Viagem e Missão no Congo, de Fr. Rafael de Castelo de Vide, (1780 – 1788) ( II )

 

Com todos estes, e ainda maiores trabalhos, chegámos já noite aonde queríamos, a uma Banza grande chamada Quinta, vistosa pelas muitas palmeiras  e um bom prado, semeado de muitos legumes. O Senhor desta Banza é um Infante Intérprete da Língua Portuguesa, que a falava e escrevia, com o título de Mestre da Igreja, que a semelhantes costumam dar os Vigários Gerais deste Reino, com Provisão. Este já nos tinha visitado na Banza antecedente, e antes mandado gente buscar-nos ao mato aonde estivemos. Recebeu-nos com amor, e nos acompanhou daí por diante nos caminhos. Fomos aqui recebidos com alegria, e devoção de todo o povo, porque pelo caminho se ajuntavam as turmas já cantando a Ave Maria, e ajoelhando quando passávamos para receberem / p. 54 / a nossa bênção, já dando clamores de alegria, e assim nos foram acompanhando até à casa de nossa hospedagem e de tudo dávamos graças ao Senhor, que já permitia que padecêssemos, e já nos enxugava as lágrimas com estas consolações.

Era a este tempo já noite, e muita pouca refeição havíamos tomado; e o mais era não termos camas aonde descansar por terem ficado na outra Banza, pela falta de quem as trouxesse e não vieram se não em o dia seguinte, e na noite nos servimos de alguma pouca de palha, que achámos, que eu consertei do melhor modo para os doentes, mas estes não vinham piores, antes mostravam algum alívio. Aqui nesta Banza ainda padecemos muito, e o mais que nos afligiu foi a morte de um nosso companheiro, que sim no princípio, que ali chegámos, e nos primeiros dias mostrou alívio, este durou pouco. Aqui também havia pouco alinho para doentes, como também se não acha nestas terras, e pouco se ajudava a nossa convalescença. O trabalho não faltava, de sorte que tendo eu ainda recaído me era preciso assim mesmo levantar-me e ir baptizar de  / p. 55 / manhã , e de tarde, às vezes mais de duzentos, e administrar o Sacramento da Penitência, ainda às vezes até alta noite, e o matrimónio a muitos que o pediam, e dizer Missa nos dias de festa, porque nenhum outro Padre estava capaz disso, nem o esteve até muito adiante, e eu mesmo com muito trabalho, e algumas ao P.e Fr. João Gualberto, compadecendo-se de mim, me ajudava no Baptismo, e nas confissões, e o P.e Dr. André, ainda que bem prostrados, mas o P.e Fr. Libório nunca se pôde levantar da cama. Este Padre, ainda que nos primeiros dias mostrou alívio, contudo de tal sorte se foi defecando por falta de alinho, por muitos trabalhos, aflições e melancolias com uma contínua madorna, e numa enfermidade, que nunca pudemos entender, não obstante o nosso grande cuidado depois de estarmos já ali onze dias, no dia 6 de Outubro deu a sua alma ao Senhor, para receber mais cedo a coroa de tantos trabalhos, que já havia sofrido, e trabalhado pela sua glória, e assim pela sua boa, e cristã conduta, que sempre nos edificou, assistindo-lhe nós, e agonizando-o naquele último transe.

/ p. 56 / Esta morte nos causou uma grande dor, e sentimento, pela perda de um amigo, e companheiro muito amante, e por faltar ao Congo um religiosíssimo Vigário Geral, como disse no princípio vinha destinado, e também pelas suas letras e virtudes, e o maior entre nós pela distinção, que dele fez S. Ex.ª Rev.ma, e o Senhor Capitão General;  e vindo eu depois dele destinado para Vigário Geral deste Reino pela mesma Provisão do Senhor Bispo, julgando não ser eu capaz, nem digno deste emprego, recorri a S. Ex.ª Rev.ma, propondo-lhe muitos motivos da minha insuficiência, para me escusar, o que S. Ex.ª Rev.ma  não atendeu, escrevendo-me aceitasse, e tirando as minhas dúvidas. Assim me sujeitei, e bem inferior a meu antecessor, ocupo um lugar, de que sou indigno.

No dia seguinte à morte do nosso amado companheiro, lhe disse Missa de corpo presente; digo, no mesmo dia em que morreu, porque morreu das duas para as três horas da noite, e de manhã disse a Missa, assis / p. 57 / tindo bem prostrados os dois Padres companheiros, e todos o acompanhámos à sepultura. Os dois Padres mais doentes arrimados a bordão nos braços dos pretos, acompanhando-o todo o Povo com grande sentimento, e os maiores Fidalgos que ali se achavam levaram o seu corpo e lhe fizemos o ofício da sepultura, reservando o outro ofício para quando estivéssemos mais fortes, e ficou sepultado na sobredita Banza, aonde morreu em um campo largo, junto de uma Cruz, que era a Igreja, que havia, lugar sagrado destinado já antes para cemitério, aonde espera a Ressurreição geral, que esperamos no Senhor será gloriosa eternamente.

É imponderável o sentimento que nos ocupou, desta morte, esperando também todos brevemente o nosso último dia. Concorreram os grandes do Povo, e outros que vieram de fora a consolar-nos, mas não tinham palavras, com que nos consolassem, e o que nos dava algum alívio era a conformidade com a vontade do Senhor, e a esperança da sua misericórdia; mas como éramos de carne, a nossa  / p. 58 / dor e sentimento nos afligia, o que mais se aumentou, quando no dia seguinte tivemos quase morto outro companheiro , o R. P.e Dr. André, que, dando-lhe um tal paroxismo, ou acidente, não dava sinal de si, e pouco de vida. Aqui foi o nosso clamor ao Senhor, sem sabermos o que fizéssemos: nós doentes, o outro morto, este morrendo, desamparados sem remédios, mas a necessidade que ensina muito, nos fez aplicar-lhe alguma água quente aos pés, e alguns cheiros fortes ao nariz, com que lhe demos alguma sensação, mas não de todo, que lhe pudéssemos aplicar os Santos Sacramentos. Aqui foi imenso o nosso cuidado, e tiveram grande incentivo as nossas lágrimas. Toda a seguinte noite e dia lhe vimos os mesmos sinais mortais, que tínhamos advertido no defunto companheiro: delírio, insensibilidade, madorna, convulsões e mortal soluço. Em a outra noite seguinte, o vigiámos toda a noite com os Santos Óleos, prontos para o ungirmos; e para lhe administrarmos outros Sacramentos, se fosse possível, mas, oh Bondade infinita do Senhor! Sem remédio algum, porque não o tínhamos, lhe veio um copioso suor, que melhorou; aplacado o soluço, e madorna,  / p. 59 / restituindo-lhe o perfeito juízo, e temendo que viesse outra semelhante moléstia, quis receber a Sagrada Penitência, e Eucaristia, o que fez com muita devoção.

Aqui mesmo em esta Banza nos faziam alguns enganos os pretos para lhe darmos alguma coisa de comer, e para nos demorarmos mais tempo, empenho que todos tinham, fingindo-nos embaixadas falsas, e outras semelhantes coisas com que nos queriam demorar, mas algumas foram verdadeiras de alguns grandes que nos escreviam, e mandavam os seus costumados presentes. Um dos maiores, que aqui nos visitou, foi o Regente do Ducado de Bamba, título que ele tinha por estar vago o tal Ducado, e esperava ser o Senhor, por mercê do Rei do Congo. Este Regente nos prometeu ajudar-nos a ir para diante, mas nada fez. E aqui nos veio também uma embaixada da parte do Rei do Congo, com cinquenta e cinco homens para nos levarem para diante, e no seguinte Povo se ajuntaram mais trinta para o mesmo fim, o que nos alegrou, parecendo-nos teríamos com mais comodidade, com gente mandada de propósito para nos levar, no que nos enganámos, como direi adiante, pelo mal que nos serviram.

