Maquela do Zombo – Um sonho desfeito.

Por Fernando Ribeiro

Já não têm conta as vezes em que foi comentada a decisão tomada pelo general Norton de Matos de criar uma cidade, a partir de uma for-tificação existente no Planalto Central de Angola: a cidade do Huambo, a que mais tarde foi dado o nome de Nova Lisboa.

Houve, contudo, uma decisão de carácter idêntico, tomada pelo mesmo governador-geral de Angola e posterior alto-comissário, que praticamente nunca é referida pelos seus biógrafos. Esta outra decisão consistiu também na criação de uma cidade, situada no extremo Norte de Angola, a dois passos da fronteira: Maquela do Zombo.

Em rigor, Maquela do Zombo já existia há séculos, tendo sido uma povoação muito importante do Reino do Congo. Esta antiguidade de Maquela estava confirmada pela existência de uma igreja quinhentista, classificada como monumento nacional, que era a segunda igreja mais antiga de todo o território de Angola e a mais antiga de todas quantas ainda estavam em condições de nelas se realizarem actos de culto.

A decisão tomada pelo general Norton de Matos consistiu em reanimar a histórica vila, transformá-la numa cidade e fazer dela a capital do Congo Português, de tal modo que ela fosse capaz de rivalizar com as capitais do Congo Belga e do Congo Francês, respectivamente Léopol-dville (actual Kinshasa) e Brazzaville.

Para esse fim e sob sua orientação, em Maquela do Zombo começaram a ser rasgadas ruas e avenidas e foi construído um luxuoso palácio, no meio de um exuberante jardim tropical, para servir de sede ao governo do distrito do Congo Português. Este palácio foi propositadamente erguido à entrada da projectada cidade, ao fundo de uma comprida recta da estrada vinda de Léopoldville, de maneira a que os viajantes, acabados de chegar do Congo Belga, vissem bem aquele símbolo da grandeza da colonização portuguesa assim que entrassem em Angola.

Este projecto de Norton de Matos falhou, porque foi logo abandonado assim que ele deixou o cargo de governador-geral da colónia. A capital do distrito foi transferida para a cidade do Uíge, as obras pararam e Maquela do Zombo caiu no esquecimento, permanecendo uma simples vila fronteiriça, sede de uma circunscrição apenas com uma mão-cheia de polícias, funcionários e militares. A sua população civil, negra e branca, de escassos milhares de habitantes, entregava-se sobretudo ao comércio legal e ao contrabando. A grandeza sonhada pelo general Norton de Matos, para uma nova cidade no Congo Português, desfez-se em fumo.

Entretanto, Brazzaville foi crescendo na margem direita do Rio Zaire. Na margem oposta, Léopoldville/Kinshasa transformou-se numa das maiores cidades do mundo, com vários milhões de habitantes (mais de 10 milhões, actualmente), e tornou-se, sem ponta de exagero, na verdadeira capital cultural, humana e social de toda a África Central (dizia-se até, por brincadeira, que a cidade de Brazzaville não precisava de ter iluminação nocturna, porque o brilho das luzes de Kinshasa chegava para iluminá-la…). Quanto a Maquela do Zombo, coitada, essa ficou irreme-diavelmente para trás, triste e atrofiada, de tal maneira que mesmo em 1974 ainda não tinha uma única rua pavimentada.

O que seria de Maquela do Zombo se o sonho do general Norton de Matos tivesse sido materializado?

Fonte: huambino.blogs.sapo.pt

  • Related Posts

    DEPUTADOS RESIDENTES NO UÍGE VISITAM INFRA-ESTRUTURAS SOCIAIS EM MAQUELA DO ZOMBO

    No âmbito do plano de trabalho para o ano 2026, o grupo de deputados residentes na província do Uíge, vistou esta quinta-feira, 05, algumas infra-estruturas sociais no município de Maquela do Zombo.

    A delegação parlamentar, encabeçada pela deputada Nazaré dos Anjos Mendes, manteve a chegada encontro com o administrador municipal, Samalando Muginga, que na ocasião, fez menção dos principais projectos em curso e concluídos no âmbito do Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) e e de Combate à Pobreza, como a resselagem de 6,8 km da artérias da vila e construção de algumas infra-estruturas escolares.

    O governante aproveitou ainda, para referenciar que apesar do momento económicamente difícil, o município tem registado avanços nos últimos tempos, através da implementação de projectos públicos e privados, com relace para a mina de cobre de Tetelo-Mavoio.

