Adiamento do congresso da FNLA, Lucas Ngonda «entre a espada e a parede»

Por David Filipe

A crise interna desta histórica força política, com início em finais de 1999, continua. O presidente Lucas Ngonda alega que o partido não tem dinheiro para a realização do congresso, quando faltam sete mesespara as eleições gerais.

A decisão do líder da FNLA, Lucas Ngonda, de atribuir competências ao Comité Central para ratificar as listas dos candidatos do partido, bem como definir a estratégia com vista às eleições gerais previstas para este ano, está a gerar polémica no seio deste partido histórico.

Lucas Ngonda, segundo apurou o Novo Jornal, criou embaraços a milhares de simpatizantes, militantes e membros do partido, ao afirmar que, por decisão do Bureau Político, o congresso extraordinário não seria realizado, usando o argumento de que caberia ao Comité Central resolver tudo.

O presidente da FNLA, que recebe verbas do fundo do Estado, resultantes da representação que tem na Assembleia Nacional, alega falta de dinheiro para realizar o congresso.

Ngonda diz que, devido à actual crise económica, o partido não reúne condições logísticas para realizar conferências provinciais e levar os delegados a Luanda.

“Está provado que Lucas Ngonda não goza de popularidade”, disse Ndonda Nzinga, que liderou a comissão eleitoral do congresso passado da FNLA. Segundo o político, “Lucas Ngonda atravessa momentos dramáticos, mesmo com a ajuda do Tribunal Constitucional”.

“Quem manda são os militantes. Até quando é que o Tribunal Constitucional vai auxiliar um homem rejeitado na organização?”, interrogou Ndonda.

O ex-líder Ngola Kabango, em todas as suas declarações, não cessa de afirmar que a FNLA é um partido histórico e não está a venda. “Vamos continuar a trabalhar. A FNLA não pode ser manipulada por quem quer que seja. É um projecto que custou sangue a milhares de angolanos”, sustenta Kabango.

O ex-líder da FNLA reconhece que o partido está a atravessar a sua pior fase de sempre, citando, como exempro, os resultados das eleições de 31 de Agosto de 2012, altura em que apenas conseguiu manter dois lugares dos três que possuía na Assembleia Nacional. “Até dizem que esses dois deputados lhe foram cedidos e que, se não fosse assim, o partido corria o risco de ser extinto”, disse.

Para o antigo combatente da FNLA Domingos Kongo, a decisão de Lucas Ngonda “é um autêntico certificado de incompetência”.

“Ngonda não tem competência para impedir a realização do congresso e é uma vergonha ouvir declarações dessa natureza”, acusou. Segundo alguns analistas, Lucas Ngonda, com essa posição, acaboupor revelar a sua falta de popularidade e as outras franjas tudo farão para que o congresso tenha lugar ainda este ano.

“É uma obrigação do Tribunal Constitucional que os partidos políticos realizem congressos antes das eleições e como é que Lucas Ngonda se esquiva deste elemento fundamental?”, questionou o professor universitário Armindo Kassuana.

Miguel Pinto, um dos responsáveis influentes da FNLA, disse também à VOA que o actual líder não tem competências para tomar decisões que apenas cabem ao congresso.

João Castro, outro membro influente da FNLA, reitera a posição dos companheiros, salientando que “ocongresso é o caminho ideal para revitalizar o partido”.

“No congresso, as pessoas vão apresentar as suas candidaturas. Quem vencer, dirige o partido. O importante é que a organização não fique fraca”, aconselhou, frisando que Lucas Ngonda está entre a espada e a parede.

A crise interna desta histórica força política teve início em finais de 1999, quando a facção liderada por Lucas Ngonda realizou um congresso que nunca foi reconhecido pela ala do fale- cido Holden Roberto.

O acordo previa a realização de um congresso em 10 meses, prazo que não foi cumprido por Holden Roberto, alegando falta de condições financeiras, o que levou a uma nova divisão interna, que ainda hoje se mantém.

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    É precisamente por isso que o silêncio em torno da FNLA, herdeira directa da UPA, tem qualquer coisa de excessivamente útil para ser inocente. Não se trata de simples esquecimento, nem de uma modesta economia pedagógica. Trata-se, antes, de uma operação mais funda e politicamente mais rentável, pela qual uma parte decisiva da história de Angola foi sendo empurrada para a margem, depois para a penumbra, e por fim quase para a inexistência. Ora, a FNLA não foi um acidente periférico da libertação angolana, nem um episódio menor que a marcha ulterior dos vencedores pudesse legitimamente reduzir a nota de rodapé. Em meados da década de 1960, FNLA, MPLA e UNITA eram reconhecidos como os três movimentos principais na disputa da liderança nacional; e foram precisamente esses três que surgiram inscritos no processo de transição consagrado em Alvor. O rebaixamento retrospectivo da FNLA não nasceu dos factos. Nasceu, isso sim, da vitória posterior de uma narrativa de Estado, mediante a qual um poder triunfante converte a contingência da sua ascensão em necessidade histórica e a vantagem militar em superioridade moral.