Depois de estarmos em esta  / p. 60 / Banza quinze dias, principiando já neste tempo as chuvas, e temíamos as inundações dos grandes Rios, e as águas e trovoadas pelos caminhos, e por nos aproveitarmos dos carregadores, que nos haviam enviado, e com desejo de chegarmos à Corte, e acabarmos tão prolongada e custosa viagem, e cuidarmos com mais descanso no bem espiritual do Congo, do que em a nossa própria vida, que víamos quase acabada, nos determinámos, ainda que todos com pouca saúde, a seguir a viagem, o que custou bem por causa dos carregadores principiarem logo a mostrar a sua rebeldia e fugirem para diante, sem nos quererem levar, e foi preciso paciência e trabalho para sairmos em o dia 9 de Outubro sobre a tarde, para virmos a dormir em um pequeno Povo muito próximo, aonde logo trabalhámos em o nosso Ministério, e não tendo o dito maior necessidade da nossa assistência, por ter concorrido aonde havíamos estado mais tempo, no dia logo seguinte fomos adiante, o que bem custou por causa dos carregadores.

Com efeito, saímos e empreendemos caminhos bem custosos, como todos os deste Reino, e chegando a outro Povo pequeno, baptizámos a alguns, que havia, e nos seguiam, os quais vendo-se  / p. 61 / servidos nos deixavam, e não havendo no dito Povo comodidade de hospedagem, com os costumados trabalhos, continuámos a caminhar, subindo uma altíssima serra. No cume dela, quando cheguei, tendo-se adiantado os dois Padres companheiros, os achei postos em terra, e os pretos que os levavam, fugindo. Aí foi preciso gritar contra eles, e, posto de joelhos, com as lágrimas nos olhos clamar ao Senhor, vendo-nos tão desamparados no meio de terras; e o Senhor se compadeceu de nós, e moveu o coração de alguns pretos mais quietos, que nos levaram daí por diante melhor, até à Banza onde ficámos, encontrando caminhos tão horríveis, que apenas os homens podiam dar um passo com muito trabalho.

Chegando perto da dita Banza, nos veio buscar o Infante Senhor dela, e se mostrou muito amigo e desejoso de nos ver; mas sendo este Povo também pequeno, logo no mesmo dia e no seguinte, baptizámos os que havia, porque ainda daqui tinham recorrido à Banza aonde estivemos mais tempo, e sendo o sítio pouco acomodado para doentes, procurámos passar adiante, procurando eu sempre sair último para irem os dois Padres companheiros diante de mim, que como mais forte poder acu / p. 62 / dir às suas necessidades, e obrigar os carregadores a levá-los. E não faltou da parte deles bastantes rebeldias, assim para mim, como para os outros Padres, que às vezes os punham em terra, outra vez arrimavam a rede a uma árvore, e os deixavam, como eu os encontrei, e então os fazia levar, ou por bem, ou por mal, que às vezes aproveita, como a experiência me ensinou; e não fazia mais, que tirar o cordão e corrê-los com ele, e me haviam concebido tal respeito, que me temiam e faziam o que lhe mandava; isto eu que era um pisco para eles, e vendo-me muitas vezes só no meio de um exército de pretos, mas Deus era servido, que nem eu temia, nem eles para mim faziam a mínima acção; e isto mesmo lhe fazia quando estavam em algumas danças, e bailes diabólicos e bastava sentirem que eu ia para tudo desaparecer; o que eu fazia com o zelo da honra de Deus, e por lhe tirar muitos abusos, e os fazer mais respeitosos para os Padres, fazendo-lhe logo algumas práticas, e mostrando-me muito seu amigo, pelo que eles muito se me afeiçoavam, ganhando entre eles autoridade para seu bem, e outras coisas que mais adiante referirei.

Chegámos depois de alguns trabalhos a um Povo grande, passando  / p. 63 / primeiro uma grande Lagoa, por cima de um pau, com alguns riscos; mas, bendito Deus, passámos sem perigo, e logo entrámos em um grande e espesso bosque, que, por ser o primeiro em que entrámos, nos causou algum horror, que ao depois temos passado muitos. Dentro do Bosque, estava o tal Povo, e Banza grande, segundo o costume neste País aonde vamos, que é fazerem as suas Povoações dentro dos Bosques, que lhe servem de muralhas contra os inimigos, e ali vivem mais seguros pela espessura das árvores, e dificultosos caminhos.

À entrada do Bosque para a dita Banza, tinha mandado pôr o Governador e Senhor dela, uma boa guarda com soldados armados, e com o seu Capitão, com caixas e outros instrumentos para nos receber, o que fizeram com todas as honras, e seguiu a guarda atrás de nós até à casa da nossa hospedagem, e uma grande chusma de mulheres e meninos cantando a Avé Maria, ajoelhando todos diante de nós, como se vissem o Rei do Céu; e, se umas coisas nos entristeciam, outras nos consolavam, vendo a grande alegria, com que nos recebiam, ainda que as retiradas eram custosas, e os caminhos. O Senhor da dita Banza, que se chamava Comma, é um grande fidalgo, intitulado Marquês de Bamba, homem velho, de bom  / p. 64 / propósito, cavalheiro do hábito e Capitão da Igreja, título que costumam dar os Vigários Gerais deste Reino, a alguns grandes que fazem alguns serviços à Igreja, e de que eles muito se prezam. Este Fidalgo antes nos tinha mandado visitar, e nos tinha escrito por meio de um Fidalgo que tem consigo, e sabia escrever menos mal o Português, e entendê-lo, que nós fizemos Mestre da Igreja, e destes são raros no Congo, pela grande falta que tem havido de Padres.

Nesta Banza nos demorámos mais tempo, por ser grande e ter muitos Povos circunvizinhos. E é indizível o quanto aqui se trabalhou em administrar a Sagrada Penitência, o Matrimónio e o Santo Baptismo, principalmente este, sendo tanto o concurso que vinha a nós, que por evitar a morte de alguns meninos pelo aperto, era preciso pôr guardas a uma casa, e entrar a um e um para se baptizar, vindo também adultos muitos homens, e mulheres, já com filhos, baptizar-se, e os filhos, gastando nisto a manhã até muito tarde, e de tarde quase até à noite, chegando a baptizar de uma vez duzentos, ou pouco menos ou mais, e daqui ir administrar o Sacramento da Penitência, e pouco tempo havia para comer e bem fomos conhecendo a necessidade que este Reino tinha de Missioná / p. 65 / rios, e isto era, o que muito nos consolava no meio de tantos trabalhos, o vermos, que padecíamos, mas trabalhávamos pela glória do Senhor, tirando muitas almas do cativeiro do demónio, e muitos já bem crescidos em anos, assim pelo Baptismo, Penitência e Matrimónio. Aqui recebemos as costumadas visitas, e presente do Marquês, o que agradecíamos com algumas devoções, que mais não tínhamos.

Depois de vermos que não havia maior necessidade de demora nesta Banza, pretendemos seguir a nossa viagem, experimentando sempre os mesmos trabalhos, e repugnâncias de nos levarem, e fomos a outro Povo pequeno pernoitar, seguindo-nos muitas mulheres de outras povoações, que encontrávamos com os seus filhos para lhos baptizarmos. Pouco nos demorámos ali, satisfazendo sempre ao nosso ministério; e fomos para outro Povo maior chamado Bamba. Algum tanto, antes de entrar na Banza, nos veio buscar o Infante e Senhor dela com muita gente, e os costumados instrumentos, e nos recebeu com  alegria, e nos presenteou e visitou com os melhores vestidos adornado. Aqui nos demorámos também mais pelo muito, que tínhamos que trabalhar em o nosso ministério. Cessando este, mais quisemos seguir a nossa viagem, o que fizemos com alguma rebeldia da gente; que  / p. 66 / eram fáceis e gostosos em nos receber com alegria, e parece só queriam que todo o tempo estivéssemos no seu Povo, e deixássemos os outros, e também por pouco amigos de trabalhar.