    Por sua vez, a deputada e coordenadora do Grupo de Deputados Residentes no Uíge, Nazaré dos Anjos Mendes, manifestou satisfação pela recepção e frisou que enquanto representantes do povo na Assembleia Nacional, têm auscultado as principais preocupações da populações e com isso, fazer advocacia junto do Executivo para a resolução dos mesmos.

    Durante a jornada de constatação de cerca de cinco horas, a delegação parlamentar integrada ainda pelos deputados Alcides Maiacala, Teresa Afonso Pinto e Esteves Diavova, visitou a escola primária da aldeia Vululu, estação de tratamento e abastecimento de água e a mina de Tetelo-Mavoio.

    GMCS – MAQUELA DO ZOMBO

    PROPOSTA DA ALDEIA NTAYA A PATRIMÓNIO CULTURAL DA UNESCO

    Governo Provincial do Uige prepara proposta de elevação da aldeia Ntaya e da cultura de café a patrimônios culturais mundiais da UNESCO

    A cidade capital da província do Uíge será palco esta segunda-feira, (9), da Primeira Sessão Ordinária da Comissão Nacional Multissetorial para a Salvaguarda do Património Cultural Mundial a ser presidida pela Vice-Presidente da República de Angola Esperança da Costa.

    Neste encontro, o Governo Provincial do Uíge pretende apresentar um dossiê de candidatura da localidade de Ntaya em Maquela do Zombo, à lista de Patrimônio Mundial da Cultura.

    A proposta é sustentada pelo facto de Ntaya ser considerada berço do Tocoismo e o local onde repousam os restos mortais de Simão Gonçalves Toco, o fundador da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo “os Tocoistas” – uma denominação que actualmente encontra-se espalhada em Angola, em África e no mundo a dentro.

    A cultura do café, também faz parte da lista da proposta que o Governo Provincial do Uíge pretende submeter neste encontro para a sua elevação a patrimônio cultural Mundial da UNESCO.

    Entretanto, de acordo com a Directora-Geral do Instituto Nacional de Patrimônio Cultural, Cecília Gourgel, Angola submeteu, a 30 de janeiro do corrente ano, o dossiê de candidatura do Sítio Arqueológico do Tchitundu-Hulu, localizado no município do Virei, província do Namibe, e do Semba como música e dança, à Lista do Património Mundial da UNESCO.

    Segundo Cecília Gourgel, a ação de elevar Tchitundu-Hulu a patrimônio cultural mundial, visa proteger pinturas e gravuras rupestres ancestrais de elevado valor científico e cultural na África Austral.

    Em relação à lista de patrimônios culturais nacionais, a província do Uíge conta com a Batalha de Ambuila, Antiga Cadeia da PID DGS na cidade do Uíge, Antigo Palácio do Governador do Conselho de Carmona, também na cidade do Uíge, Primeira Casa Comercial igualmente na cidade do Uíge; Missão de Kikaya nos arredores da cidade do Uíge, Grutas de Cabala no Negage e Fortim do Bembe.

    Via RNA/Uíge

    História do Kongo

    OS BASUNDI: POVO DO KONGO CENTRAL E HERDEIROS DE UMA ANTIGA PROVÍNCIA DO REINO DO KONGO

    OS BASUNDI: POVO DO KONGO CENTRAL E HERDEIROS DE UMA ANTIGA PROVÍNCIA DO REINO DO KONGO

    OS DIALECTOS KONGO DO GRANDE BANDUNDU

    OS DIALECTOS KONGO DO GRANDE BANDUNDU

    Os LAçOS ENTRE A PROVÍNCIA DO KWILU MA RDC E OS KONGO

    Os LAçOS ENTRE A PROVÍNCIA DO KWILU MA RDC E OS KONGO

    DO REINO DO KONGO A BANDUNDU: UMA HISTÓRIA POUCO CONTADA

    DO REINO DO KONGO A BANDUNDU: UMA HISTÓRIA POUCO CONTADA

    GRUPOS ÉTNICOS BAKONGO NA REGIÃO DE BANDUNDU/RDC (Kwango e Kwilu)

    GRUPOS ÉTNICOS BAKONGO NA REGIÃO DE BANDUNDU/RDC (Kwango e Kwilu)

    DOM PEDRO VIII, REI DO CONGO (1923–1954)

    DOM PEDRO VIII, REI DO CONGO (1923–1954)