HONREMOS A MEMÓRIA DA I.E.B.A

Meus irmãos,

Esse é meu Ponto de Vista e Opinião pessoal

No dia 8 de Novembro 2015 do presente ano, assisti ao culto ecuménico em celebração dos quarenta anos da nossa independência. Nesse acto me apercebi de pouca presença e quase que inexpressiva dos membros da Igreja Evangélica Baptista de Angola (IEBA). Fiz a mim mesmo várias perguntas mas não obtive resposta. Me apercebi que nesse dia, todas as igrejas tinham marcado encontro no Estádio 11 de novembro. O culto decorreu da melhor maneira; além dos cânticos e de animação do Guy Destino e Irmã Sofia, ambos filhos germinados na IEBA, os nacionalistas angolanos que se fizeram presentes neste acto testemunharam com a sua presença o carinho e reconhecimento que tem para com a Igreja Protestante devido a sua participação activa na luta de Libertação nacional.

A pregação esteve a cargo do Veterano Metodista Bispo Emílio de Carvalho. Isto constituiu um orgulho para muitos de nós termos ainda Graças a Deus, esse Bispo em vida. Emílio de Carvalho nasceu em Malanje, em Agosto de 1933. Tem hoje 82 anos. O Bispo Emílio de Carvalho foi durante 28 anos, o Primeiro bispo da Igreja Metodista em Angola. Em 1961, aquando do início da luta pela independência, foi perseguido e preso pelas autoridades coloniais que viam na sua actividade religiosa um atentado à soberania portuguesa. Na companhia de outros nacionalistas, foi considerado preso político e submetido a fortes torturas e humilhações; muitos de nós somos produtos de Catequistas e evangélicos como Emílio de carvalho.

Depois da revolta do 15 de março 1961, todos os negros que tivesse educação primária feita no norte de Angola e um pouco pelo resto do país passaram mal nas mãos da PIDE. A missão de Kibokolo da BMS foi destruída pelos blindados e os missionários expulsos de Angola. Era o pior momento para nós que éramos filhos de um certo Pastor Simão Nyoka Abílio, o responsável paroquial da BMS em Kimbwanzinga, na Comuna do Béu em Maquela do Zombo.

A exemplo de todos os pastores, a igreja organizou a nossa fuga para o Congo Leopoldville. Todos nos concentramos na vila fronteiriça de Kibentele (Bentley) em conjunto com o casal missionário David e Margareth Grenfell que eu viria a visitar várias vezes em Rickmansworth durante a minha estadia em Londres.

Em Kibentele, recebíamos comida e fardo que as igrejas no mundo mandavam. Kibentele (Bentley) foi abandonado pela maioria dos refugiados que eram encorajados a procurar familiares e trabalho ou subsistência em outras cidades do Congo. Foi assim que seguimos para a Vila de Matadi onde vivia um tio materno do Papá e depois para Leopoldville onde vivia o irmão mais velho do Papá. Em Leopoldville, passamos a cultuar na Igreja Baptista de Lisala (Dendale) e mais tarde EBBF Makala. Em Dendale ainda recebíamos ajuda em roupa usada que se mandava para os filhos dos Pastores da BMS refugiados no Congo.

A I.E.B.A., a nossa igreja nunca existiu em Luanda. Para muitos dos nossos papás a igreja se estendia de kibokolo, Nova Caipemba, San Salvador e Bembe. Essa foi o espaço da Baptist Missionary Society (BMS). No centro do País, os protestantes eram da Igreja Metodista, dos metodistas americanos enquanto no Sul de Angola falava-se a Igreja congregacional dos Missionários canadianos, foi com esses missionários instalados nas três regiões que guardavam os três grandes grupos étnico-linguísticos angolanos que se nasceram as missões e os movimentos políticos que reclamavam a independência. Foi por isso que a presença dos missionários não era bem vista pelos colonos portugueses.

Em Angola e na Comuna do Cuilo Futa assistia a cultos da Igreja BMS que até 1975 ainda se chamava BMS mesmo depois da sua destruição manu militari pelos blindados portugueses: assim aconteceu em todas as missões da BMS acima citada. A igreja da BMS de Cuilo Futa ainda apresentava 14 anos depois as marcas do blindado e carro militar que lá passou. Por algum tempo passou a ser Quartel Militar tuga.