Saímos da dita Banza e no caminho nos saíam de alguns Povos muita gente para se baptizar, outros saíam ao caminho, admirados de nos verem neste caminho. Passámos um grande Rio, mas menor que o Loge,  já referido, e vadiável, assim por cima de um comprido pau, como pelo vau por onde passámos aos ombros dos pretos,  que nisto mostravam algum regalo, porque, havendo de passar algum Padre, um o tomava aos ombros, outros o cercavam para melhor o segurar, não temendo meterem-se ao Rio, para que o Padre não tivesse algum perigo, o que sempre experimentámos nas passagens ruins, e de alguns Rios menores, metendo-se alguns por debaixo das redes, e levantando-a com o Padre, para que nem ainda lhe tocasse a água.

Passado o Rio, alguns mais rebeldes nos fugiram, outros nos punham em o chão, dizendo que lhe déssemos contas, se não nos deixavam, o que alguns sempre faziam, ainda depois de convidados, pelo que padecemos alguma coisa, ficando-nos algumas cargas junto do Rio, as quais logo mandámos buscar  / p. 67 / pela  gente do seguinte Povo, do qual já nos vinham a esperar, vindo diante um Fidalgo, que morava perto da Corte, e só vinha a esperar-nos, e dava saltos de alegria de nos ver, e, sendo moço, se intitulava o Acólito da Igreja, este mandou a sua gente nos levasse sobre seus ombros, e nos deu a notícia que o Marquês de Quindoque, Senhor da vizinha Banza, nos vinha a esperar ao caminho. Chegou, e nos recebeu com grande contentamento, acompanhado de muita gente e instrumentos músicos, e os que vinham tocando se apartaram para uma parte do caminho, e a cada parte, quando passava algum Padre tocavam instrumentos, como no Reino se costuma às pessoas Reais, e passando o último Padre nos seguiram tocando até à Banza, que ficava ainda distante.

Chegámos à Banza do dito Marquês, a qual se chama Songo, e por ser grande Povoação, nos demorámos o tempo necessário para administrar o Santo Baptismo. Neste Marquês, achámos grande urbanidade, e nos visitava com frequência com o costumado presente, e lhe fizemos um ofício de defuntos, pela alma de seus Pais, e nos deu um pequeno escravo de esmola.

Saímos desta Banza, e fomos pernoitar a outro Povo pequeno, padecendo sempre novos incómodos: aqui neste Povo  / p. 68 / pouco nos demorámos, mas parece-me fizemos muitos serviços ao Senhor, baptizando e administrando a Penitência e Matrimónio, a quem bem necessitava disso.

Daqui passámos a outra Banza maior, chamada Budila, e o Senhor dela um grande Príncipe do Congo, que já antes nos tinha mandado visitar. Neste caminho também padecemos muito, segundo o costume da gente, e do seu génio, de sorte que a mim e ao P.e Dr. André nos puseram no mato aos raios do Sol, sem haver quem nos levasse, ameaçando-nos uma grande trovoada e muito padeceríamos se não viesse gente da Banza para onde íamos, que nos vieram receber ao caminho, e neste ainda passámos por um povo pequeno, e o Infante nos recebeu com alegria, as mulheres e meninos, cantando a Ave Maria, e ali mesmo nos fez um presente que repartimos pelos carregadores.

Chegámos à sobredita Banza Grande, e foi o primeiro Povo onde encontrámos Igreja, ainda que de palha, bem arruinada, com seu sino, que se repicou muito bem à nossa chegada, e na tal Igreja aonde primeiro fomos, achámos uma grande imagem de Nossa Senhora, ainda que com pouca decência, como pede a pobreza deste Reino, sem Padres. No dia seguinte, que caía o da Festa de S. Simão,  / p. 69 / não  dissemos Missa, por ter ficado o vinho e o altar atrasado,  por causa da grande chuva, e trovoada, que logo caiu tanto que chegámos, de que o Senhor nos livrou. No Domingo disse Missa, e achei na Igreja um bom turíbulo, e naveta de prata, resquícios que ali tinham ficado por ali assistir um Clérigo chamado Padre Simão, de que ainda a Banza conserva o mais conhecido nome, de Banza do Yanga ou Padre Simão.

O Senhor desta Banza é dos mais estabelecidos neste Reino, e nos recebeu com grande devoção, e nos hospedou em uma casa, a melhor que temos encontrado, por ter portas de pau, que as mais são de palha, e paredes de terra, mas telhado de palha: o Príncipe nos visitava com frequência, e nos presenteou melhor que os antecedentes. Ali nos demorámos mais tempo, pelo muito que tínhamos que exercitar o nosso ministério, e esta é a última Povoação que encontrámos no Ducado de Bamba, que o divida um grande Rio chamado Mbrize, e o maior que temos encontrado, e só aqui lhe excede o Zaire, Rio que fica da outra parte da Corte.

Da dita Banza continuamos a nossa viagem até o Rio Mbrize, que tínhamos de passar e até ele fomos com felicidade; e passando o Rio em uma grande canoa, cantando a Ave Maria, os de uma e outra parte e desde aqui prin / p. 70 / cipiámos a sentir novos e grandes trabalhos, porque os pretos nos queriam deixar, e foi preciso dar-lhe dádivas para nos levarem pouco adiante, porque logo veio sobre nós tão grande chuva, e trovoada, que ficámos quase de todo alagados, não tendo nem casa nem amparo algum, se não os troncos das árvores; e temíamos algum mal, pela nossa moléstia; e muito tivemos que oferecer ao Senhor, e mais para diante, porque a chuva continuou e os maus tratamentos. Logo junto ao mesmo Rio, nos mandou gente para nos levar para diante o Marquês de Bemba, irmão do Rei do Congo, a quem tínhamos escrito para isso. Veio a gente quando estávamos mais necessitados, mas pouco nos aproveitou, porque os carregadores depressa se enfastiaram, ou pelo trabalho, ou pelo génio; levando-nos por dentro de um bosque, e por um tão alto cabeço, e maus caminhos, que quase nos levavam de rastos. Ao depois nos punham frequentemente no chão sem repararem ser sobre água que pelo caminho corria, e se nos queixávamos, se riam de nós, e festejavam o caso. Ocasião houve em que encontrei o P.e Dr. André posto no chão todo molhado, e o P.e João Gualberto da mesma sorte sobre as regadeiras da água, e a mim me faziam o mesmo; e em uma ocasião me vi quase todo desamparado no meio do Sertão,  / p. 71 / posto em terra, e passando muitos para diante aliviados da carga sem de mim fazerem algum caso; tanto que vendo-me desamparado havia muito tempo, sem poder andar para diante a pé, assim pela muita fraqueza, como pelos muitos Rios e Lagoas, me tirei da rede e me pus de joelhos com as mãos, e olhos no Céu, chorando o tal desamparo e pedindo ao Senhor a sua misericórdia e fortaleza, de sorte que um Preto, que havia ficado compadecido, correu adiante a chamar outros para me levarem e os Padres companheiros sempre foram padecendo iguais desamparos.

Com estes maus tratamentos, chegámos a um Povo pequeno, e por ser quase noite não pudemos passar adiante. Ali é indizível o que padecemos e cada um de nós referia o que havia passado no caminho. Neste povo nos meteram em uma pequena casa, aonde não achámos algum abrigo; molhados, tremendo de frio, e de fome, porque em todo o dia não havíamos comido, e foi preciso acender fogo, e pedir por caridade alguma tanga, porque o nosso fato todo estava molhado, e nem isto achámos, pelo que eu vendo um total desalinho, entrei por casa de um preto, e lhe tirei uma esteira e fogo para a nossa casa. Era noite fechada, a fraqueza muita, e tanta que nos obrigou a comer alguns ovos assados, que era o que mais pronto havia. A noite se passou  / p. 72 / com trabalho, porque as camas estavam molhadas, e os vestidos, ainda os mais interiores; isto com a indigesta comida, que bem podia fazer a doentes? Contudo, no meio destes trabalhos, nos consolávamos em o Senhor, porque por sua causa padecíamos, e Deus nos dava fortaleza, de sorte, que lembrando-nos do que padecíamos, nos ríamos uns com os outros, e nunca desfaleceram os nossos corações, esperando que o Senhor havia de recompensar nossas fadigas.

