FILÓSOFO E HISTORIADOR CONGOLÊS: Morte de Ernest Wamba dia Wamba: África perde activista pró-democracia

Por Gaspar Micolo

África está em choque e a comunidade académica inconsolável. A Covid-19 levou mais uma das suas importantes “bibliotecas vivas”. O historiador e filósofo congolês Ernest Wamba dia Wamba faleceu, deixando para trás um brilhante trabalho teórico sobre democracia, movimentos sociais e política emancipadora em África. Tendo ensinando em muitas instituições, como a Universidade de Harvard, a Boston College e a Brandeis University, procurou traduzir vários textos sobre o Antigo Egipto, para a língua kikongo.

O proeminente académico congolês Ernest Wamba dia Wamba morreu, no passado dia 15 de Julho, encerrando assim a era de um dos principais activistas pró-democracia de África. O historiador e filósofo estava internado
há dez dias num dos hospitais universitários de Kinshasa, unidades sanitárias empenhadas no tratamento da Covid-19 na capital da República Democrática do Congo.

Com os seus 78 anos, Ernest Wamba dia Wamba, nascido em Sundi-Lutete, no Baixo Congo, durante o brutal domínio colonial belga, afirmou-se como um dos maiores historiadores, realizando trabalhos sobre as lutas no continente para estabelecer a democracia africana.

Wamb a dia Wamb a começa a destacar-se muito cedo. Quando o seu país conquista a independência, em 1960, tinha 18 anos e era já um activista anticolonial consciente. No final do seu ensino médio, nas escolas missionárias suecas, recebeuma bolsa de estudos para os Estados Unidos da América (EUA), na Western Michigan University. Obteveum diploma de bacharel em economia e filosofia, em cuja dissertação honrou os filósofos Maurice Merleau-Pontye Jean-Paul Sartre. Passou igualmente pela Claremont Colleges, neste período de estudante nos EUA, envolve- se activamente no movimento dos direitos civis.

Casou-se com uma afro-americana. Olhando para a necessidade de empreender uma luta das massas africanas, o já destacado historiador, filósofo e político começa, em 1980, a leccionar na Universidade Dar Es Salaam (Tanzânia), onde fundou um centro de estudos sociais. O historiador tanzaniano Frank Edward, lamentando  a partida do colega, revelou, no Twitter, que Wamba dia Wamba estava a realizar pesquisas para um novo livro.

“Ele foi um dos gigantes de primeira geração do Departamento de História da Universidade de Dar es Salaam”, notou.Brilhante teórico político, conhecido pelo seu trabalho revolucionário sobre democracia, movimentos sociaise política emancipadora em África, Wamba dia Wamba destacou-se igualmente a ensinar em muitas instituições fora de África, como a Universidade de Harvard, a Boston College e a Brandeis University.

“A sua obra editada com Mahmood Mandani e publicada em 1985, ‘African Studis in Social Movements and  Democray’ continua a ser um clássico”, refere, em nota, o Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais na África (CODESRIA), do qual Wamba dia Wamba foi um membro influente e presidente, de 1992 a 1995.

“Vamos sentir muita saudade do seu conhecimento, muitas vezes escondido pela sua notável modéstia”.

“Académico gentil e corajoso”

Enquanto líderes revolucionários como Amílcar Cabral lutavam pela libertação de África do domínio colonial, líderes como Wamba dia Wamba continuaram a lutar após a independência contra as garras do capitalismo e do
imperialismo. Dedicando-se incansavelmente a expor as contradições do capitalismo no continente, a influência e
reputação do historiador e filósofo continuaram a crescer, na década de 80, em todo o continente, em particular no
seio dos académicos.

Por isso mesmo, destacados cientistas espalhados em várias partes do mundo expressaram, nas redes sociais, choque com a notícia da morte do pana-fricanista extraordinariamente corajoso e gentil, que nunca ignorou as capacidades políticas dos oprimidos nem a ideia da emancipação.

“O grande Ernest Wamba dia Wamba deixou-nos. Ele foi um dos intelectuais mais profundos e humildes com quem tive o privilégio de aprender. A sua influência no meu trabalho foi imensurável”, refere o cientista político Zacharia Mampilly, autor de uma vasta obra sobre democracia em África.

Descrito por muitos como um pilar da Ciência Social africana e um professor incrivelmente generoso e compassivo, Wamba dia Wamba marcou Asad Haider, professor de Filosofia e editor na Universidade da Pensilvânia, que qualifica o seu trabalho como “uma contribuição de vital importância para a teoria da políticaemancipatória além dos quadros eurocêntricos” e lamenta  que a obra do “grande filósofo congolês não esteja amplamente divulgado em inglês”.

Já o professor assistente de história da CUNY (Cidade Uni- versitária de Nova Iorque), Nick Githuk, lamentou a perda dos nossos grandes gigantes intelectuais a um ritmo alarmante.

“Primeiro , Thandik a Mkandawire e agora Wamba dia Wamba. Estamos a perder o conhecimento e a experiência sobre África, mas, esperançosamente, o seu legado, os seus alunos preservarão e celebrarão todas as suas contribuições”.

“Um dos meus heróis”, escre- veu Isaac Paxe, professor e investigador do Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), na sua página do Facebook, partilhando uma imagem do académico congolês.

“Era o melhor historiador que se podia encontrar; tinhauma análise fina, profunda e um lugar de destaque na teoria revolucionária”, diz o também historiador e analista político queniano Godwin Murunga, igualmente investigador do CODESRIA.