Durante esse período que antecedeu a independencia, uma missão vinda de Kibokolo, composta pelo Reverendo João Makondekua e Afonso Malassa, fizeram com muitas dificuldades um periplo que lhes levou de Kibokolo, Béu, Cuilo Futa, Cuilo Pombo e Cuilo Kambosso, Sakandika, Kamatambo e outras áreas onde a influência da BMS ainda se fazia sentir. Esse périplo foi feito a pé em regiões onde não passa carro nenhum. durante 14 anos de resistência, os cristãos da BMS rezavam nas matas.Os mais velhos usaram as suas energias para ter a certeza que a igreja tinha renascido das cinzas de guerra. Hoje ninguém vai nessas áreas visitar os outros mesmo com carros de ar condicionados.

Esses heróis da IEBA merecem toda a nossa admiração. Me lembro também de heróis anónimos que se batiam na edificação desta igreja como Pastor Tomas nsita e a minha Avô materna Luisa Mungu no Cuilo Futa, Pastor João Ntangu no Béu; Carlos Pinto no Nsosso etc… Malassa está na história da IEBA como aquele que impulsionou no Exilio com o seu programa “ Avavi Avidi” o aumento de mais membros para a Igreja Baptista que enchia as igrejas baptistas zairenses numa área plenamente dominada pelos Kimbanguistas. Depois da partida em massa dos refugiados angolanos de regresso a Angola, as igrejas Baptistas no Zaire (RDC) esvaziaram-se.

Hoje assisto com tristeza o contrário, as zonas onde a IEBA era dominante, as igrejas esvaziam-se porque lá chegou as igrejas mais “carismáticas” que são possuidores do “espirito santo”, que prometem milagres e que fazem orações barulhentas danso até ordens a DEUS. A IEBA perde sim terreno, acomodada em Luanda com visão de internacionalização largando as massas que a edificaram na selva. Nenhum alto responsável da IEBA se atreve a visitar os membros residentes nessas áreas a exemplo do que Makondekua e Malassa fizeram, nem apoio lhes dão: Igrejas que nem chapas de zinco tem, crentes esfomeados, pessoas sem roupa para se cobrir, sem medicamentos, pastores e diáconos abandonados na mendicidade e à sua sorte.

O autor se recorda que no ano 1975 até 1976, A IEBA NÃO EXISTIA, os mais velhos concentravam-se e oravam nos domingos dependendo da dinâmica dos pastores e diáconos nas suas aldeias de origem. Em conversa com esses mais-velhos da IEBA, via-se que Luanda não configurava no seu mapa; falava-se ainda das memórias de uma igreja confinada naquelas regiões que os missionários deixaram.

No Cuilo Futa era preciso reconhecer o dinamismo de Tomás Nsita que enfrentou no Cuilo Futa a primeira separação com a criação da Igreja Evangélica do Norte de Angola mais tarde IERA e hoje IRA. Na comuna do Béu era preciso recordar o dinamismo de Daniel Mabanza, Pastor João Ntangu (Pai de Daniel Ntangu) e outros diaconos como Pedro Samuel (samuele sami), Manuel Ndombele, Manuel Paulo e outros. Na Damba é preciso reconhecer os esforços do casal Tungo, os pais de Tony Sofrimento (Mampassi).

Mas a urbanização da IEBA começa exactamente na cidade do Uíge (Carmona) onde é preciso reconhecer o empenho pessoal do Diácono Pedro Rodrigues Mwanza (Pai do Peter Mwanza e da Guilhermina Abílio-Nené) coadjuvado por Daniel NKuku Danious (Pai do cantor Lindanda Embaixador), a esse dois servos do senhor, coube a humildade em receber nas suas casas e apoiar todos os esforços para a ressurreição da Igreja BMS. o Primeiro até chegou de oferecer a sua propria residencia no Bemba Ngangu para a Igreja.