Vindo a manhã no dia primeiro de Novembro, dia memorável de todos os Santos, partimos logo nas mesmas redes molhadas para a Banza do Marquês de Bemba já nomeado irmão do Rei, esperando ali termos algum alívio. A manhã estava chuvosa, o caminho custoso, a Banza dentro de um grande Bosque, de difícil passagem pelas Lagoas e montes; mas ainda que com trabalho, chegámos com felicidade. O dito Marquês nos veio receber com toda a sua gente armada, fazendo várias fuscas, e as mulheres e meninos cantando a Ave Maria, fomos bem recebidos; e aqui determinámos estar três dias, mas estivemos três meses. Neste mesmo dia, quis dizer Missa, por só me achar capaz, de a dizer, e os Padres companheiros virem muito doentes, mas em um dia tão grande não disse, porque o vinho tinha ficado atrás, e foi preciso fazer-se diligência, e não veio se não sobre a tarde, o que nos causou alguma  / p. 73 / pena; mas no dia seguinte, pude celebrar e fazer o Ofício de defuntos com um Padre companheiro, e alguns Mestres da Igreja, que se acharam, que é a primeira coisa que aprendem.

Hospedaram-nos em uma casa pouco acomodada para doentes, e rota, tanto que brevemente dela nos mudámos por causa de quase uma inundação e nos veio buscar o Marquês para uma sua, que só lhe servia de alpendre para a entrada da sua própria casa, porém pouco mais melhorada, e ali estivemos três meses.

Estas terras, desde  Rio Mbrize até muito perto da Corte, se intitulam terras da Rainha, divididas em muitos Ducados, e Marquesados, dos quais é um o de Pemba, e Senhor dele o dito irmão do Rei chamado D. Afonso de Leão e filhos, e assiste na mesma Banza, aonde estivemos os três meses, chamada Micondo.

Nesta Banza ainda padecemos muito até ao Janeiro seguinte: o sítio é triste em uma cova, metido dentro de um Bosque, muito quente e húmido; triste habitação para um dia; e que seria para três meses? Aqui não nos faltou o susto de todos os dias de horrorosas trovoadas, de que todas estas terras abundam, muito maiores que no Reino, quase a maior parte do ano, principalmente nos meses de Outubro,  / p. 74 / Novembro e Dezembro, etc., e nestes mais, como também em Abril e Maio, e só há alguma interpolação  desde Junho até Outubro. Fora desta grande mortificação em a qual sempre o Senhor nos tem livrado de algum mal, havia moléstias do corpo, e muita falta do necessário. Eu tive aqui uma valentíssima dor ictérica, que uma vez no Reino me afligiu bem, e aqui me fez o mesmo por quase oito dias, e com alguns pequenos remédios se ausentou pela bondade de Deus, ainda que nos seguintes meses me repetiu, e um grande corrimento e dor de ouvidos e cabeça por mês e meio, e só Deus era o médico, que sem eu saber o que fizesse, me tirava todo o descanso, mas veio a acabar-se; mais uma dor de garganta, e esquinência, em ocasião que nem uma pedra de açúcar havia; e outras moléstias, que no Reino causariam cuidado, e aqui só Deus as cura, como também as dos outros Padres companheiros, o Padre Dr. André de cama, pernas inchadas, convulsões, etc., o P.e Fr. João, dor de peito, obstrução, pés inchados, e todos sem algum remédio: Bendito Deus, hoje se acham melhores.

As faltas do necessário não eram menores, assim do que tínhamos  / p. 75 / trazido, porque muitas coisas tinham ficado atrasadas, outras em o tempo se haviam acabado, principalmente o azeite e pão, alumiando-nos com manteiga, que a nossa necessidade nos ensinou a tirar de algum porco, que nos davam, comendo farinha de pau, e de milho por muito tempo, e ainda às vezes esta vez de pão nos faltava, e mandávamos cozer abóbora para nos servir de pão. Ocasiões houve, que estando eu doente, e não podendo por muitos dias comer, e só levar alguma substância de galinha, apenas havia um pequeno frango, que me dava  caldo e outro Padre doente comia o frango. Também de outras coisas que havia na terra, havia muita falta, às vezes não tínhamos que comer no seguinte dia, estávamos bem à divina Providência, e ainda mais na quaresma, em que apenas havia alguns poucos legumes, e com muita parcimónia, e quando havia algum ovo tínhamos banquete; isto não só aqui nesta Banza, mas nas outras o mesmo;  mas, Bendito Deus, não temos morrido de fome; este Senhor, quando nos víamos mais necessitados, nos mandava por meio humano do que tínhamos necessidade, de sorte que muitas vezes dizia eu aos companheiros: Irmãos, temos necessidade deste , ou daquele alimento; e logo, ou no mesmo  / p. 76 / dia, ou no seguinte, nos vinha o que queríamos, do que nós muitas vezes admirados, dávamos graças ao Senhor.

O que mais nos afligiu foi a falta, que já tínhamos de hóstias, e principalmente de vinho para as missas, que só para estas, que nós não o bebíamos, pelo que estivemos alguns meses dizendo Missa só nos Domingos e dias Santos, e, estando já todos capazes de as dizerem, o fazíamos alternativamente, vindo cada um a dizer missa, só de três em três semanas, ou pouco menos; isto foi o que me dava grande dor; e ainda foi preciso usar de vinho e hóstias pouco capazes, que só podiam servir em tal necessidade e por não terem ainda passado a outra espécie; porque as hóstias já tinham oito e nove meses de feitas, e o vinho um no-lo tinham furtado, outro se tinha feito vinagre, e apenas tinha ficado algum, que guardávamos muito bem para as poucas missas, e mandar-se a Luanda era difícil pela longitude, e por não termos quem fosse;  até que a necessidade nos obrigou a pedir a um preto, que havia vindo em nossa companhia, fosse com carta nossa representar ao Senhor General e Senhor Bispo as nossas necessidades; e o Senhor General nos mandou por gente do distrito de Angola algum socorro, depois de prolongadas necessidades, e  / p. 77 / não vindo cera para as missas, que também estava acabada, por esquecimento do procurador a quem se tinha encomendado, ficámos quase na mesma necessidade e parece que o Senhor quer ainda mais provar a nossa paciência. Como o tempo que estivemos na sobredita Banza veio a ser tão prolongado, principiámos a ocupar-nos muito no nosso Ministério, e em outras coisas particulares, e exercícios da Religião; baptizando todos os dias grande concurso de pequenos, e grandes, administrando com abundância a sagrada Penitência, e Matrimónio, fazendo vários Catecismos e práticas, celebrando com a possível solenidade a festa da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, e a do Natal com suas Novenas, e em a noite Natalícia do Senhor, assistindo o Povo toda a noite, cantando na sua língua vários louvores ao Senhor, concorrendo ali gente de todas as partes, tendo-se formado para isto uma Igreja, ainda que de palha, nós a adornávamos com flores, e bons panos no modo mais decente, e possível, e bem seria quanto isto aproveitava, porque se tiravam muitos abusos e superstições, assistia o povo ao Santo Sacrifício da Missa, e mais funções da Igreja, e à Santa Doutrina, que se ensinava, cantando-se vários terços a Ma / p. 78 / ria SS.ma, e outras devoções, e o povo assistindo a tudo, principalmente na Igreja, talvez com mais devoção, que em o Reino; e por estas demoras que fizemos, assim neste, como em outros Povos adiante, conhecemos a grande necessidade que eles têm de Padres, que quisessem padecer alguma coisa por Deus, e deixar as comodidades do Reino,  e as suas vãs escusas; e quanto aproveitariam se houvessem bastantes para se repartirem, ao menos pelos maiores Povos; porque depois da nossa assistência mais prolongada, já o povo ia despindo a antiga rusticidade, criava amor à Religião, e o conhecíamos muito diferente do princípio, porque até na frequência dos Sacramentos muitos se especializavam; e isto é que mitigava o muito que padecíamos e nos consolava no meio dos nossos trabalhos.

