MARIA KIAZOLO: A nascente misteriosa com nome de mulher

The Uíge province. Photos for the yearly province fair stands of all the municipalities. Nganga-Dombi, 2014-06-02. Photo: Joost De Raeymaeker/All Rights Reserved

Por Valter Gomes

Maria Kiazolo é nome de uma nascente de águas misteriosas situada a um quilómetro do Senga, no
município do Uíge, bem perto da estrada nacional 220. A fonte jorra águas claras e cristalinas, por entre pedras limpas.O local é um encanto, realçado muito mais pelos bagres, caranguejos e outros tipos de peixes e crustáceos que por lá prosperam.

A olhos nus a nascente parece algo simples e pequeno. Mas não. A fonte Maria Kiazolo tem história e está carregada de simbolismo. “Aqui só são permitidos aqueles que vêm acarretar água para o consumo. O que vêem para banhar, lavar roupa ou puxar água através de motobomba desaparecem ou a máquina acaba por ficar danificada. Os bagres, caranguejos e outros peixes também são intocáveis”, disse à reportagem do Jornal de Angola o seculo do Senga.

Francisco Kilumina, de 80 anos de idade, contou que o local parece ser uma simples nascente de águas limpas, mas é mais do que isso. “No fundo é um grande rio subterrâneo e misterioso que tema sua fonte principal na comuna do Dimuca, no município do Negage”. Facto que parece inacreditável, as autoridades locais e a população sustentam que foi por intermédio de sonhos repetidos e acontecimentos
reais que os ancestrais perceberam o nome da nascente e a sua proveniência.“O rio percorreu subterraneamente o município do Negage e passou por baixo de outros rios até abrir a nascente nesta localidade do Senga”, explicou no local a autoridade tradicional.

O ancião Francisco Quilumina lembra que em 1961, emvárias ocasiões, os habitantes locais e as autoridades tradicionais se depararam com roupas brancas estendidas nas pedras danascente, sem o mínimo rasto de quem as lavara e estendera. Nos anos 80 surgiram, segundo a narrativa de Quilumina, do fundo do túnel da nascente, sereias brancas vestidas com roupas de marca Maradona. Tão misteriosamente como apareceram, também despareceram. Outro “facto” lendário: “há alguns
anos,uma menina caçou um bagre na nascente, tentou matá-lo com uma pedra e não o conseguiu. Colocou o vivo na panela e levou-o para casa. Minutos depois, a panela ficou toda cheia de bagres”, conta ainda Francisco Quilumina.

A nascente, apesar de estar muito próximo da estrada nacional, está tradicionalmente preservada. Lá não se podem realizar actividades culturais sem que os mais velhos primeiro façam uma invocação às sereias do lugar. O regedor do Senga, André Culo da Costa, explica que se não se fizer isso, no dia seguinte ao espectáculo cultural, mesmo sem ninguém mexer, toda a água fica suja.

“Eu vi com os meus olhos. Há quatro anos realizamos uma cerimónia cultural na aldeia sem que as autoridades tradicionais pedissem permissão às sereias da Maria Kiazolo, e, no dia seguinte, a água toda estava suja, ficamos quase dois dias sem água para beber”, afirma, com a maior convicção, o regedor.
Os habitantes vão à nascente buscar água para o consumo, e todos estão devidamente esclarecidos sobre
o cumprimento obrigatório das regras do lugar. Com mais de dois quilómetros quadrados, Senga é o penúltimo conjunto de aldeias do Uíge, para quem segue viagem comdestino ao Negage.

É limitada a Leste pelas regedorias do Culo e Cangundo, a Sul pelas localidades do Dambi e Muenga e a Norte pelas aldeias do Cungula e Terra Nova. Fundada em 1931 pelo ancião Bambula, Senga é uma
regedoria composta por seis aldeias: Quifumbi, Banza Luanda,Povo Luanda, Zambi, Cavunga e Senga. É habitada por 10.211 pessoas, a maioria camponeses. A população dedica-se ao campo e ao comércio e produz maioritariamente mandioca, ginguba, banana, feijão, milho, batata doce e café. Senga é a única aldeia na história do Uíge visita da pelo então Presidente da República José Eduardo dos Santos. Isso ocorreu em 1992, por ocasião do lançamento da campanha nacional da venda e compra do café. No local,
o presidente colocou o café na balança e procedeu à aberturada campanha, antes de partir para o município de Maquela do Zombo.

Senga possui densas florestas, aproveitadas para o cultivo do café. No passado, a localidade tinha duas fazendas, denomina das Bamba Senga e Flor do Congo,detentoras de máquinas de descasque do café, que entretanto ficaram totalmente danificadas durante a guerra. O seculo do Senga, Francisco Quilumina, disse que o nome da aldeia veio de um rio que se encontra situado a dois quilómetros da localidade.

Antes da sua criação, em 1931, a população vivia em pequenos grupos, de acordo com a tribo a que cada um pertencia. A altíssima fertilidade da terra, a localização geográfica e o comércio motivaram a fixação
de várias famílias nos anos 30, o que esteve na origem do Senga. “Vivemos em harmonia. A conservação dos valores culturais, as danças,asnossas canções, os casamentos religiosos, o alembamento, o vestuário e a línguamaterna kikongo constituem os nossos traços culturais inalteráveis”, explica Quilumina.