Mas até aqui a palavra IEBA é desconhecida, porque para muitos de nós que eramos baptistas no Zombo, conhecíamos outros crentes em Angola que entraram do Zaíre Congo com a denominação de “Evangélica” na Damba. Foi nesse município que um Jovem pastor (Daniel Ntoni Nzinga) “fabricou” essa junção, produzindo aquilo que hoje é chamado de Igreja Evangélica baptista em Angola (IEBA). Todos nós Baptistas oriundos do Uíge, Cabinda e Zaire que emigrámos para Luanda em 1975 e 1976 frequentávamos a 1ª Igreja Baptista de Luanda sito no Bairro Popular ao lado da escola Che Guevara. Apenas os Tocoístas realizavam os cultos no bairro Caputo na presença de Sua santidade Simão Gonçalves Toco (Mayimona). Muito embora estivéssemos ligados etnicamente com fervorosos Tocoistas mas recusavamos de lá ir receando a conotação politica que se fazia naquele momento conturbado da nossa história ao Profeta.

Meses depois, descobrimos no Bairro Maculusso uma 3ª Igreja que permanecia vazia nos Domingos tendo no seu interior apenas uma diaconisa mestiça, a Irmã Beatriz e uma pequena dezena de jovens e crianças. Cansado de sair das Ingombotas para o bairro Popular para cultuar, o Mais Velho Luvualu António, com quem eu vivia, passou a frequentar essa Igreja. Ele terá informado ao Pastor Daniel Ntoni Nzinga que também passou a frequentar a mesma Igreja e lá pregava. A 3ª Igreja foi enchendo e houve dias de Domingo que não havia espaço para nós todos. Criou-se uma Escola dominical que ficava também abarrotada. Foi também o mais velho António Luvualu que me mandou para a casa do Pastor Ntoni Nzinga para que fosse trabalhar no escritório dele.

Nessa altura Ntoni Nzinga vivia numa residência que lhe foi cedida pelo Veterano Bispo Emílio de Carvalho da igreja Metodista. A classe da juventude onde partilhei com o grosso dos filhos do Tio Avelino Salomão Tomás:o Engº João Pena, a Isabel Tomás (Belita), Tulomba Salomão Tomás (Wellesi), Mano Moisés, Daniel Sadi Muana Mvumbi, Diakiesse Heda, Luzolo Ameriance, Lutonádio, Garcia Makumbi Menga (Ndongalassia), Enoch e outros, tinha muitos jovens. Houve vezes que a Igreja chegou de cultuar duas vezes ao dia devido ao pequeno espaço assim queria o baixinho Pastor Matoka.

De recordar que foi nessa 3ª Igreja que sob instigação de um certo Irmão Isaac Wosso Mpudikulumona (Jackys), irmão do Diácono da IEBA Manuel Conde e outros irmãos como Vita Niossi que hoje vive na Austrália, iniciamos aquilo que mais tarde viria a ser o COCEVAL. Nesta 3ª Igreja também havia muitos meninos inteligentes na Escola Dominical do qual me orgulho porque hoje se tornaram dirigentes deste país, é o caso do economista Armando Manuel, hoje Ministro das Finanças da Republica de Angola. Aí também convivi com o SubComissário Orlando e a Comissária da Polícia Josefina Gomes Varela (FINA), vindos de Benguela, hoje na Eternidade.

Quando comecei a trabalhar no Gabinete do Secretario Geral da IEBA ainda descobri através dos documentos a origem da denominação IEBA. O dinamismo deste Pastor é mesmo inquestionável. A IEBA foi constituída numa altura em que fervia a ideologia marxista em Angola e a Igreja e o Estado viviam como autênticos surdos um ao outro. Nesta altura da guerra também muitos eram “rusgados” para a tropa quando iam para as Igrejas. Foi neste ambiente que se formou a IEBA, com um abandono da 3ª Igreja baptista de Angola no Maculusso.

Naquela altura nos alcunharam de Igreja dos Regressados. No primeiro culto, nessa residência sita na descida do Hotel Trôpico, dos jovens presentes eramos dois apenas: eu e a Gé (a hoje médica Dra Maria Eduarda, irmã de Tony Sofrimento). Me lembro das mamas Ephnie, Maria Joana, falecida esposa do Mais velho Luvualu António e Mama Nkuna (a Mãe da Mireille Mavuba Vuiti). Arranjou-se depois espaço numa antiga loja no Prédio da Polícia na Avenida que os colonos apelidavam de Avenida dos Combatentes. Essa avenida hoje chama-se Comandante Valódia, em homenagem a um ex-guerrilheiro da 1ª região que tombou aí na tentativa de desalojar militarmente os seus ex-companheiros do MPLA mas da Facção Chipenda.