Não se limitava o nosso zelo a esta Banza, saíamos a outras a acudir às almas. O P.e Dr. André foi outra vez a Budila já referida a administrar o Santo Matrimónio a alguns que o pediam e o Baptismo, e Penitência a muitos.  Eu fui a outra chamada Quibenga a acudir a um enfermo, e ali confessei e baptizei com abundância, tanto que  / p. 79 / até pelo caminho vim sempre ocupado neste santo ministério, saindo dos matos muitas mulheres e homens, com os seus filhos nos braços, com água, já preparados para eu lhos baptizar, o que fiz muitas vezes, e ocasião houve em que foi preciso entrar em um pequeno Rio e baptizar grande povo, que me seguia, o que me dava tanta consolação, e alegria, que não a trocaria por todos os Impérios do mundo.

Ora, a causa por que nos demorámos tanto nesta Banza do Marquês D. Afonso, e nas seguintes, foi porque o Rei estava ausente da Corte, e queria entrar ele primeiro, o que muito lhe custou por estar em ela um levantamento, que o perseguiu; mandámos ao Rei um Embaixador para lhe darmos parte da nossa chegada e o apressar; sim, levantou donde estava mas tão devagar, que de medo ou por outra causa, mesmo no caminho se deteve. Aqui nos víamos aflitos por uma e outra parte, e não sabíamos de nada, do que se passava, e temíamos algum engano, porque tudo nos ocultavam.  Até o que eles chamavam levantado nos mandou uma tal carta,  / p. 80 / em que dizia ser ele o Regente do Reino, e que aqueles de cuja parte nos achávamos eram injustos agressores, e que era vivo um Dom Pedro Quinto Rei do Congo verdadeiro, o qual ausente lhe tinha a ele entregado o governo do Reino e guarda da Corte, e outras coisas mais dizia, em carta bem feita que nos moveu alguma coisa, e nos fez desconfiar mais; o que tudo diziam, os que nos tinham da sua parte, ser falso, mas confessavam ter havido o tal Rei D. Pedro, mas que era já morto, o que eles não sabiam e procuravam vingar-se do portador da carta, ainda que não a tinham ainda visto, julgavam ser algum desengano, que nos dava, e nos descobria o que eles nos ocultavam. Assim que o pobre portador saiu da nossa casa, quando logo o cercam todos os pretos da Sanzala, ou Banza, e outros de fora com espingardas e alfanges para lhe tirarem a vida. Ouvindo nós o ruído, saí eu, e o vi prostrado por terra todo enfiado, temendo já o perigo que lhe estava eminente. Meti-me por meio de todos, desprezando o perigo, que me podia suceder por livrar o meu próximo,  gritei aos pretos  / p. 81 / que com a minha presença alguma coisa, mas pouco, se aquietaram,  e não se abrandavam; peguei no homem e o levei para nossa casa, e os pretos todos alvoraçados nos cercaram a casa, e foi preciso mandar, para os aterrorizar, publicar pena de excomunhão a quem ofendesse o homem; com estas razões e enfados que tivemos com o Senhor da Banza, e as grandes razões que demos da inocência do homem, se fez aquietar o Povo, que, ainda assim, se saísse de casa, o esperavam para lhe tirarem a vida, pelo que foi primeiro ficar a nossa casa até alta noite, em que o Povo se recolheu, e foi guardado em outra casa até o dia seguinte, que nós respondêssemos, segurando nós a vida do homem. No dia seguinte, foi preciso fazer uma carta em comum, que não tocasse em coisa particular do que nos mandavam dizer, em que só dizíamos que nós só pretendíamos o bem espiritual do Reino, nem nos metíamos  em temporalidades, que fosse Rei quem tivesse justiça, e outras coisas semelhantes, porque de outra sorte não iria a  / p. 82 / carta, que eles sempre quiseram ver, que se fechasse na sua presença, que a tanto está sujeito um Missionário, que se o Senhor nos não fortalecesse nesta, e outras muitas ocasiões, desfaleceríamos; enfim, recebeu o homem a carta e se retirou e foi preciso fazer que o acompanhassem alguns grandes, que acomodassem o Povo, que sempre estava disposto para o matar.

Depois de quase um mês, veio a resposta da Corte, mas os pretos da dita Banza às pancadas afugentaram ainda de longe o portador, do que nos mostrámos bem sentidos contra o Senhor da Banza, que ainda que o quis negar, nós o soubemos de certo, querendo-se também vingar contra uns mesmos seus filhos, que deram a notícia, e foi preciso que eu trabalhasse muito para lhe tirar este intento.  Ainda tornou a carta à seguinte Banza para onde fomos, mas sem nós o sabermos fizeram o mesmo ao portador, chamando aos da Corte enganadores, quando eles bastante nos enganavam, e nós lhe protestávamos sempre, que não éramos parciais e  / p. 83 / éramos Pais espirituais  de todos, e fosse Rei quem tivesse justiça. Enfim, a carta sempre veio à nossa mão noutra Banza mais adiante, como direi em seu lugar. E estas coisas são as que mais nos afligiam, que o trabalho espiritual nos consolava, e nos enfadava muito ver uma tal inimizade, que da outra parte não deixavam vir a nós, nem receber o Santo Baptismo, nem outros Sacramentos, pelo que nós muito gritávamos, mas sem proveito.

Chegado o nosso Embaixador que havíamos mandado ao que diziam era o Rei com o nome de Dom José Primeiro, e dizendo já tomava o caminho da Corte, quisemos também sair da dita Banza, para entrarmos com ele, porque já nos enfastiávamos de tamanha viagem, de que já contávamos seis meses, e juntamente por acudir àquela gente da Corte. Saímos depois de três meses completos, no dia primeiro de Fevereiro de 1781, e passámos no mesmo dia a outra Banza grande chamada Mateque, de outro  irmão do Rei Dom José, com o título de Marquês de Songo, que também nos recebeu com alegria.

/ p. 84 / Nestes dois irmãos do dito Rei, temos sempre achado grande familiaridade. Estes foram os que em nome do Rei seu irmão, mandaram pedir Padres ao Senhor Bispo, e os que segunda vez mandaram, cujo Embaixador encontrámos  em o Rio Loge, como fica dito, e os que nos mandaram buscar a Bamba. O irmão mais moço chamado D. Afonso, em cuja Banza estivemos os três meses, é o mais atencioso, urbano, cortês, que temos encontrado de costumes,  e urbanidade de Português; escreve este, e o lê, e entende alguma coisa, de grande estatura, e poderoso, mas humilde e sujeito à Igreja, de que é Mestre, ou Intérprete. Muitas vezes conhecíamos a sua sujeição aos Padres, porque, sendo preciso repreendê-lo, algumas vezes pelos costumes das suas gentes, e por outras coisas semelhantes, ouvia tudo com humildade, sem replicar palavra, e muitas vezes se prostrava por terra, e sempre quando o louvávamos, ou nos vinha tomar a bênção todos os dias, pela manhã,  e não nos tem desamparado, e nos acompanhou até à Corte pelos caminhos com a sua gente: o outro  / p. 85 / Irmão mais velho chamado D. André, nem tanto. Por ser mais velho, e doente e em geral, todos os maiores do Congo nos receberam com muitas honres, e agrado, e nos escreviam, os que sabiam e nos visitavam, e a razão de sermos maltratados pelos caminhos dos carregadores, é porque aqui se tem introduzido a vaidade de só os escravos levarem cargas, e como estes, pela maior parte são de pouca consideração, e pouco amigos do trabalho, por isso fugiam dele, ainda [que] soubéssemos que os Senhores nos queriam bem servidos; e também pela pouca sujeição que lhes têm, que nem eles mesmos, muitas vezes, não querem servir; e há tal grande, como o tal D. Afonso, que tem cinquenta povos de escravos, como nos diziam, e muitas vezes não acham quem o servissem, e para o mais que querem os escravos é para os defenderem em tempo de guerra, e contudo nunca nenhum pequeno, nem grande, nos faltou jamais ao respeito; e os Grandes Fidalgos não se envergonham de nos tomarem em seus ombros em as redes, que em outra carga, nem eles nem os forros não pegam, principalmente , quando íamos  / p. 86 / chegando às suas Povoações, e não em os caminhos, mas ainda algumas vezes nestes, me carregavam muitos grandes Fidalgos, no que têm grande honra e mostram a sua sujeição, e devoção a seus Pais Espirituais, como nos tratam, mas sempre com desejo de lhes darmos alguma coisa.