Paragem obrigatória

Logo à entrada do Senga, mesmo a beira da estrada, está uma pracinha, que tem de tudo um pouco: banana assada, ginguba torrada, safú e abacate chamam logo a atenção dos que por ali passam. Logo cedo, mulheres, jovens e crianças organizam carvão, fogareiros e grelhas para assar a banana, outras
expõem a banana de mesa nas bancas de venda. Com muita paciência, as mulheres assam a banana,
torram a ginguba e o safú, preparamos catatos comum poucodepicante (um petisco muito apreciado), enquanto os homens vendem o malavo, bebida tradicional extraídadobordão, e o lunguila, outra bebida, feita de sumo de canade açúcar, e o famoso gissombe, um insecto que vive no interior dos bordões e que faz as delícias de naturais do Uíge e de muitos forasteiros.

O local é paragem obrigatória para os automobilistas. Cada um, motoristas e seuspassageiros, a seu gosto, compra o necessário e o que os olhos e a barriga pedem no momento. As mulheres vendem quatro
bananas assadas a 100 kwanzas, uma lata demassa tomate cheia com ginguba assada também custa 100
kwanzas, o milho assado 75 kwanzas cada, o safú é vendido três a 100kwanzas, cinco bananas de mesa, de muito boa aparência, custam 100 kwanzas, enquanto um cacho do mesmo tipo de banana
é comercializado a mil kwanzas. O garrafão de cinco litros de malavo, bem puro, nada de baptizado, custa 500 kwanzas e o litro de lunguila 300 kwanzas.

A equipa do Jornal de Angola constatou que não se pode comprar a banana assada simples, sem a ginguba ou o safú. “Começamos as vendas às seis horas da manhã. Os carros param e nós vamos ao encontro dos clientes. Mesmo sem descer do carro os clientes compram. Não vendemos a banana assada
simples mas acompanhada com a ginguba ou o safú, porque se vendermos a banana simples raramente vendemos a ginguba”, disse Janeta Joaquim, 36 anos.

Marcelina António vende na pracinha há cinco anos. Estána 11ª classe. O mercado é a fonte de sustento dos seus estudo e do pequeno Mário António,oseufilho. “As vendas são rentáveis, por dia ganhamos quatro a cinco mil kwanzas. Com este dinheiro sustentamos a família em casa”, explica. Jorge Pambala é taxista há muitos anos. Segundo disse, os clientes “obrigam”os automobilistas a  fazer paragem na pracinha do Senga para comprarem “qualquer coisa”. “Aqui não compramos apenas a banana, mas também o maruvo, o gissombe e os catatos, que servem de petisco ao longo da viagem.

Por isso aqui éuma paragem obrigatória, encontramos sempre algo bompara saborear”, refere Alfredo Pacheco, que no momento comprava banana e milho assado. Vendedores, habitantes e automobilistas em geral clamam pela colocação urgente de quebra molas na via junto a pracinha. As vendedoras ocupam as duas faixas da estrada, sem medir os riscos e as consequência. Atravessam a estrada anarquicamente, correndo ao encontro dos clientes onde quer que a viatura vá estacionar.

O soba do Senga, Armando Calenda, está preocupado com a situação, visto que a população corre muito risco e já se têm registado acidentes de viação. O soba garante que as autoridades tradicionais já orientaram a população para que não atravesse a estrada anarquicamente, mas permaneça nas faixas onde se encontram. “Queremos que aquelas vendedoras que estão do lado esquerdo não atravessem
para o lado direito e as que estão do lado direito não façam o mesmo para o lado contrário, enquanto não se colocarem quebra molas”.

Agricultura

A população, que vive da agricultura de subsistência, clama da falta de apoios em instrumentos agrícolas
como enxadas, catanas, limas, motobombas, machados e inputs como sementes. Senga tem 10 associações agropecuárias e uma cooperativa, além de pequenos agricultores independentes.

O presidente da associação agrícola do Senga, João Mário, defende a necessidade de haver maior acessibilidade ao crédito agrícola, para permitir o alargamento da produção. Nesta época agrícola, os
camponeses associados já trabalharam manualmente 20 hectares, onde lançaram vários tipos de sementes. O regedor André Culo da Costa reforçaque a localidade é produtora, mas a falta de meios de transporte e compradores faz com que vários produtos acabem por se deteriorar no campo. Defende
anecessidade de se reactivar o Papagro. “Este mercado dava maior rentabilidade e sustento às famílias. Ali vendíamos em grande quantidade a banana, o feijão, o milho e outros produtos, mas
desde que foi à falência muita banana apodrece nas matas por falta de compradores”, queixa-se o regedor.