É preciso reconhecer e alertar para o respeito da história ( A biblia nos ensina no 1 Pedro 5:… “…jovens, sede sujeitos aos anciãos…”) que muitos mais velhos empenharam-se para que isto fosse realidade; muitos até suportaram financeiramente tanto as instalações como o pagamento da renda; homenagem seja rendida a Papá João Kumbu, Manuel Conde, Gabriel Afonso, Avelino Salomão Tomás, Daniel Dizongo, Pastor Makiesse, Papá Makunzi, Garcia Ntima e tantos outros. Muitos desses valorosos angolanos são autênticos heróis que deixaram o mundo dos vivos.

Mas até ao meu recrutamento pelas Forças de defesa e segurança de Angola, sempre trabalhei como funcionário (não Pago) no Gabinete do Pastor Ntoni Nzinga chegando mesmo a lhe acompanhar em muitos contactos como por exemplo onde ficava sempre fora com as pastas. No fim do trabalho, íamos para a casa dele e almoçávamos juntos como Pai e Filho na presença da minha saudosa mamã Madalena Mpemba Ntoni. Na saída do serviço, ele me transportava para Escola onde estudava no período nocturno com seu Land Rover. O último encontro dele que presenciei foi no Palácio quando se encontrava com Afonso Van Dunem (MBINDA) que lhe preparava o encontro com Dr. Agostinho Neto, Presidente da Republica Popular de Angola.

Meses depois desse encontro, nascia já o planificado CAIE (Conselho Angolano das Igrejas Evangélicas) hoje chamado de CICA de que Reverendo Daniel Ntoni Nzinga tornou-se o seu primeiro secretário-geral abandonando assim o secretariado da IEBA. Nesta altura para o espanto dele eu já vestia a farda das FAPLA e não podia mais continuar aí. Fui substituído pelo irmão Pululu. Acredito que com ele, aprendi mesmo os meus conhecimentos iniciais do que é uma Administração.

Reverendo Ntoni fez a sua carreira eclesiástica e académica em Manchester e Leeds University até que lhe ví já de regresso, depois de um longo périplo, na sua terceira Idade apontado como 2º pastor da paróquia dos Combatentes. O que para mim representava um alívio e um reconhecimento pela justeza dos seus feitos na história da IEBA.

Meus irmãos HONREMOS A NOSSA HISTÓRIA, assim disse o Presidente José Eduardo dos Santos no fim da sua mensagem pelos 40 anos de independência. Niguém falsifica a historia por mais tentativas que faça. Hoje tanto a Igreja Metodista e a IEBA vivem momentos de liberdade e admiro, vejo com agrado e constato uma reverência e alta consideração ao Bispo Emilio de Carvalho.

Por outro Lado, eu lagrimo e com muito desgosto, quando vejo a depreciação e humiliação a que se faz ao Reverendo Daniel Ntoni Nzinga, uma figura emblemática senão a única figura que a IEBA produziu e que os angolanos de Cabinda a Cunene conhecem nas lides religiosas do país (deiam me um nome diferente, estarei agradecido). Uma pessoa que dirigiu o COIEPA na fase da guerra, chegou mesmo a ser sondado como o Presidente da Comissão Eleitoral de Angola.

Trata-se de um EMBAIXADOR da imagem da igreja onde passei a minha meninice e juventude. Alguém cuja a experiencia e saber pode contribuir para o engrandecimento da Igreja. ESSE TIPO DE FIGURAS NÃO SE ENVIAM PARA KIKOLO, MEUS SENHORES! Esse é património Nacional. Reparem no que os metodistas fazem do Bispo deles. Reparem num Frank Chikane ou Desmond Tutu etc…Noutras latitudes figuras como essas, são acomodados como CONSELHEIROS ou ASSESSORES.

No Domingo assistí na TPA que o Culto organizado pela Convenção Baptista de Angola convidou mesmo esse mesmo filho rejeitado da direcção da IEBA para pregar no culto dos 40 anos de independência. o Sr ainda é respeitado por outros: Convidado pela Universidade kimpa Vita, Em Nairobi em conjunto com Ntabo Mbeki da Africa do Sul etc…Acho que se não abandonasse em 1976 a 3ª Igreja para formar a IEBA, teria mais respeito e consideração na CBA como aconteceu agora.

