De vendedora de carvão a directora de enfermagem

Por Alexa Sonhi

O amor ao próximo e o desejo de contribuir para a melhoria da saúde das pessoas, fizeram Isabel Paulo olhar para a profissão de enfermeira de forma diferente. Sem pestanejar, decidiu trocar a formação média em Agronomia, feita no Instituto Médio Agrário do Uíge, sua terra natal, pela enfermagem.

Com essa decisão, Isabel Paulo deixava para trás o sonho de ser técnica superior de Agronomia e abraçava um novo desafio: ser enfermeira, em Luanda. Mas, concretizar esse objectivo não seria nada fácil para ela. Sem recursos financeiros, aos 23 anos, Isabel teve de vender carvão, bombó, jinguba e peixe fresco à porta de casa para custear os estudos.

Como sabia o que queria para o resto da vida, Isabel Paulo manteve o foco. Com determinação, em 1997, ingressou no colégio “Alvorecer com Saúde”, onde concluiu, em 2000, o curso de Enfermagem.

Dois anos depois de ter concluído a formação, ou seja, em 2003, participa num concurso público realizado pelo Hospital Américo Boavida, em que foi seleccionada com 17 valores. “Nesta unidade de saúde, de nível terciário, fiz toda a minha carreira, antes de chegar à directora dos Serviços de Enfermagem do Hospital do Prenda, mas em comissão de serviço”, esclarece.

Depois de enquadrada, Isabel Paulo não se contentou apenas com a formação média. Almejando por mais conhecimento, um ano depois de começar a trabalhar no Hospital Américo Boavida ingressava no Instituto Superior de Ciências de Saúde (ISCISA), que até 2010 se denominava Instituto Superior de Enfermagem (ISE).

Em quatro anos, concluiu a formação superior em Enfermagem. Como o conhecimento não ocupa lugar, em 2008 Isabel Paulo decidiu ingressar na Escola Superior da Cruz Vermelha Portuguesa, onde se especializou em Cuidados Intensivos e Emergência.

O convite do Hospital do Prenda

A dedicação e disciplina são qualidades que sempre fizeram de Isabel Paulo uma boa profissional de enfermagem. Como resultado desse empenho, conta, a administração do Hospital Américo Boavida nomeou-a como responsável dos Serviços de Triagem, cargo que exerceu durante muitos anos, antes de ascender à categoria de directora da Área de Enfermagem da referida unidade hospitalar.

Sempre aberta a abraçar novos desafios, Isabel foi nomeada, há três anos, para  exercer a mesma função no Hospital do Prenda. Conta que essa passagem, de uma unidade hospitalar para outra, foi resultado do “bom trabalho, principalmente, a nível organizacional, na Área de Enfermagem”.

Prestes a completar 50 anos em Outubro, Isabel Paulo faz o mestrado em Gestão Hospitalar na Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto.

Assegura que, independentemente de viver num mundo machista, nunca teve problemas em delegar tarefas aos homens e nunca foi desobedecida pelo simples facto de ser mulher.

Porque, antes de mandar um técnico fazer alguma coisa, primeiro ensino como se faz, faço-lhe entender o nosso papel no hospital e a importância de trabalharmos em equipa para o bem do utente”, sublinha. Segundo a enfermeira, com essa postura profissional, sente que “os colegas não me encaram como uma chefe, mas como uma verdadeira líder que está no hospital para organizar a área e manter um clima ameno entre os profissionais”.

Garante ter uma excelente relação com a direcção do Hospital do Prenda e nota que, fruto do desempenho das mulheres em cargos de chefia, a própria instituição as vê “com outros olhos”.

Problemas no casamento

A enfermeira revela não ter sido fácil atingir o patamar em que  chegou. Determinada em fazer carreira no mundo da enfermagem, Isabel Paulo viveu problemas no casamento. O parceiro, conta, negava-se a aceitar, e muitos menos a entender, a profissão que obrigava a esposa a passar muito tempo no hospital.

Apesar de 20 anos de convivência, o meu marido, na altura, não entendia a minha profissão. Queria-me em casa todos os dias, a cuidar dele e dos filhos, mesmo deixando o lar sempre bem organizado”, recorda.

Segundo Isabel Paulo, as brigas entre o casal eram tantas, que acabaram por afectar o seu desempenho profissional. Com diferenças irreconciliáveis, o casamento não resistiu. “Acabamos por nos separar”, conta.

Com a separação, Isabel decidiu dedicar-se apenas aos filhos, à profissão e formação, mas não estava condenada a acabar sozinha. A enfermeira voltou a apaixonar-se e  conta que o actual parceiro entende e respeita a profissão que escolheu como forma de vida.

Quando olha para trás, Isabel Paulo diz ter orgulho do seu percurso de vida e aconselha as demais mulheres a manterem-se firmes nos seus ideais, porque, tal como os homens, elas, com ou sem filhos, devem estudar e trabalhar para a independência intelectual e financeira. “Só assim vamos diminuir os níveis de violência doméstica e, acima de tudo, vamos contribuir para o desenvolvimento do país”, conclui.

Vida familiar

Isabel conta que tem uma vida profissional “bastante agitada”. A profissão que exerce envolve passar horas a fio fora de casa em trabalho. Apesar disso, diz ter tempo para cuidar do esposo e dos cinco filhos (o caçula tem 15 anos).

Saio de casa cedo e regresso depois das 22 horas. Então, é neste período que organizo as coisas do lar, converso com os meus filhos, oriento-os para no dia seguinte fazerem bem as coisas com a ajuda da trabalhadora doméstica”, explica.

O esposo é mais exigente. Isabel Paulo conta que o cônjuge prefere que seja ela a cuidar da roupa e das refeições dele, pois se nega a comer o que é feito pela trabalhadora doméstica.

Durante a formação e nos dias em que “fizesse noite”, Isabel Paulo contava sempre com a ajuda da mãe e das irmãs para cuidar dos cinco filhos. “É sempre bom ter a ajuda da família nessa altura, para podermos desempenhar bem as nossas funções profissionais”, reconhece.

Lembra que, muitas vezes, se via obrigada a dar um salto a casa para amamentar os filhos e depois voltar ao hospital para cumprir o turno de trabalho. “Foi assim até eles crescerem”, diz.

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