Saúde aos soluços

A localidade do Senga possui um centro de saúde com capacidade de internamento para 14 pessoas, mas o mesmo funciona aos soluços por falta de enfermeiros e médicos. Oúnico enfermeiro que lá trabalha, segundo apurámos, vai uma vez a outra à unidade sanitária, que também não dispõe de medicamentos. André Culo da Costa está preocupado com a situação, visto que os habitantes sofrem muito, sobretudo em caso de emergência. “Temos o centro em condições, mas a falta de técnicos e medicamentos preocupa-nos bastante, uma vez que somos obrigados a percorrer longas distâncias para receber
os primeiros socorros”, lamenta.

A nível da regedoria estão controlados quatro postos de saúde, com cada um a funcionar com apenas um
enfermeiro. “Precisamos de pelo menos um médico e mais de 10 enfermeiros, visto que um enfermeiro
não é suficiente”, refere André Costa. As crianças estudam bem. Doze salas repartidas por duas escolas do ensino primário albergam os alunos, mas as autoridades tradicionais e os encarregados de educação estão preocupados com a vandalização das escolas por pessoas não identificadas.

No presente ano lectivo mais de 700 alunos, dos quais 500 da Iniciação e 200 da 7ª classe, estão matriculados. A formação dos petizes está assegurada por 25 professores. “Pessoas desconhecidas
vandalizam as escolas na calada da noite, levam as carteiras, janelas, portas e outros bens. A situação
preocupa-nos bastante, visto que muitos alunos são obrigados a assistir às aulas em péssimas condições
devido a essas acções negativas dos meliantes. Já informamos as autoridades policiais, mas sem sucesso”, diz o regedor.

Energia e água canalizada

Desde a época colonial, a localidade nunca beneficiou de energia eléctrica. A população vive às escuras, a
iluminação é feita a base de candeeiros de petróleo e velas. Umas poucas residências dispõem de pequenos geradores, mas por causa da longa distância da bomba de gasolina mais próxima, e dos preços, os proprietários desligam mais cedo os seus geradores.

Dorca da Silva, habitante da localidade, manifestase apreensiva com a falta de água canalizada. Reclama
que asmulheres sofrem bastante, uma vez que são obrigadas a percorrer vários quilómetros para acarretar a água ao rio Senga, na nascente Maria Kiazolo e noutros locais. O Regedor lembrou que
na época colonial a localidade do Senga beneficiava de água canalizada, que chegava às residências pelo
sistema de gravidade. A água era captada no rio Cantondo, a 13 quilómetros da localidade. Durante o conflito armado o sistema de captação e distribuição da água ficou danificado.

André da Costa defende a necessidade de recuperação do mesmo sistema, uma vez que o rio tem capacidade para abastecer água para três ou quatro localidades da regedoria. “Já vieram aquitrês
empresários, observaram a fonte e a distância, prometeram iniciar os trabalhos, mas até ao momento não se fazem sentir”, disse.

Desporto em alta

No Senga os jovens dividem o tempo entre os trabalhos agrícolas e os jogos de futebol. Todas as manhãs cada um carrega consigo um instrumento agrícola, enxada ou catana e caminhapara o cultivo.Otrabalho
é duro e cansativo, mas não impede o que mais gostam de fazer: jogar futebol.

Às 15h00 todos se concentram no campo para o grande trumuno. O campo não tem relvado, as balizas têm rede já cansada, as chuvas deixam o terreno lama cento, mas nem mesmo o lodo impede a equipa do
Desportivo do Senga de desferir remates contra as Águias do Quinfumbe.

Na buala há grandes jogadores. Os atletas aplicam muita a corrida durante os jogos e marcam golos misteriosos como nos grandes jogos da Liga Inglesa.Os trumunos começam às 15h30 e não têm hora de terminar. Só mesmo a escuridão para acabar com o jogo. Alfredo Figueiredo, 24 anos, grande jogador médio da ala esquerda, clama pela falta de equipamentos desportivos, nomeadamente bolas, chuteiras, calções e camisolas.

Floriano Augusto, jogador médio interior ofensivo, diz que o desporto é uma paixão no seioda juventude do Senga. “Os jovens gastam o pouco que ganham no campo agrícola para comprar bolas e camisolas que simbolizam o uniforme da equipa. Há necessidade de se construir uma Casa da Juventude para
recreação e aprendizagem cultural dos jovens”, salienta Floriano Augusto.

O vice-presidente da associação desportiva do Senga, TeixeiraQuilumina, 70 anos, enaltece o talento desportivo da juventude e garante que os jovens estão a altura de fazer grandes jogos a nível da província e até mesmo do país. “Os jovens não poupamesforços emostram ao vivo o talento no futebol, mas carecemos de apoios para progredir. O campo de futebol do Senga foi aberto em 1969, foi necessário
vender café e assoiar o dinheiro para mandar abrir o campo, que já acolheu várias competições”, revela o dirigente.

O também antigo futebolista defende a necessidade da direcção da Juventude e Desportos incentivar o desporto nas aldeias,“porque existem muitos jovens talentosos e que precisam de ser bem trabalhados. A direcção da Juventude e Desportos deve promover palestras nas localidades e apoiar com equipamentos e outros materiais”, defende.

Via JA

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