falecido, a Aqua Panzo, senhora altamente sofisticada que trabalha na Comunicação Social em Dallas, Texas, agradeceu bastante ao público que lá estava presente. O Tio Pedro Romeo, antigo músico e operador da FNLA no Planalto Central, foi a frente e falou do tempo, em 1975, quando o então jovem Manuel Panzo, vindo de Kinkuzu, veio parar ao Planalto Central como parte das forças da FNLA. Houve, então, confrontos entre a FNLA e a UNITA e a FNLA recuou para o sul e, eventualmente, para a Namíbia. Ao ouvir que havia a COMIRA, uma organização que iria supostamente retomar a guerrilha no norte, o soldado do ELNA Manuel Panzo mais os seus colegas tentaram sair da Namíbia para o norte de Angola passando pela Zâmbia e o Zaíre. O grupo não conseguiu entrar na Zâmbia e acabou num campo de refugiados no Botswana e eventualmente passou a ser realojado nos Estados Unidos.

Ouvimos também do Senhor Masaka, amigo de infância do falecido Panzo. O senhor Masaka
praticamente deu-nos uma palestra sobre a história de Angola. Ele enfatizou que teriam ido para Kinkuzu no fim dos anos 60 porque já não podiam com o colonialismo. O senhor Masaka insistiu que tinham ido é para a UPA! Na Angola colonial, ele disse, as possibilidades das vidas dos nativos eram muito limitadas; os Angolanos só serviam é para mão-de-obra barata para os fazendeiros. O senhor Masaka referiu-se várias vezes às humilhações que as mães Africanas conheceram durante o colonialismo. O Pastor teve que parar o Senhor Masaka mas  eu tive a impressão de que os que  estavam lá estariam bem prontos a ouvirem mais sobre o passado deste Angolano. Vários dos seus  colegas Americanos renderam-lhe, também, homenagem, lembrando que tinha um senso de humor muito apurado.

O caixão do Senhor Manuel Panzo foi a enterrar e os seus netos ajudaram a pôr areia na cova.
A Aqua, a filha primogénita, estava de lado, um pouco distante da multidão. Ela disse-me que o seu falecido pai teria gostado muito de ser enterrado naquele local, rodeado de árvores e flores, porque o Manuel Panzo sempre adorou a natureza.

Soube, depois, que o Senhor Manuel Panzo casara com uma senhora do Botswana, com quem teve quatro filhos e veio com ela para os Estados Unidos em 1985. Uma vez nos Estados Unidos, o Manuel Panzo dedicou-se a trabalhar para sustentar a família e também para aumentar os seus estudos. Ele foi também muito religioso. A família viveu, primeiro, no estado nortenho de Minnesota, conhecido pela severidade dos seus invernos. Eventualmente, a família desceu para a Florida, muito provavelmente atraída pelo seu calor. O Senhor Manuel Panzo, segundo as filhas, foi um homem muito calmo, que não gosta-va de andar de carro; ele sempre teve uma bicicleta. Ele não podia, também, com a comida popular Americana; ele tinha que ter o seu funji, lombi, peixe seco etc. Sim, ele poderia estar longe de Angola mas fazia tudo para ter acesso àquilo que lhe fazia lembrar a sua terra natal. Uma das filhas disse-me que a sua paixão para as comidas Africanas estava a ser transmitida aos seus netos.

Como muitos Angolanos na diáspora, o Manuel Panzo sonhava um dia regressar para a terra-
-mãe, ir viver ao lado do seu irmão mais novo, Pedro. No funeral do Senhor Manuel Panzo falou-se muito da UPA, FNLA, COMIRA, Holden Roberto, Daniel Chipenda etc. O que achei estranho é que os jovens Angolanos, nascidos nos Estados Unidos que estavam naquele funeral, não faziam a mínima ideia de quem se tratava. Uma das filhas me disse que o falecido Panzo raramente falava do seu passado. Ela sabia que tinha havido guerra – mas o pai nunca lhe deu os detalhes. Vi que vários filhos dos Angolanos em Tampa foram pedir os números do Tio Pedro e Senhor Masaka porque queriam saber mais sobre a história Angolana.

Depois do enterro, permanecemos ainda no cemitério. Os amigos em vários grupos mantinham conversas animadas. Tenho várias imagens dos militares da FNLA no Huambo em 1975. Alguns deles conduziam jipes em alta velocidade com antenas de rádios de
transmissão por cima. Depois dos confrontos no Huambo, aonde a UNITA venceu, tenho a imagem na mente de militares da FNLA no Menongue (então Serpa Pinto) sem armas, fardados, ao lado de fogueiras, tentando cozinhar qualquer coisa. Não durou muito porque nós também estávamos nas matas nas áreas de Mavinga aonde encontravam-se os acampamentos dos militares da FNLA. Ai já não havia confrontos; os nossos mais velhos tinham todos perdido e a questão agora era de sobrevivência. Tínhamos todos que competir com os elefantes e leões para os poucos poços de água que existiam. Muitos militares da FNLA preferiram ir mais a sul, para a Namíbia.

A história de Angola tem várias correntes. Isto é a razão que faz com que ela seja tão complexa e interessante. Uma vez ouvi um hitoriador a dizer que a história é como o famoso rio Ganges na India – tem muitos afluentes. Nas matas do sudeste de Angola, há rios com muitos afluentes. No tempo chuvoso há, até, chanas que se transformam em pequenos lagos. A nossa história é também assim. Cada narrativa vale. Espero que os netos Americanos do falecido Panzo possam, uma dia, vir para Angola e entender os vários factores que fizeram que o avô que insistia que todos comessem funji fosse parar aos Estados Unidos.

 

Via SA

 

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