Dessa Banza aonde chegámos do segundo irmão do Rei, estivemos por novas demoras ainda dois meses, e vendo que o Rei ainda se demorava, no mesmo tempo, tornámos a mandar o Embaixador, que trouxe a notícia de que o Rei já estava perto da Corte e mandava pedir um Padre para o confessar e depois entrar. Mas como aqui se não costumam executar as ordens Reais, como em Portugal, tomaram outro Conselho, que não fosse só um Padre, mas fôssemos todos com grande Povo para entrarmos na Corte, sem temor, diziam eles, dos inimigos, mas ficou tudo como dantes, fazendo vários conselhos diferentes, segundo o seu costume, e nós demorados, padecendo muitas faltas, principalmente na quaresma, como já disse, moléstias, etc., de sorte que depois de dois meses completos foi preciso enfadar-nos para nos levarem adiante, o que fizeram dizendo-nos vínhamos a estar no caminho em uma Banza  / p. 87 / grande de um Primo do Rei, e que ali descansaríamos três dias, mas quase chegou a três meses, como na outra.

Para esta seguinte Banza, que ficava no caminho, chamada Bumba, viemos no dia 3 de Abril. O Senhor da dita Banza é Primo do Rei, e se tratam por Irmãos, segundo o seu costume, é um grande Infante, e Príncipe do Congo, com o título de Capitão da Igreja. Aqui ainda padeci grande dor ictérica, e todos algumas faltas; aqui fomos visitados de dois grandes do Congo, Marqueses, , e Conselheiros Reais, e aqui nos mandaram os da Corte a carta já pelos desta parte repudiada, e veio por eles mesmos, porque, tendo nós escrito aos da Corte uma carta, em que lhe aconselhávamos a paz, e que não seguissem desígnios de guerra, que empreendiam, e que deixassem entrar o tal D. José 1.º, que todos aclamavam Rei, e que o antigo Rei nos diziam ser morto; eles nos mandaram a antiga carta expulsada  por resposta, em que nos diziam queriam a paz, que nós lhe aconselhávamos, e que eram filhos da Igreja, e muito obedientes, e que nos desejavam muito na Corte para o bem das almas, mas que o D. Pedro 5.º era vivo, e que os desta parte nos enganavam, e desta sorte ficávamos sempre perplexos. Sim, desejávamos ir para a Corte, mas os desta  / p. 88 / parte não nos deixavam passar, sem primeiro ir o seu Rei aclamado Dom José, e nós sofrendo. Os da Corte nos mandaram dois escravos pequenos de presente, e os desta parte com alterações não queriam que os recebêssemos; e desta sorte, não sabíamos o que fizéssemos. Se não recebíamos os escravos, temíamos que os da Corte se injuriassem e nos tivessem por parciais, o que temíamos; se os recebíamos, incorríamos na indignação dos desta parte; mas enfim, para evitarmos discórdias, e mostrarmos o nosso desinteresse, os tornámos a remeter; e mandámos dizer aos da Corte que nós o que queríamos era a paz, que julgassem  todos quem tinha justiça para ser Rei, e não aceitávamos a sua oferta, porque não vínhamos ao Congo fazer contrato de escravos, porém sim a salvação das almas, que para ganhá-las padecíamos tantos trabalhos.

Depois de estarmos nesta Banza quase dois meses, enfadados já de esperar, aflitos sempre de viagem , de que já se contavam dez meses, tudo desarranjado, enganando-nos cada dia com promessas sempre falsas, não podendo todos ir por não ficar desamparado o que trazíamos, do que já nos haviam roubado bastante, arrombando as mesmas caixas, e ainda furtando do mesmo presente do Rei. O P.e Dr. André se determinou  / p. 89 / ir adiante, até onde se achava o que diziam era o Rei, para saber tudo de certo, e fazer que se recolhesse à Corte, e para isto foi preciso sair a pé com alguns pretos que nos acompanhavam, mas logo lhe mandaram gente para o levar, vendo a sua resolução; e os da Povoação seguinte, para onde foi, lhe vieram buscar alguma coisa mais necessária, e o acompanharam em direitura até onde dizia se achava o novo Rei aclamado, indo baptizando pelo caminho com grande abundância, e fazendo outros serviços de Deus, e do nosso santo ministério. Tendo o dito Rei notícia que o Padre ia a encontrar-se com ele, lhe mandou uma Embaixada para que o fosse esperar a certa Povoação, ordenando o mesmo Rei ao Senhor dela, que era um grande Fidalgo, e parente do Rei, fosse buscar o Padre, e o tivesse em sua casa, que ele aí ia encontrar-se com ele.

Chegou enfim o Rei verdadeiro chamado Dom José Primeiro à sobredita Banza, aonde se achava o Padre, e vinha com todo o seu acompanhamento Real, levado em sua rede aos ombros dos pretos, coberto com um grande Guarda sol, seguido de muita gente armada, caixas de guerra, e vários instrumentos musicais da terra, a Rainha, Infantes e mais pessoas Reais; e logo depois de pouco tempo, que mandou chamar ao Padre. Este o achou em sua casa de palha, como todas as do Reino, mas com vários labirintos até se chegar a ele  / p. 90 / Rei, que o recebeu com agrado, mas com todo o ar de magestade, pouco ou nada diferente dos Reis da Europa, e conheceu o Padre ser este o verdadeiro Rei do Congo aclamado de todo o Povo, principalmente dos grandes, que todos aí corriam a beijar-lhe a mão.

Procurou logo o Padre que o Rei mandasse ordem para que eu, e meu companheiro Religioso Terceiro que havíamos ficado na Banza já nomeada, chamada Bumba, viéssemos para onde ele estava, o que o Rei fez logo, mandando ordem a seus Irmãos, em cuja companhia estávamos, para que nos trouxessem logo, e que nos acompanhassem com grande número de gente armada para nossa defesa, ainda que esta ordem não foi executada com a presteza, que o Rei ordenava, sofrendo nós em todo o tempo, que ali ficámos [com] grandes incómodos. Neste tempo todo, não nos faltou muito que fazer em o nosso ministério, e o Senhor da Banza não tinha muita vontade que daí fôssemos tão depressa, ainda que já contávamos dois meses e meio, ali demorados, porque tem grande gosto e vaidade, de se dizer que os Padres estão nas suas casas.

Eu, vendo que não havia  / p. 91 / já tanta necessidade de ali estarem dois Padres, quis tornar ao Ducado de Bamba a fazer missão, por termos ali passado com mais pressa. Mas os Irmãos do Rei não quiseram, porque nos guardavam, mais que uma moça donzela se guarda no Reino; e tinham medo que nos furtassem, porque todos nos queriam; mas isto não foi o que me embaraçou, mas sim o meu companheiro, que chorando me disse, se sentia eu na minha consciência o devia deixar só, estando ele, como estava, sempre com moléstias, o que me enterneceu, e deixei para o diante a missão de Bamba.