Quando fui para o Culto no último domingo na IEBA, assistindo a uma mensagem bíblica que era um daqueles habituais “Bifes”, fui informado que Ntoni Nzinga já não era 2º Pastor mas foi enviado como responsável de uma célula de orações da IEBA no Kikolo. Meu Deus. A IEBA trata assim seus filhos? O meu desabafo como membro desta igreja, não sou nenhum responsável Pastor, Secretario ou diácono que queira influenciar decisões mas só peço e APELO para que HONREMOS A NOSSA HISTÓRIA. Eu acho que com essa humiliação aberrante, Daniel Ntoni Nzinga já não esta na idade de protagonizar separação primeiro não tem idade para tal, Segundo, ele não deve ter moral para tal, abandonar um filho gerido por ele. Senão iriamos testemunhar outra vez os erros históricos que produziram o IBLA e a UEBA.

HONREMOS A NOSSA HISTÓRIA

DEUS USOU LHE PARA PERMITIR HOJE A EXISTÊNCIA DA IEBA

AMEN

Fonte: facebook/Bens Cavila

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    5 de MARçO de 1965

    Por Sousa Jamba

    Há datas que não entram apenas na história: entram na carne moral de um povo. O 15 de Março de 1961 é uma dessas datas severas, dessas datas que deixam de pertencer ao calendário para passarem a pertencer à consciência. Foi nesse dia, no Norte de Angola, que a contestação ao colonialismo português deixou de ser murmúrio clandestino, conspiração fragmentária ou esperança sem armas, para se converter em guerra. A UPA, operando a partir de bases no Congo-Léopoldville, desencadeou a insurreição que transformou o nacionalismo angolano numa rebelião rural de massas. Milhares de homens atravessaram a fronteira; a autoridade colonial foi atingida com violência; e o império português descobriu, de súbito, que Angola já não cabia na ficção burocrática das «províncias ultramarinas». A partir desse momento, a questão angolana impôs-se, com urgência própria, como problema africano e internacional.

    É precisamente por isso que o silêncio em torno da FNLA, herdeira directa da UPA, tem qualquer coisa de excessivamente útil para ser inocente. Não se trata de simples esquecimento, nem de uma modesta economia pedagógica. Trata-se, antes, de uma operação mais funda e politicamente mais rentável, pela qual uma parte decisiva da história de Angola foi sendo empurrada para a margem, depois para a penumbra, e por fim quase para a inexistência. Ora, a FNLA não foi um acidente periférico da libertação angolana, nem um episódio menor que a marcha ulterior dos vencedores pudesse legitimamente reduzir a nota de rodapé. Em meados da década de 1960, FNLA, MPLA e UNITA eram reconhecidos como os três movimentos principais na disputa da liderança nacional; e foram precisamente esses três que surgiram inscritos no processo de transição consagrado em Alvor. O rebaixamento retrospectivo da FNLA não nasceu dos factos. Nasceu, isso sim, da vitória posterior de uma narrativa de Estado, mediante a qual um poder triunfante converte a contingência da sua ascensão em necessidade histórica e a vantagem militar em superioridade moral.

    A caricatura mais repetida sustenta que a FNLA não passou de uma expressão bakongo, étnica e circunscrita. É evidente que a espinha dorsal do movimento se encontrava no Norte e nas comunidades exiladas do Congo. Mas reconhecer esse dado não equivale a desqualificar o movimento; identificar uma origem não é o mesmo que decretar um cativeiro. A UPA nasceu nesse espaço porque ali existia uma base social efectiva, uma memória política anterior ao traçado colonial e uma experiência concreta de mutilação territorial. O antigo Reino do Kongo precedera as fronteiras coloniais. Numerosas famílias bakongo viviam a linha Angola-Congo não como verdade histórica, mas como corte administrativo imposto de fora. E a repressão portuguesa tornava quase impossível qualquer forma de organização legal dentro de Angola, empurrando activistas para o exílio, onde podiam recrutar, treinar, imprimir propaganda e estabelecer contactos. Nada disto diminui a legitimidade da UPA. Pelo contrário: inscreve-a num padrão mais vasto da história africana do século XX, no qual diversos movimentos de libertação se organizaram fora do território colonialmente dominado. Uma raiz não é uma prisão.