    A caricatura mais repetida sustenta que a FNLA não passou de uma expressão bakongo, étnica e circunscrita. É evidente que a espinha dorsal do movimento se encontrava no Norte e nas comunidades exiladas do Congo. Mas reconhecer esse dado não equivale a desqualificar o movimento; identificar uma origem não é o mesmo que decretar um cativeiro. A UPA nasceu nesse espaço porque ali existia uma base social efectiva, uma memória política anterior ao traçado colonial e uma experiência concreta de mutilação territorial. O antigo Reino do Kongo precedera as fronteiras coloniais. Numerosas famílias bakongo viviam a linha Angola-Congo não como verdade histórica, mas como corte administrativo imposto de fora. E a repressão portuguesa tornava quase impossível qualquer forma de organização legal dentro de Angola, empurrando activistas para o exílio, onde podiam recrutar, treinar, imprimir propaganda e estabelecer contactos. Nada disto diminui a legitimidade da UPA. Pelo contrário: inscreve-a num padrão mais vasto da história africana do século XX, no qual diversos movimentos de libertação se organizaram fora do território colonialmente dominado. Uma raiz não é uma prisão.

    A transformação da UPA em FNLA constituiu, justamente, o esforço deliberado de conferir ao movimento uma moldura mais ampla, mais articulada e mais nacional. Sob Holden Roberto, a causa angolana adquiriu contactos, voz diplomática, presença em fóruns internacionais e uma estrutura política que lhe deu contorno, consistência e duração. Em 1962, a criação do GRAE, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio, representou um passo decisivo: pela primeira vez, uma estrutura angolana apresentava-se não apenas como movimento de resistência, mas como autoridade que reivindicava representar Angola perante o exterior. Estados africanos e a Organização da Unidade Africana reconheceram essa estrutura e trataram-na como interlocutora legítima da causa angolana. Não se concede semelhante estatuto ao que é irrelevante. Não se reconhece, com tal solenidade, aquilo que não pesa.

    A FNLA construiu igualmente uma máquina política e militar real. Nos campos de treino próximos de Kinshasa, milhares de combatentes foram preparados para a guerra de guerrilha; a ELNA não era uma ficção musculada para consumo externo, nem uma cenografia ideológica erguida para iludir observadores estrangeiros. O movimento organizou, além disso, assistência a refugiados e programas médicos destinados aos deslocados. E, apesar da sua forte implantação bakongo, a FNLA não foi um corpo etnicamente selado. Entre os nomes ligados ao governo no exílio figuram José Lihauca, médico na área da Saúde, e Dr Jonas Malheiro Savimbi, que desempenhou funções relevantes na representação externa antes da ruptura que o afastaria de Holden Roberto. A composição do movimento era, portanto, mais larga do que a caricatura permitiu admitir, e mais complexa do que a simplificação escolar se mostrou disposta a tolerar.

    Digo tudo isto também a partir de uma memória pessoal, que não substitui a história, mas por vezes a ilumina. O meu pai, Tavares Hungulu Jamba, pertenceu à UPA, tendo sido recrutado por quadros enviados do Norte para o Planalto Central, concretamente para a Missão do Dondi. A minha irmã, Altina Flora Jamba, foi membro sénior da Ala Juvenil da FNLA no Planalto Central. Lembro-me dos homens vindos do Norte, sentados em nossa casa, entregues a conversas longas, densas e tensas, como se cada frase transportasse, ao mesmo tempo, um segredo e um risco. Vários familiares próximos, depois do exílio de 1961, acabaram integrados na UPA. A FNLA teve braços, fidelidades e circuitos humanos muito para além da caricatura escolar. Passou por casas, atravessou geografias, tocou famílias, deixou marcas. Não foi, para muitos angolanos, uma abstração; foi uma presença.

    A caricatura persistiu porque era útil. A verdade complicava em excesso a liturgia dos vencedores. Implicaria reconhecer que a UNITA emergiu, em parte, do mesmo tronco histórico; que figuras posteriormente denunciadas como traidores haviam sido, em certo momento, jovens angolanos movidos por impulsos nacionalistas inteligíveis; que atravessaram fronteiras não por venalidade, mas porque queriam juntar-se à luta. A história real raramente oferece a pureza moral com que os regimes sonham educar os seus catecismos. É sempre mais ambígua, mais desconfortável, mais resistente à pedagogia do poder. A FNLA não precisa de hagiografia. Precisa, simplesmente, de lugar histórico. Negar-lhe esse lugar não é fazer história; é administrar o esquecimento como se ele fosse património privativo de um partido, prolongando, em tempo de independência, a mesma lógica de mutilação selectiva que o colonialismo exercia sobre os corpos, agora exercida sobre a memória.

    Angola merecia melhor. Merecia que o 15 de Março pudesse ser pronunciado sem catecismos nem reflexos condicionados; que a UPA fosse reconhecida como a faísca que incendiou o Norte e obrigou o império a despertar da sua arrogância; e que a FNLA regressasse ao lugar que lhe cabe, não o de remorso incómodo da historiografia oficial, mas o de um dos actores centrais da libertação, com grandezas e misérias, como todos os outros. Um país que consente semelhante fraude contra a sua própria memória empobrece o seu futuro, porque ensina os vivos a venerar, não a verdade, mas a versão autorizada dela.

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