Ambos, porém, desejávamos ajuntar-nos com o outro Padre companheiro, e fazíamos bastantes diligências com os Irmãos do Rei, que nos levassem como ele ordenava, e demorando-se ainda por ajuntar algum pequeno exército, nós nos determinámos a sair contra a sua vontade como o outro Padre, ou para desta sorte os movermos, ou não indo eles, seguirmos a nossa viagem até o Rei e aonde se achava o Padre; pelo que no dia 15 de Junho saímos da dita Banza para a povoação seguinte, acompanhados só de alguns pequenos pretinhos, que nos tinham dado, que nos levavam algum sustento, o Padre companheiro levado por dois pretos, que estavam connosco e eu todo o ca / p. 92 / minho a pé por caminhos ladeirentos de montes, e espessos bosques, e Rios, mas, graças ao Senhor passámos, ainda com trabalho, encontrando alguns pretos a cujos ombros passávamos os Rios e não o poderíamos fazer sós sem perigo.

Chegados perto da vizinha Povoação, o Senhor dela, que já era nosso conhecido, se veio encontrar connosco e mandou logo buscar tudo o que nos tinha ficado na Banza donde saímos; e na sua Banza estivemos dez dias, pelo muito que ali havia que trabalhar em o nosso ministério, sempre bem tratados pelo Senhor da Banza pelo seu bom agrado, e do que nos ofereciam nos sustentávamos; aqui não faltavam Embaixadas dos Irmãos do Rei para nos demorarem enquanto eles chegavam.

Chegaram finalmente e quase ao mesmo tempo vieram da parte do Rei três Fidalgos, pedindo satisfação pelo que nos demoravam, e trazendo ordens mais apertadas para nos conduzirem, o que fizeram no dia seguinte, não querendo nós sair no antecedente por causa do grande calor do Sol, que já fazia quando nos queriam levar.

Saímos no dia 25 de Junho experimentando quase sempre trabalho com conduzir o que nos era necessário, levando em nossa companhia mais de  / p. 93 / seiscentos pretos, mas pouco amigos de levarem cargas. No meio de todo este exército armado de espingardas bem carregadas, e alfanges, muitas Bandeiras de guerra arvoradas, caixas, e outros instrumentos bélicos, barris de pólvora e bala, íamos nós muito bem guardados: três eram os maiores Fidalgos, e Infantes, que nos acompanhavam, um era Irmão do Rei , já nomeado, chamado Dom Afonso; dois seus primos irmãos, e todos se tratam por irmãos, segundo o costume deste Reino, e todos tratam ao Rei por Pai, e o Rei a todos por filhos; além destes, outros menores Fidalgos e cada um levava a sua tropa de gente armada.

Chegámos no mesmo dia a uma Banza chamada Inga, e ali nos demorámos no seguinte dia pelo muito que tínhamos que trabalhar em o nosso ministério,  principiando logo que chegava a confessar, e baptizar, e administrar o Santo Matrimónio, e em todo o tempo até à partida, e o mesmo foi no seguinte povo, recebendo-nos todos com agrado. Deste segundo Povo, cujo Senhor tem o título de Marquês, homem velho e valoroso, saímos no dia 29 de Junho, dia de S. Pedro, depois de celebrar missa, e administrar seis vezes o Santo Matrimónio, perto ou mais de trezentos baptismos, e muitas confissões, passámos um grande Rio, e querendo eu passá-lo por cima de um  / p. 94 / pau, os pretos me vieram tomar sobre os ombros por não cair; passado o Rio, veio uma grande multidão a baptizar-se, o que fiz com grande gosto, repartindo logo por todos a oferta; por todo este caminho em um lugar estava um pobre coxo pedindo o Santo Baptismo, como o da porta do Templo pedindo esmola, e os que me levavam com pressa, e não queriam que eu me detivesse com o Baptismo. Eu, porém, que senti as vozes, gritei ao pobre, que esperasse que eu o baptizava, não tendo outra vista, nem outro medo, que de deixar aquele miserável sem a graça do Santo Baptismo. Saltei da rede, e chamando o pobre, e mais alguns que se queriam baptizar, examinados os grandes de doutrina, e instruídos os baptizei a todos , levando comigo o necessário para semelhantes ocasiões, e assim fiquei mais descansado; e o mesmo fazia outras vezes que foi necessário.

Ora este caminho, diziam eles, era o mais perigoso por passarmos por terras dos inimigos; e temiam algum choque, motivo por que nos levavam com pressa. Mas inimigos  / p. 95 / seriam deles, e não nossos, porque os que eles chamavam inimigos, eram nossos amigos também, e nos queriam em as suas terras, e estes, porém, que nos tinham da sua parte, nos não queriam largar até que todo o Reino se compusesse, entrando o seu Rei aclamado.

Passando neste caminho uma grande Lagoa aos ombros dos pretos, e com grande trabalho se acampou o exército, e sobre a tarde tornámos a caminhar. Quis o Irmão do Rei que ficássemos aquela noite em o Campo, pelo temor de uns povos inimigos, por onde havíamos de passar, e por ser, dizia ele, a porta por onde podia vir o exército inimigo. A isto não quisemos anuir por termos de ficar em campo descoberto, por causa do muito orvalho da noite, que neste tempo caía, cujo mau efeito já havíamos experimentado. Por isto, e pelo conselho de outro Fidalgo mais animoso, fomos adiante e chegando perto do primeiro Povo, mandaram adiante a metade do exército, e nos puseram no meio, ficando a outra parte em a nossa retaguarda, e todos com as armas  / p. 96 / levantadas, as caixas tocando a som de batalha, a bandeira sempre arvorada, passámos, sem impedimento de ninguém, e só alguns poucos pretos vinham ao caminho receber a nossa bênção.

Chegámos junto de outra Banza maior de um grande Fidalgo do partido levantado da Corte, e aqui temiam algum embaraço, mas nada de novo, antes, vendo os da Banza que iam Padres, correram às margens de um grande Rio, que tínhamos que passar, só para nos verem, e tomarem a nossa bênção. Passou grande parte do Exército por cima de um pau; outros, metendo-se ao Rio. Passámos nós pela tal ponte de pau com algum susto pegados aos pretos, que nos ajudaram a passar; entretanto, os da sobredita Banza nos esperavam de joelhos cantando algumas devoções; e, chegados que fomos à sua presença, nos tomaram a bênção, e bem sabiam que nós não éramos inimigos, mas Pais Espirituais de todos; contudo, o Senhor da Banza não nos veio receber por irmos na companhia de outros Fidalgos, que não eram do seu partido.

/ p. 97 / Sendo ali quase noite, ainda nos levaram para diante pelo temor sobredito, e viemos a pernoitar  a uma sanzala pequena, que ficava perto, e era do mesmo dito Infante. Ali se acampou todo o exército, e só nós ficámos em casa, e todos os mais divididos pelo mato. Houve logo de parte a parte embaixadas; isto é, entre os Fidalgos, que nos acompanhavam e o Infante, que ficava na Banza antecedente, e a deste era suspeitosa de guerra na mesma noite, pelo que os que estavam connosco lançaram Bando, para todos dormirem com as armas na mão, e os outros vigiavam, e toda a noite se ouviam as caixas, o que tudo nos inquietava, pouco acostumados a semelhantes estrondos, e desassossegos. Eu pedi muitas vezes ao Senhor e a sua Mãe Maria SS.ma a desejada paz; e, com efeito, graças a Deus, nada houve. Na manhã seguinte muito cedo baptizámos e confessámos o que havia, e logo levantámos com todo o exército, e até ao meio do caminho houve temor de inimigos, mas nada de novo, mas sempre se acautelavam e o seu temor todo era, que nos furtassem  / p. 98 / os da outra parte, que também nos desejavam, e os desta nos guardavam muito bem, e nos queriam ir apresentar ao Rei.

Chegámos com efeito no mesmo dia, que se contavam trinta de Junho do ano de 1781, depois de onze meses menos dois dias de viagem, e entrámos na Banza, aonde se achava o Rei e o nosso Padre companheiro, que se havia adiantado, o Padre Dr. André.  Entrámos com grandes Festas, e aclamações, e danças dos Pretos; e o Senhor da Banza nos visitou logo. O Rei, porém, nos mandou visitar e dizer-nos que não nos queria incomodar por virmos aflitos da jornada, que no dia seguinte nos falaria.