    A transformação da UPA em FNLA constituiu, justamente, o esforço deliberado de conferir ao movimento uma moldura mais ampla, mais articulada e mais nacional. Sob Holden Roberto, a causa angolana adquiriu contactos, voz diplomática, presença em fóruns internacionais e uma estrutura política que lhe deu contorno, consistência e duração. Em 1962, a criação do GRAE, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio, representou um passo decisivo: pela primeira vez, uma estrutura angolana apresentava-se não apenas como movimento de resistência, mas como autoridade que reivindicava representar Angola perante o exterior. Estados africanos e a Organização da Unidade Africana reconheceram essa estrutura e trataram-na como interlocutora legítima da causa angolana. Não se concede semelhante estatuto ao que é irrelevante. Não se reconhece, com tal solenidade, aquilo que não pesa.

    A FNLA construiu igualmente uma máquina política e militar real. Nos campos de treino próximos de Kinshasa, milhares de combatentes foram preparados para a guerra de guerrilha; a ELNA não era uma ficção musculada para consumo externo, nem uma cenografia ideológica erguida para iludir observadores estrangeiros. O movimento organizou, além disso, assistência a refugiados e programas médicos destinados aos deslocados. E, apesar da sua forte implantação bakongo, a FNLA não foi um corpo etnicamente selado. Entre os nomes ligados ao governo no exílio figuram José Lihauca, médico na área da Saúde, e Dr Jonas Malheiro Savimbi, que desempenhou funções relevantes na representação externa antes da ruptura que o afastaria de Holden Roberto. A composição do movimento era, portanto, mais larga do que a caricatura permitiu admitir, e mais complexa do que a simplificação escolar se mostrou disposta a tolerar.

    Digo tudo isto também a partir de uma memória pessoal, que não substitui a história, mas por vezes a ilumina. O meu pai, Tavares Hungulu Jamba, pertenceu à UPA, tendo sido recrutado por quadros enviados do Norte para o Planalto Central, concretamente para a Missão do Dondi. A minha irmã, Altina Flora Jamba, foi membro sénior da Ala Juvenil da FNLA no Planalto Central. Lembro-me dos homens vindos do Norte, sentados em nossa casa, entregues a conversas longas, densas e tensas, como se cada frase transportasse, ao mesmo tempo, um segredo e um risco. Vários familiares próximos, depois do exílio de 1961, acabaram integrados na UPA. A FNLA teve braços, fidelidades e circuitos humanos muito para além da caricatura escolar. Passou por casas, atravessou geografias, tocou famílias, deixou marcas. Não foi, para muitos angolanos, uma abstração; foi uma presença.

    A caricatura persistiu porque era útil. A verdade complicava em excesso a liturgia dos vencedores. Implicaria reconhecer que a UNITA emergiu, em parte, do mesmo tronco histórico; que figuras posteriormente denunciadas como traidores haviam sido, em certo momento, jovens angolanos movidos por impulsos nacionalistas inteligíveis; que atravessaram fronteiras não por venalidade, mas porque queriam juntar-se à luta. A história real raramente oferece a pureza moral com que os regimes sonham educar os seus catecismos. É sempre mais ambígua, mais desconfortável, mais resistente à pedagogia do poder. A FNLA não precisa de hagiografia. Precisa, simplesmente, de lugar histórico. Negar-lhe esse lugar não é fazer história; é administrar o esquecimento como se ele fosse património privativo de um partido, prolongando, em tempo de independência, a mesma lógica de mutilação selectiva que o colonialismo exercia sobre os corpos, agora exercida sobre a memória.

    Angola merecia melhor. Merecia que o 15 de Março pudesse ser pronunciado sem catecismos nem reflexos condicionados; que a UPA fosse reconhecida como a faísca que incendiou o Norte e obrigou o império a despertar da sua arrogância; e que a FNLA regressasse ao lugar que lhe cabe, não o de remorso incómodo da historiografia oficial, mas o de um dos actores centrais da libertação, com grandezas e misérias, como todos os outros. Um país que consente semelhante fraude contra a sua própria memória empobrece o seu futuro, porque ensina os vivos a venerar, não a verdade, mas a versão autorizada dela.

    15 DE MARçO DE 1961, DIA DA GRANDE REVOLTA NA LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA

    O 15 de março de 1961 ocupa um lugar central na história de Angola como um dos momentos mais decisivos que marcaram o início generalizado da luta armada contra o domínio colonial português. Neste dia, uma grande insurreição eclodiu no norte do país, especialmente nas regiões do Uíge, Zaire e Cuanza Norte, transformando-se num dos episódios mais dramáticos do processo de libertação nacional.