“ W a m b a e r a u m b o m amigo do Nordic Africa Institute e participou de muitos dos nossos projectos para colocar a pesquisa africana no topo da agenda internacional da investigação”, diz o economista e cientista social
sueco Lennart Wohlgemuth, que chegou a ser professor de Estudos Africanos numa universidade do seu país.

O lado controverso do proeminente cientista

Ao mesmo tempo que se destaca como um dedicado académico, Wamba envolve-se cada vez mais na vida política. Em 1981, um ano depois de abraçar o cargo de professor de História na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, e enquanto visitava a vila dos seus pais, foi preso pelo Governo de Mobutu Sese-Seko, por causa de um artigo considerado “sub-versivo”. Ficou detido por um ano. Retornou à docência depois de recuperar a liberdade.
É na década de 1990 que empreende uma actividade política activa. Um primeiro passo foi dado em 1990-1992, quando participa da Conferência Nacional Soberana, ao lado da oposição. Wamba dia Wamba não é o único académico a envolver-se nessa luta, mas, para muitos, ele é um modelo, um ancião e um líder.

Anos depois, o RCD, um movimento que dizia pretender a democracia, foi decisivo para o reacender da guerra no país, em oposição ao Governo de Laurent-Désiré Kabila. No início, o RCD foi liderado por Wamba dia Wamba, que o viria abandonar em 1999. Numa entrevista à jornalista María Torrellas, quando se encontrava na Zâmbia, durante um congresso panafricanista, o político congolês explicou a divisão no seu movimento.

“Fiquei atraído por essa rebelião e acabei por ser eleito líder. Depois, em pouco tempo, percebemos que, de facto, havia duas tendências na rebelião. Uma tendência pode ser chamada “militarista”, essas são as pessoas que dizem que devemos ir e os militares assumem o controlo, primeiro, e depois examinamos se teríamos uma  democracia. E havia uma tendência de dizer que, mesmo na rebelião, devemos ser eleitos pelo povo de maneira democrática, para que a rebelião não seja apenas militarista, mas também a base do povo para se rebelar. Essa foi a minha tendência. Dividimo-nos em dois. A minha tendência continuou e a outra também, até que em algum momento tivemos confrontos.

Uma guerra entre os dois guerrilheiros. Mas foi uma guerra mais ou menos provocada pelos aliados dos diferentes campos. E esses aliados estavam a lutar pelo controlo do monopólio do diamante. O grupo militarista queria o monopólio da mineração de diamantes”, explicou Wamba.

Depois do conflito, Wamba tornou-se membro proeminente do novo Governo, chegando anos depois a senador. E olhando criticamente para o passado, diz à jornalista: “A única rebelião que provavelmente pode ser bem-sucedida deve ser estritamente aquela rebelião baseada no povo, sem intervenção militar ou aliada. Porque, por exemplo, eles apoiam e descobre-se que, na verdade, eles estavam interessados apenas nos recursos”.

Revelar o Egipto antigo na língua kikongo

Destacando-se nas décadas de 1970-1980, com estudos sobre questões de Filosofia Africana, trabalhos em que
revela, segundo os seus pares, uma profunda honestidade intelectual, Wamba dia Wamba, a exemplo de grande parte dos académicos africanos, como os historiadores Cheikh Anta Diop ou Théophile Obenga, dá a conhecer e explora os textos do Antigo Egipto.

O filósofo e egiptólogo costa-marfinense Yoporeka Somet, cuja tese de doutoramento foi sobre o Egipto Antigo, explica ao Jornal de Angola que o congolês foi um amigo com quem teve o prazer de trabalhar nos últimos anos. “O professor Wamba dia Wamba contribuiu para o projecto de tornar acessíveis textos da literatura do Kemet (Antigo Egipto) na língua kikongo”.

No rol dos textos traduzidos, destacam-se “Ndaba ya Sanhat, mkulu ya Kemet” (A história de Sanhat, um dignitário de Kemet), “Nsamu wa mvati” (O conto do camponês), “Za nkunga’a nzola yilutidi” (Grande Amor) e “Nkotolo mu malongi Ptahhotep” (Os Ensinamentos de Ptahhotep). Os referidos trabalhos vertidos na língua kikongo foram publicados pela ANKH, revista de egiptologia e das civilizações africanas, e ainda se encontram disponíveis hoje.

“Num plano estritamente pessoal, beneficiei, durante a redacção da minha tese em Egiptologia, de conselhos avisados da sua parte. Ele autorizou-me a citar, no meu trabalho, uma das suas obras ainda não publicadas cujo
título em kikongo é ‘Malongi mu Matadidi Lusansu”, explicou o historiador. “Não duvido que, ao lado do grande Deus Osíris, ele continue a nos gratificar com coisas positivas”.

Se os mais velhos que desaparecem são como bibliotecas a queimar, Wamba deixa, ainda assim, vestígios nos quais se deve continuar a procurar o renascimento africano. Aliás, uma das reco- mendações do Colóquio de Cairo, promovido em 1974, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em que o egiptólogo senegalês Cheikh Anta Diop (1923-1986) apresentou o trabalho sobre a origem dos antigos egípcios
e defendeu as teses do povoamento negro do Egipto Antigo e do carácter africano da civilização egípcia, que seria o berço da cultura africana, destruindo assim vários mitos e falsificações da História do continente.

“Um professor nãomorre jamais. Ele descansa e deixa as suas ideias a desafiar o tempo”, revela o jovem estudante congolês Issoufou Zongo.

Via J.A

 

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