No dia seguinte mandou a nossa casa seu Irmão com os maiores Fidalgos, que ali se achavam e uma grande guarda de pretos armados, vários instrumentos músicos da terra para nos levarem à sua presença. Fomos com todo este acompanhamento à sua presença, levantando sobre nossas cabeças um grande guarda sol o Senhor da dita Banza, para por este modo nos fazer a maior honra, e o mesmo faz, quando é pre / p. 99 / ciso baptizar e está o Sol ardento.

Chegámos ao Rei, que achámos em sua barraca de palha, que são os panos da terra, bem vestido, com a coroa na cabeça, sentado na sua cadeira, quanto permitia o uso da terra, e a jornada, que trazia prolongada desde as suas terras, donde havia saído. Recebeu-nos com agrado, nós ajoelhámos diante dele, e lhe beijámos a mão, e logo levantados nos falou primeiro, dizendo-nos quanto estimava a nossa chegada, a que nós também correspondemos com os cumprimentos costumados, e lhe falámos mais algumas coisas necessárias. Saímos da sua presença com o mesmo acompanhamento, depois de fazerem alguns grandes algumas fuscas diante do Rei pela nossa chegada em sinal de alegria, e chegando a nossa casa fizeram o mesmo, e tocaram mais os instrumentos músicos, até os despedirmos, e aqui nos têm visitado os grandes, Príncipes e Princesas do Reino, mostrando todos para connosco grande reverência, e estimação , continuando a sua alegria, e aqui esperámos com o Rei o melhor  / p. 100 / tempo, e os caminhos desembaraçados para irmos todos para a Corte, que dista daqui muito pouco, e é o assento dos Reis, e em que se acha a Sé, ainda que derrubada, e o Rei espera de entrar sem impedimento de alguém, por ser ele o verdadeiro, aclamado de todo o Povo, e o levantado se acha desamparado do Povo, e se principiará a restabelecer o Reino, e a Religião, como esperamos no Snr.

Mas pedindo isto alguma demora, o Rei despachou o nosso condutor com carta para o Il.mo e Ex.mo Senhor General de Angola, com grandes agradecimentos pelos Padres e pelo presente, e fica também para mandar a sua embaixada, chegando à Corte a tempo, que esteja mais descansado, e sossegado no seu Reino e tem já anuído a tudo, o que se lhe tem proposto. Finalmente, eu Fr. Rafael de Castello de Vide, dos Missionários o mais indigno, dou graças a meu Senhor, sem eu o merecer, me há destinado para uma ocupação, tanto do seu divino agrado, e ainda que tenho padecido alguns trabalhos, são  / p. 101 / nada para o muito, que devo a meu Senhor, e julgo não são trabalhos, mas alívios para quem deseja amar a um Deus, que tanto por nosso amor padeceu, e não é isto tão feio como lá em o descanso, e no meio das comodidades do Reino se representa, tudo se pode com Deus, que nos conforta, e as faltas do necessário não fazem entibiar no que tanto devemos ao nosso Deus. Sim, sem olharmos a que apenas temos algum pouco vinho só para as missas, e nada de pão, e só alguma farinha de pau, e essa pouca, e que nos é preciso valer-nos de algumas raízes cozidas para fazerem as vezes de pão, e que faltam outras mais comodidades, por falta de quem as vá buscar a Angola pela longitude do caminho, e tanto que agora nos achamos sem pão, e só um frasco de vinho para as Missas, sem farinha de pau e nem uma pinga de azeite; sem cera para as Missas, servindo-nos para esta e para nos alumiarmos de algum óleo, que mandámos tirar de umas certas frutas chamadas Gubas,  e daqui se pode coligir as faltas do mais. Ora isto, segundo a natureza, se faz custoso, mas olhando para Deus é alívio, pois esperamos no Senhor a sua misericórdia, como nosso Pai  / p. 102 / amabilíssimo, por quem padecemos, e em quem confiamos muito.

Fazendo o cômputo dos poucos serviços, que este indigno Ministro tem feito ao Senhor, julgo, lançando as contas muito pelo largo, e pelo seguro, que tenho baptizado só à minha parte, cinco mil e novecentos, e mais, entre infantes e adultos, e destes alguns de cinquenta ou mais anos, além de muitos que, pelo ordinário, que vinham de vinte anos, e muitas mulheres, que vinham já com seus filhos nos braços, baptizar-se as mães e os filhos; e quantos vinham à confissão, já velhos, e era a primeira vez, que se confessavam, e por acaso se achava um que se tinha confessado uma vez, e na administração deste sacramento se passava grande parte do dia de manhã, e de tarde, e ainda de noite, muitos e muitos que, estando havia muitos anos amancebados, se vinham a pôr em graça pelo Santo Matrimónio. Além de tudo isto, lhe fazia várias práticas para os tirar daquele mau caminho, pelo que muitos vinham acudir pela sua salvação.

Além disto, não deixo de lhe fazer vários Catecismos e práticas, com que lhe ensino os rudimentos da fé, e lhe tiro muitas superstições; numa  / p. 103 / particular, procurei emendar em um casado, que no enterro da mulher a seguia à sepultura com um certo disfarce, que não me pareceu bem, porque ia às costas de outro preto coberto com um grande pano o que eu vendo, o mandei logo tirar, e ainda que um me aconselhava, que o deixasse porque podia acontecer algum mal, eu sem temer este insisti em tirar aquele mau, e ao parecer supersticioso costume, a que obedeceu, gritando, que se queriam que o enterro fosse como de Cristão, acompanhando-o eu, fizesse o que lhe mandava, se não que me retirava, que o enterrassem como gentio,  cujo costume seguiam. Fora disto, os apartava das suas danças, que não pareciam boas, e não temia de ir aonde estavam, e corrê-los com o cordão, que eles não esperavam, porque, sentindo a minha chegada, logo fugiam.

No meu ministério de Vigário Geral, armei de Cavaleiro, e professo na Ordem de Cristo, segundo o seu costume, a dois Fidalgos, e ao nosso condutor, que tinha vindo de Angola, a quem o Rei fez a mercê de fazer Cavaleiros,  cuja acção se fez na presença do Rei, com grande aparato,  segundo pede a terra, e é costume dos Vigários Gerais lhe lançar o Hábito, e tomar o juramento, e ao nosso  / p. 104 / condutor, além de outras dádivas, fez o Rei a tal mercê por ser a maior honra, que aqui se faz só aos grandes Fidalgos, pelos grandes serviços, que havia feito de nos conduzir ao Congo; e estas três mercês primeiras as fez o Rei de graça, quando é aclamado e as mais para diante custam muito bem aos que as querem.

Principio eu, e os meus companheiros já, a fazer escolas, a nelas já aprendem os primeiros rudimentos, quatro filhos do Rei; e os mais se dispõem a recorrer ao nosso ensino; e esperamos no Senhor abençoará nossos trabalhos, a quem seja toda a glória, e prospere e felicite no sei reinado a nossa Soberana Reinante, cujo zelo tanto no bem destas almas se acendeu.

 

Esta é a Relação da minha viagem desde o Reino de Portugal, até o de Angola, e daí até o dilatado Reino do Congo, escrita com toda a verdade, deixando ainda de referir muitas coisas de menos suposição, e outras, que vão incluídas no que disse em comum, assinada de meu nome, o que tudo seja para honra, e glória do nosso Deus, e Senhor, e para animar a meus Irmãos, para um tão alto e meritório fim.

Reino do Congo, 16 de Julho de 1781.

Fr. Rafael de Castello de Vide, Filho da Santa Província da Piedade, o mais indigno; Missionário  / p. 105 / e Vigário Geral neste Reino, sem algum merecimento para isso.

 

Via Arlindo-Correia

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