    A revolta foi conduzida por membros da UPA (União das Populações de Angola), movimento dirigido por Holden Roberto, que organizou ataques coordenados contra fazendas de café, postos administrativos e outras estruturas associadas ao sistema colonial. As áreas mais atingidas incluíram localidades como Carmona (actual Uíge) e São Salvador (actual M’banza Kongo), regiões onde o regime colonial havia estabelecido grandes plantações agrícolas e uma forte presença administrativa.

    O contexto em que essa revolta ocorreu era de profunda tensão social e política. Durante décadas, a população angolana viveu sob um sistema colonial marcado por trabalho forçado, exploração económica, repressão política e discriminação racial. Muitos angolanos eram obrigados a trabalhar nas plantações ou em obras públicas em condições extremamente duras, o que alimentava um crescente sentimento de revolta contra o regime colonial.

    Os acontecimentos de 15 de março de 1961 resultaram numa grande tragédia humana. Estima-se que mais de 10 mil pessoas tenham perdido a vida, incluindo colonos portugueses, suas famílias e também trabalhadores africanos que, por diferentes razões, não participaram ou não aderiram à revolta. A violência deste momento revelou a profundidade das tensões existentes e marcou o início de um conflito prolongado que viria a transformar profundamente a história do país.

    A resposta do regime português foi imediata e severa. O governo de António de Oliveira Salazar enviou rapidamente milhares de soldados para Angola, numa operação militar que ficou conhecida pelo slogan “Para Angola, rapidamente e em força.” Seguiu-se um período de forte repressão militar que intensificou ainda mais o conflito e transformou Angola num dos principais cenários da chamada Guerra Colonial Portuguesa.

    O impacto desses acontecimentos ultrapassou as fronteiras de Angola. No próprio dia 15 de março de 1961, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, reunido em Nova Iorque, discutiu a situação em Angola, evidenciando a crescente pressão internacional contra o colonialismo português em África.

    Este episódio é frequentemente lembrado em conjunto com o 4 de fevereiro de 1961, data em que militantes ligados ao MPLA realizaram ataques a prisões em Luanda numa tentativa de libertar presos políticos. Ambas as datas são consideradas marcos importantes do início da luta pela independência de Angola.

    Devido à dimensão e ao impacto da revolta de 15 de março, alguns sectores políticos e historiadores defendem que esta data deveria ser reconhecida como o verdadeiro início da luta armada de libertação nacional. Em particular, membros e simpatizantes da FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) — sucessora política da antiga UPA — argumentam que a revolta no norte teve uma escala muito maior do que os acontecimentos de 4 de fevereiro, envolvendo amplas mobilizações populares e confrontos em várias regiões.

    Dentro desta perspectiva histórica, há quem defenda que o 15 de março deveria ser reconhecido como feriado nacional ou como a data oficial do início da luta armada, em vez do 4 de fevereiro, actualmente celebrado em Angola como o Dia do Início da Luta Armada.

    Este debate reflete também as diferentes narrativas históricas construídas pelos movimentos que participaram na luta pela libertação nacional. Cada organização procurou destacar os acontecimentos que considerava centrais no despertar da resistência contra o colonialismo.

    Apesar dessas interpretações distintas, tanto o 4 de fevereiro quanto o 15 de março de 1961 são hoje reconhecidos como momentos fundamentais do processo histórico que conduziu Angola à independência. Ambas as datas simbolizam o início de um período de resistência intensa e o sacrifício de milhares de angolanos que lutaram pela liberdade e pela autodeterminação do país.

    Recordar o 15 de março de 1961 é honrar a memória daqueles que participaram, de diferentes formas, no processo histórico que levou à libertação de Angola. É também um momento de reflexão sobre os sacrifícios feitos no passado e sobre o compromisso contínuo com os valores de liberdade, unidade, justiça e progresso para o futuro da nação angolana.

    Fonte: Perfeito Masamba

    One thought on “HONREMOS A MEMÓRIA DA I.E.B.A

    1. Nesta cronologia histórica (“Esse é meu Ponto de Vista e Opinião pessoal”) espanta não se mencionar Reverendo Pedro Manuel Timóteo. Este cidadão angolano diz-lhe alguma coisa?
      Qual a sua opinião caro autor?

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